31.7.08

"Só um estantinho, por favor"

Não dá tempo de escrever, só de pensar, pensar e pensar. Isso é bom. Entre um intervalo e outro, o debate sobre o que é realmente importante.


"And love is not the easy thing
Is the only baggage that you can bring
Love is not the easy thing
The only baggage you can bring
Is all that you can't leave behind"

And if the darkness is to keep us apart
And if the daylight feels like it's a long way off
And if your glass heart should crack
And for a second you turn back
Oh no, be strong

(Chorus)
Walk on! Walk on!
What you got, they can't steal it
No, they can't even feel it
Walk on! Walk on!
Stay safe tonight

You're packing a suitcase for a place
None of us has been
A place that has to be believed to be seen
You could have flown away
A singing bird in an open cage
Who will only fly, only fly for freedom



(Chorus)
Walk on! Walk on!
What you got, they can't deny it
Can't sell it, or buy it
Walk on! Walk on!
You stay safe tonight

And I know it aches
How your heart it breaks
You can only take so much
Walk on! Walk on!

Home!
Hard to know what it is
If you never had one
Home!
I can't say where it is
But I know I'm going
Home!
That's where the hurt is

And I know it aches
And your heart, it breaks
And you can only take so much
Walk on!

You've got to leave it behind:

All that you fashion
All that you make
All that you build
All that you break
All that you measure
All that you feel
All this you can leave behind
All that you reason, it's only time
And I'll never fill up all I find
All that you sense
All that you scheme
All you dress-up
All that you've seen
All you create
All that you wreck
All that you hate

22.7.08

agora, vai!


dança
dança
dança
pança
comilança
esperança
logo eu subo e dou risada da balança...


Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar, quero ver o seu corpo dançar sem parar!

11.7.08

o ladrão



Chegou em casa esbaforido com a mochila pesada já nas mãos, fora dos ombros doloridos. Foi tirando a roupa pela casa e chutou os sapatos pra cima; o cachorro veio de encontro com o rabo abanando, brinquedo na boca, euforia. Não ganhou atenção alguma. Seu dono queria dormir. Correu pro quarto e se jogou na cama desarrumada e empoeirada, devido à janela aberta há três dias; janela que interligava a segurança de um cômodo escuro à claridade e movimento de ônibus, carros e pessoas da avenida.

Jogou-se na cama e cobriu o rosto com a coberta, como fazia em tempos nos quais seus pés ficavam longe do final do colchão. (Um tempo distante, quando medo de lagartixa era um segredo vergonhoso. “E se alguma subisse por ele durante a noite? Essas danadinhas geladas e esquisitas adoram a calada da noite, eu sei...”. A solução era cobrir-se todinho e se certificar de que o lençol não oferecia nenhuma brecha).

Pois, 100% coberto e imóvel fechou os olhos e logo dormiu. Rolou de um lado para o outro, rangeu os dentes, teve pesadelos, suou, chorou. Acordou e passou a mão no espaço ao lado. Sentia falta. Sentia falta de sua inocência e sabia que nunca mais a recuperaria. O cachorro mordeu e rasgou toda a mochila, deixando em evidência a culpa, que não o havia deixado dormir em paz. Olhou para o chão e viu os livros e discos preferidos dela ali. Vingança vã do que ela havia feito: roubado suspiros, sorrisos e coração. Ela não devolveria, ele também não. Agora, cada folha de cada livro amarelado lhe contaria uma história e cada faixa de cada disco embalaria seus momentos sórdidos. Ele tinha se tornado um ladrão para sempre. De uma vez por todas o medo de lagartixa havia sumido e dado lugar a um medo maior, o medo de fraquejar.

30.6.08

retrospectiva

Quando eu era criança eu ia a pé pra escola, corria e andava de bicicleta a tarde toda e os fins de semana inteiros pelo condomínio onde morava. Era uma rua fechada extensa e, no final dela, havia uma área de lazer com piscinas e quadra de grama. A gente ia da portaria até a quadra e da quadra até a portaria inúmeras vezes. E sem tênis com amortecedor, era de havaianas mesmo (aquelas antigas, azuis, pretas, verdes ou amarelas, sempre com branco). No meio do corre-corre brincava de pular corda, pular elástico, esconde-esconde, “baleado” (como chamam Queimada na Bahia). Não era raro eu passar mal e ter que tomar injeção de Dramin (tenho alergia a Plasil) para cessar o vômito. Mais tarde descobrimos que eu tenho prolapso na válvula mitral, o que é um probleminha sem muita importância, que não vai me matar, mas que me fez levar no bolso um atestado médico para não prática de Educação Física a vida toda. Ok, mesmo assim eu jogava vôlei na rua. E continuava ligada na tomada.

