24.9.08

momento chicletinho

Gosto de ouvir músicas de dor de cotovelo e não me encaixar, mas gosto mesmo é de me acomodar em suas notas meio desafinadas e na sua caixa de distorção (é assim que chama aquele tréco cheio de botões?). Gosto de torcer para você ficar mais um pouquinho e dar certo, gosto de ficar presa entre seus caninos. Gosto de ser sua presa, e de te prender também. Gosto do seu sofá vermelho e de colocar meus pés ao lado dos seus na cadeira fora de lugar e de ter medo do suspense à frente ou da sua cabeça baixa no batente da porta. Gosto que você seja assim, grande, pra eu me sentir pequena e sua, gosto de ser cuidada por você. Gosto de lembrar de você e de mim como passado, só pra ficar mais feliz sabendo que é presente. Gosto de você embrulhado ou só numa sacolinha. Gosto de você mesmo num envelope, sem nem etiqueta, sem capa e caixa de DVD. Não preciso ter o gênero, nem a data de gravação, ou a trilha sonora no estojo preto. Eu conheço a história e gosto dela. Gosto de tê-la sempre no play, como a fita "Os Caça Fantasmas", que minha irmã via cinco vezes por dia em 1990 e alguma coisa. Gosto de fazer mil coisas, mas você estar sempre no pensamento. Gosto de você ser parte e não incomodar. Você está em todos os lugares, até aqui.

queria a velocidade da luz nos dias úteis (?)


Trabalho, escrevo, corro pra lá e pra cá, bebo mais água que o usual, arrisco subir uns degraus ao invés do elevador, quero gastar meu tempo, quero que ele acabe, não quero que ele me prenda como cola, como aquela cola de armadilha de rato. Quero ganhar uma corrida que canse o tempo e faça o relógio parecer acelerado, e acabado. Saio, rio, bebo, como, falo com pessoas na mesma língua que eu. Busco palavras diferentes, assuntos diferentes. Quero sucumbir o tempo, quero sentir que ele é menor do que realmente é. Tento enganá-lo e persuadir meu relógio biológico que as horas não são longas demais. Olho pela janela do sétimo andar, viajo nas montanhas que ficam ao fundo da paisagem cheia de ruas e carros em primeiro plano. Quero que o tempo corra como os carros e motos que cortam a frente de ônibus e pedestres no chão. Quero que o tempo seja inversamente proporcional à lenta velocidade das nuvens que pouco se movem entre as montanhas. Quero que o tempo passe logo, quero que chegue logo o fim de semana para pelo menos um tiquinho eu ter você em slow motion, se possível for.

19.9.08

17 de novembro de 2007

Pernas e pernas, coxas. Estômago borbulhante encostado no dele. Costelas cobertas. Próximas. Carne. Seios inflados num sutiã de armação, adrenalina correndo nas veias, artérias e músculos, e na gordura localizada, e na pele e nos pelos. Amassam o peito dele, empurram, sentem, saboreiam. Braços, abraço, mãos de um lado ao outro das costas. Pescoço nu, perfume cru, pescoço cru. Gosto sem cozer. Oxigênio em abundância enche os pulmões, inspira, expira, ar quente em pouca distância. Boca, língua, dentes, lábios, papilas e braços e pernas e pescoço cru. Olhos fechados para imortalizar e fazer real. Ouvidos abertos fazendo a música penetrar. Boca. Língua. Lábios. Papilas. Braços e pernas e mãos. Aroma, sabor, textura. 17 de novembro de 2007, semana passada, semana que vem.

3.9.08

a cozinha

Dentre as experiências na cozinha havia pouca coisa a salientar: um mousse de limão espetacular, tentativas amargas de fazer arroz na panela com solução encontrada quase um ano e meio depois de muita desgraça e um susto provocado pela união de frango, óleo e fogo. O pequeno espaço que guardava uma geladeira novíssima e sempre 99% vazia, um fogão especialista em assar comidinhas prontas e uma pia com armário repleto de panelas e travessas quase sem uso, era praticamente cenográfico. É verdade que sempre tinha louça suja na pia, o