Entre 11 e 17 anos eu andava mais de 15 km por dia em terreno acidentadíssimo (quem conhece Itatiba entende o quanto o superlativo foi cabível). Quando conquistei minha carta de motorista (hoje sou pilota) e logo após entrei na faculdade e consegui um estágio, o sedentarismo poderia ter me pegado, mas resisti. Conheci as delícias de um choppinho vez ou outra, de um vinho bem descansado e, com dinheiro próprio, pude comprar inúmeras guloseimas inexistentes no meu então cardápio, graças à triagem da minha mãe. Com todo este novo mundo a meu bel prazer, poderia ter me entregado, mas não. Resisti e entrei numa academia. Comecei a trabalhar e meu trabalho me fazia caminhar bastante e, numa correria total, minhas panturrilhas tornavam-se as mais bonitas já vistas.

Tudo isso acabou. Preciso fazer alguma coisa, virei rainha do escritório sem direito AB Toner. Sim, este post ficou chato e acabou de repente. Ficou chato porque é assim que estou hoje. E ponto. Um bom dia pra você.

25.6.08

Eu quero morrer como a Ruth Cardoso

Eu quero morrer como a Ruth Cardoso, rápido, sem esperar.
Eu quero morrer e ter meu marido chorando pela morte ter nos separado. Calado por lágrimas quentes derramando um choro morno em minha presença apagada. Emudecido pela falta de meu espírito num corpo morto dentro de um caixão sem cores.
Eu quero uma morte romântica, triste e sóbria, como a de Ruth Cardoso.

Eu quero morrer com rugas semelhantes às de dona Ruth. Quero que elas representem uma coleção de feitos. Quero morrer falando com um filho, quero morrer sem tempo de me despedir. Quero morrer por meu coração ter trabalhado além da conta.

Eu quero morrer como a Ruth Cardoso, sendo eu e não primeira dama. Eu quero morrer com minha história de vida calcada em pedra. Eu quero morrer sendo sócia de uma vida conjunta, quero ser completude e relevância para mais de pelo menos meia dúzia de pessoas, sendo isso reconhecido por não ter sido metade, mas meu todo.

Eu quero morrer sem óculos, como a Ruth Cardoso. Eu quero não precisar ver a última cena. Quero só sentir o alçar vôo das asas da minha alma pelo impulso das minhas pernas.

16.6.08

Para voltar

A temperatura até que estava alta para uma tarde de meados de junho, mas a sensação térmica pedia por uma blusa de manga comprida reforçada, já que o vento bagunçava os cabelos e assoviava alto ao pé do ouvido. Entrei no carro e, como pouco gosto de fazer, fechei o vidro da minha janela. Recostei a cabeça nele e observei os pedaços de chão entrando embaixo do carro em movimento, ou, sob outra perspectiva, o carro passando por cima da rua cheia de pegadas, passos, marcas, freadas, histórias. Tanto faz. Vi bicicletas, pessoas correndo, algumas paradas também passaram. Passou um posto de combustível, uma doceria, uma lanchonete. Passava tudo quase tão rápido quanto a minha presença em cada um daqueles trechos de cidade.

O sol estava se pondo e as nuvens, que pedrentas explicavam que haveria chuva ou vento no fim do dia, também já tinham deixado claro que não iriam permitir que a bela estrela desse seu adeus com ar glorioso. Ele daria lugar para a lua (que já dividia o lado oposto do céu desafiando sua majestade) sem despedir-se formalmente, sairia à francesa. Mas, de forma tímida, como que para não desapontar, preparou uma surpresa. Quando o carro seguia por mais uma rua, que levaria para a saída da cidade, dezenas de plátanos com folhas avermelhadas pelo outono nos davam tchau. Mesmo fraco, o sol abençoou as árvores magras com uma cobertura dourada imortalizando um momento que, até então, era simplesmente uma passagem por cenários urbanos comuns e confundíveis.
Felicidade é aquele milésimo de segundo que você repara que você está no lugar certo, com a pessoa certa, na hora certa, com um frágil raio de sol iluminando seus olhos para que, além de mais brilhantes, eles sejam capazes de refletir aquela eufórica sensação de privilégio em slow motion, esquentando o mundo inteiro sem mesmo precisar se mover. O duro é que, se você não perceber este milésimo de segundo, nada fará sentido e felicidade será uma palavra que rima com caridade, maldade, ansiedade, e mentira, não verdade.

4.6.08

Dia dos Namorados


Perfumou-se, colocou uma bela saia e sapatos bem lustrados. Conferiu o presente ainda dentro da sacola. Laço amassado, desfez e refez com a fita de cetim já marcada. Não ficou bom, tirou, passou com o ferro meio morno. Laço novo. Ele chegou para buscá-la com flores. Ela entregou a caixa e ele disse ter adorado os finos lenços bordados. Foram ao cinema e ele a deixou em casa antes das 10h da noite, como impôs o pai. Dois meses depois ele se foi sem volta, e já faz mais de 50 anos. Suspira de saudades, foi seu último Dia dos Namorados acompanhada.

Escreveu um bilhetinho numa daquelas folhinhas quadradas de bloquinhos de papel de propaganda. Não gostou, amassou. Escreveu outro, mas as linhas imaginárias ficaram tortas. Amassou. Resolveu mudar também a mensagem. “Hummm, má idéia”; amassou. Deu-se conta de que estava escrevendo a lápis, "como assim?!". Amassou de novo. Quando pegou a caneta, escreveu as calculadas frases e assinou... "puxa, ficou ótimo!". Ao entregar com rosas colhidas no jardim, a moça leu: “Eu amo você. Eu amo você. Eu amo você, meu amor.”

Ele era diferente. Ele era tudo. Ela queria algo especial. Com um mês de antecedência vasculhou cada prateleira de cada loja de cada rua da cidade. Não encontrou nada. Como dar uma camisa, para alguém de olhos tão brilhantes? Como dar um isqueiro, um chaveiro, um objeto qualquer, para alguém tão sensível. “Já sei! Farei um presente com minhas próprias mãos!”. Comprou retalhos de linho branco e bege, linha azul petróleo. Cortou e costurou o tecido. Bordou as iniciais do nome dele. "Perfeito". O Dia dos Namorados seria comemorado no cinema, com Cantando na chuva, para ficarem bem pertinho, sem o pai contestar.

25.4.08

Um dia diferente no corredor esquecido

- Olá, preciso fotografar os quadros que estão no auditório do térreo, onde está a chave?
- A sala está reformando, os quadros estão embalados um a um e colocados em ordem, não posso liberá-los. Vai que você embaralhe a ordem. E além do mais é um trabalhão embalar com o jornal novamente. Você entende, senhora?
- Faremos o seguinte, você acompanha o processo para eu não correr o risco de bagunçar seu trabalho e eu não toco em nenhum quadro. Mas preciso fotografá-los. É para um projeto do prefeito e o fotógrafo está aqui; descemos em 15 minutos.

Assim que eu e o fotógrafo chegamos ao subsolo e fomos até o local combinado, um corredor mal cuidado que dá acesso à garagem e é usado por poucas pessoas, em geral funcionários de manutenção e limpeza, percebi que as três pessoas que nos esperavam sentiam-se importantes. Logo entendi: os egos inflados orgulhavam-se por estarem atendendo a uma necessidade do prefeito, autoridade máxima da cidade, mas mais importante, autoridade máxima na hierarquia respeita por eles, que estavam na base.

“Puxa, se você tivesse pedido antes a gente já preparava tudo, tirava os jornais, deixaria aqui em ordem. Dá um trabalho fazer isso!”, disse o responsável pelo almoxarifado, valorizando o serviço. Logo, uma mulher simples com crachá indicando fazer parte da equipe, e um senhor corcunda e aparentemente fraco e cansado, com a mesma insígnia no peito, começaram a trazer os pacotes. Quis ajudar, eles não deixaram. Era serviço deles. O superior ordenou que não tirassem da ordem e fossem desembalando com cuidado para que o durex não se perdesse, e pudessem ser novamente embrulhados e guardados. Era assim que ficariam até que o auditório em reforma estivesse pronto. Só então poderiam voltar a ocupar seus distintos lugares na parede, onde marcavam a trajetória de toda uma cidade.

Era quase 11h da manhã quando isso acontecia. Enquanto o fotógrafo fazia as imagens com cada quadro deitado no chão, naquele corredor acimentado, frio e visivelmente sujo, a equipe da limpeza começou a chegar para bater o cartão de ponto. Era hora do almoço deles. Ao verem o corredor abandonado, agora repleto de muito jornal amassado e os 32 grandes quadros no chão, percebi que os olhos de todos brilhavam. Algo novo acontecia ali.

Um começou a contar que conhecia tal passagem histórica relacionada àquele quadro, outro se gabava por conhecer algo mais antigo. Um deles, um dos mais antigos de casa, apontava que se parecia com uma das personalidades ali emolduradas. Outros só riam da cena. O fotógrafo, para eles, era uma personagem envolta em mistérios. O que fazia fotografando fotos? Para quê serviriam? O que ele faria com elas? Por que a atividade estava sendo feita ali, naquele corredor esquecido, longe dos mármores e revestimentos de boa qualidade que os outros todos andares do prédio ostentavam? Não demorou muito, a curiosidade foi rompida: “Pessoal, podem passar por aí com cuidado. O moço está fazendo um serviço pro prefeito!”.

Pronto! Todos queriam ajudar e logo foram colocando a mão na massa. Os que sobraram fingiam desprezo e saiam indignados com os outros, que ao invés de almoçar, estavam ali, embalando quadros em jornal velho. Pura inveja. Engoliam seco a vontade de carregar até o almoxarifado pelo menos um daqueles objetos. Os que conseguiram uma peça para embrulhar sorriam e comentavam bobeiras sobre a prefeitura, a cidade, a história, o amor pela terra, pela região. Naquele momento, o corredor esquecido, com pessoas esquecidas em suas profissões e quereres, experimentava um pouco de glória.

23.4.08

presente de aniversário


Queria poder te comprar todas as motos velozes do universo.
Queria encomendar no mercado negro a melhor guitarra e que ela viesse com um chip de aprendizado, como naquele filme.
Queria também que o note mais poderoso do mundo custasse R$ 1,99, para eu poder te comprar uns 10 de uma vez.
Queria que todo dia a gente pulasse juntos daqueles 53m de altura, pra que você gritasse o que você gritou bem alto, sempre, cada dia desafiando mais a sua garganta.
Queria muito encontrar uma lâmpada mágica e, quando esfregasse, surgisse um gênio. Eu ia pedir que nós fôssemos para uma ilha deserta pelo menos uma vez por mês, que ele conseguisse carros maravilhosos para passearmos com os cabelos ao vento e que me desse controle para eu nunca mais te fazer chorar.
Não sei o que comprar com o pouco dinheiro que eu tenho. Um disco do Legião ou dos Beatles não seria suficiente. Do Metalica seria muito anos 80, do ACDC, pelamor, não gosto.
Que nem criança fazendo desenho com lápis de cor ou dando uma foto pra mãe como se fosse o máximo, vou embalar um sorriso e te dar de presente. E ele vai se repetir todo dia, cada vez que você olhar para ele. Um dia será um sorriso tímido, outro, um sorriso bobo, outro, um sorriso aberto, outro, um sorriso malandro, outro, um sorriso sedutor, outro, um sorriso triste, para você puxar e deixá-lo feliz, à sua moda. Espero que você goste. É de todo meu coração.

carta de amor

Meu amor, eu amo você. Você estava lindo hoje. Meu coração pulou quando te vi de azul. Me desculpa não fazer o trabalho com você hoje, precisei mudar de grupo porque a chata daquela menina falou pra todo mundo que eu estava namorando com você e eu não queria que soubessem. Viu, não fica chateado. Mas também não manda bilhetinho na sala, porque eles vão descobrir que é verdade (estou mandando esse porque sou discreta). No recreio a gente se encontra na frente da 6ª A, porque ninguém fica lá nessa hora, porque fica longe da cantina.

Queria te falar mais uma coisa... Adorei quando você estava indo embora e desenhou um coração no ar! A sua mãe estava perto e não viu, foi superlegal, ninguém viu, só eu. Eu tenho certeza que a gente vai ser muito feliz e que aquela chata não vai atrapalhar dizendo pra todo mundo que sou eu quem escrevo as redações para você e é você quem faz minha lição de matemática. Eu amo você.

Viu, mais uma outra coisa. E essa é séria. Ainda não estou preparada para dar beijo de língua. Você pode esperar até o mês que vem? Aí te dou uma resposta de quando acho que farei isso. Vou procurar no Google se não é anti-higiênico. Eu sei que todo mundo faz isso, mas seilá.

Mil beijos, te amo, te quero e te desejo mais que tudo! Quero casar com você daqui 10 anos mais ou menos.

Assinado, sua namorada secreta da sua sala, 5 ª B.

18.4.08

só se fala nisso

A mãe chorou na missa, tá salva. O pai é homem, tudo bem não chorar.

“Mostra, câmera! Ela não chora, a madrasta não chora!”
Cara, pelo jeito ela vai ser presa, está em estado de choque, só esperando a sentença, com um fio de esperança de o caso se reverter.
Lógico que ela não chora!
Ô povo latino de sangue quente!
Ô urubuzaiada!
Ô sensacionalismo pobre...

Ô sexta-feira que não acaba!

1.4.08


Odeio brigadeiro, odeio os chocolates todos.
Adoro legumes e dieta, assim como azeitonas e comida chinesa, mesmo que essas coisas não tenham muito a ver com as primeiras.
Adoro axé e Paulo Coelho.
Detesto comprar roupas e viajar, me cansam!
Adoro ficar sozinha nos finais de semana.

Tá, só pra não esquecer da brincadeira do 1o de abril. Quando era criança, era uma delícia essa baboseira :)

31.3.08

Base para um filme trash dramático com uma protagonista burra

Pegou uma pá e começou a desenterrar. O calor estava imbatível e o suor logo começou a escorrer pela testa e pingava na terra pela ponta do nariz. Os pés descalços pisavam naquela terra como se não houvesse nada ali, mas sabiam que havia algo sim, e os dedos se comprimiam o máximo que podiam para que não tivessem contato total com aquele resto de algo vivo, já bem morto, ali.

O medo tomou conta e um calafrio percorreu todo o corpo de pouco mais de um metro e meio de altura e peso médio. Sabia que não era certo desenterrar o que não lhe pertencia. Sabia que não era certo desencavar aquilo. Em conseqüência, poderia ser rasgada por inteira. Mas persistia e a terra não parava de sair pela pá, e parecia que não tinha fim, e não parava de tentar encobrir o que tentava achar.

O sol se pôs e ela continuava ali, já ajoelhada, cansada, com vestido sujo e pés aconchegados num monte de terra já retirada do buraco. A luz da lua iluminou algo bem no fundo e com a pá sentiu algo rígido. Os braços não alcançavam o fundo e, desesperada, começou a cavar o entorno. Cavou por mais algumas horas e conseguiu ter contato com parte do caixão.

Suada e trêmula, abriu a parte do caixão que podia. Assim que o fez se arrependeu. Todas as ex-namoradas dele saíram gritando e rindo de forma cínica e malévola de lá e começaram a enforcá-la, a xingá-la e a caçoar dela. Umas lhe espirravam perfumes, outras a envolviam com laços de presentes, outras mais impiedosas cantava músicas e recitavam trechos de filmes especiais. De repente, o céu se transformou em uma enorme tela e todas as ex-namoradas dele projetavam os melhores momentos juntos entre as estrelas.

Enlouquecida e rasgada, não só nas vestes, mas na pele e no coração, deixou-se levar pelas rejeitadas. Juntou-se a elas. Deitou-se no buraco e se cobriu com a terra que ela mesma havia retirado do lugar. Esqueceu o tempo e misturou erroneamente o presente e o passado. Boicotou o futuro e morreu.

Impressão ruim

Entrei e procurei pela carteira com anotação 24, meu número, segundo o fiscal. Era na fileira do meio, que separava as outras quatro fileiras da sala, duas de cada lado. Logo reparei que na coluna um, linha um, parede da esquerda, havia um cara dormindo, encostado num moletom amarelo. Na mesma coluna, última posição, outro cara com idade para ser pai do primeiro também cochilava. E roncava. Ele tinha cabelos grisalhos e usava uma calça jeans notadamente desbotada, camisa xadrez surrada e sapato com sola bem, bem, bem gasta.

Girei meu pescoço e fiz um reconhecimento mais detalhado da sala. Ali, entre as 51 pessoas dispostas, apenas seis tinham menos de 35 anos – segundo minha avaliação – e quatro das outras, menos de 45. Foi deprimente. Mais ainda foi reparar que dos 51 presentes só eu e mais três pessoas não tínhamos roupas surradas e sapatos meramente funcionais como da “maioria esmagadora”, como muitos usariam a expressão.

Ser jornalista nunca foi fácil, mas é triste perceber como grandes profissionais hoje sofrem. Sofrem pela falta de mercado, sofrem pela falta de oportunidade, sofrem pelas poucas vagas destinadas à função, e desempenhada por gente que muitas vezes nem escrever direito sabe. Pior é que, neste universo inseguro, grandes jornalistas desacostumados com tecnologia se vêem chutados da área e ter no CV uma lista de prêmios de reconhecimento intelectual e anos de experiência em liderança de equipes não vale muita coisa, se não se sabe assinalar qual menu do Photoshop abre determinada gama de opções.

Sou parte dos 405 jornalistas inscritos para concorrer a uma das quatro vagas para o cargo de Editor II na Imprensa Oficial de São Paulo. Ontem fui fazer a prova e, pelo que vi, poucos dos 405 não foram. Os quatro que passarem receberão pouco mais de R$ 3 mil e ouvi muita gente, aquela gente com cabelos brancos na cabeça, comentando com colegas o desejo de conseguir “aquela bocada”, pois “salário assim tá impossível por aí”. Tudo bem que esse valor é inicial e há muitos benefícios, além do fato de todo mundo saber que é fácil encostar-se no serviço público concursado (não sei como alguém consegue achar vantagem nisso), mas, mesmo assim, não dá pra olhar a situação e se sentir confortável.

Confesso que não estudei nada e me senti "A" trouxa que gastou o valor da inscrição e ainda combustível, pedágio e horas da manhã de um precioso domingo à toa. Mas acho que valeu a pena por duas coisas: 1) eu dar mais valor para o que tenho; 2) confirmar que não sou fraca e nem burra, já que fiz sussa a prova sem me preparar.

Vivo reclamando do meu salário e do dinheiro que não sobra, mas estava bem vestida e pude chegar até lá com conforto. Tive vergonha de todos os meus reclames. Eu merecia ser a primeira peça eliminada daquela sala, que mais parecia um tabuleiro de damas, onde uma canibalizaria as outras para não ser comida. Saí com o estômago embrulhado, dor de cabeça e a imagem de uma senhora cafona e descabelada testando umas mil vezes a tinta de uma Bic velha num rascunho, antes de começar a prova. Talvez tenha dado azar e não é nada disso. Talvez não.

17.3.08

cotidiano raro

Estava subindo a rua e acompanhei uma despretensiosa cena romântica. Ouvi alguém comentando que ela é três anos mais velha que ele, mas não parece. De mãos dadas, eles atravessaram a rua e seguiram em frente bem devagar. Sorriam e cochichavam toda hora. Pareciam recém namorados. Casal de filme. Casal que juraria não existir.

Invejei a jovialidade da dupla que não se largou naquela fração de tempo ali, enquanto eu descaradamente invadia a vida alheia. Quando ele entrou na padaria e ela não conseguiu subir o degrau por causa das pernas bambas, ele não pensou duas vezes. Chamou ajuda, pegou a bengala e calmamente esperou que ela arrumasse, tímida, o pente que prendia os cabelos brancos e finos. Trêmulo, apertou a mão do jovem que ajudou sua mulher a permanecer ao seu lado naquele momento. Virou-se para ela e perguntou: “O de sempre, meu amor?”. Ela respondeu “sim, três pãezinhos e dois docinhos de coco”.

O que ninguém sabia sobre Monalisa

Vivia se depreciando. Não podia ser bonita e nem feliz. Era feliz e bonita, mas fazia de tudo para boicotar essas duas coisas. Ficava bem de azul, mas comprava só roupas vermelhas ou em tom de verde escuro, que não lhe caiam bem. Quando estava magra, se entupia de comida para obter uma forma pouco atraente.

Algumas vezes, a espontaneidade acabava com seus planos. Quando se dava conta estava sorrindo azul pra todo lado e conquistando amizades. Mas se passava por uma rua e via a alegria estampada no rosto refletida no vidro de uma janela, fechava a cara, puxava a boca para baixo e fazia cair os ombros. Um dia se perguntou o motivo daquela novela que só tinha uma personagem: ela. Qual seria o desfecho daquele drama? Não sabia a resposta e tinha medo de tentar entender.

Em segredo, à noite, depois que a cidade adormecia, entre perfumes e pincéis, ela se preparava para dormir. Sentia-se linda com o delineador bem traçado e o rímel que alongava os cílios. Penteava os cabelos dividindo-os ao meio e vestia seu melhor vestido. A cama vazia exteriorizava um vazio interno profundo e de mau hálito. No dia seguinte, antes de todos, acordava, lavava o rosto e punha-se feia. Até que um dia Leonardo a viu. E seu sorriso tímido, tentando disfarçar o que realmente ela era, entrou para a história.

7.3.08

já que não posto de fds...


Um feliz Dia Internacional da Mulher cheio de liberalismo americano!
Abraços capitalistas também para as feministas!
Eeeeee! É o nosso dia! Uhuhuhu!

Boushit!

5.3.08

a bailarina


A bailarina era uma bailarina comum
Mas quando colocava a música mais querida para tocar
A bailarina rodopiava em câmera lenta
Desafiando a poeira que brilhava no ar
Rodava e rodava e todas as luzes convergiam para ela
Que refletia raios brilhantes iluminando os olhos de quem a via dançar
A bailarina descortinava os cabelos enquanto ficava na ponta dos pés,
E distribuía sorrisos satisfeitos e doces
Com ternura, movimentava-se toda e toda ela se entregava ao vento
A bailarina fazia gestos delicados e
Era tão linda, tão meiga e tão pura que machucava os mais brutos com sua doçura
Ela cobria o salão desenhando elipses perfeitas
Ela deixava um rastro de perfume suave, que era soprado pela brisa
Ela tonteava as pessoas e tonteava os sons e tonteava o mundo todo
Até que
Quando ela apertava o stop
E a música mais querida parava
Ela voltava a ser uma bailarina comum.

27.2.08

lembrando da morte.

Não é sempre, mas quando recebo uma notícia de morte lembro do meu avô. E lembro do meu amigo Maneco. Um morreu velho, mas com coração jovem. O outro era jovem e tinha um coração de moleque. Nenhum dos dois deveria ter ido a meu ver, mas o julgamento não passou por mim, claro.

Neste final de semana faz três anos que o segundo se foi. Menos de uma semana antes da morte, meu amigo me dizia estar apaixonado e que felizmente tinha encontrado uma pessoa especial. Também estava feliz profissionalmente e só se arrependia de trabalhar demais e não ter tempo para pedalar. Adorava trilhas de bike. Era gordinho, mas as panturrilhas seguravam a onda na hora das subidas do acidentado relevo da cidade onde morava. A última vez que o vi, antes da morte, estava no hospital e, por uma fresta do quarto, eu e mais duas xeretas vimos uma enfermeira chacoalhando sua cabeça para o comprimido descer garganta abaixo. Cena deprimente, cena que me fez chorar e rezar para que, se ficasse vivo, não tivesse que tomar remédios daquele jeito. Na verdade foi claro que já estava morto.

A última vez que vi meu avô vivo não me lembro. Faz tempo. Quando morreu já não estava vivo há pelo menos um ano e meio. Não lembrava mais de ninguém e, se lembrava, não tinha forças para dizer nada e nem para acenar ou gesticular qualquer coisa. Tinha escaras pelo corpo e parecia bem mais velho do que era. Quando era vivo, era muito vivo. Assobiava, cantava, contava piadas, adorava caminhadas e esporte. Quando o câncer e seus olhos verdes já estavam cinzas, foi um alívio. Deve ser assim pra todos os que ficam. A morte é implacável e também dói em quem gosta dos que estão morrendo.

E pior. Ela, do nada, nos lembra de sua soberana existência.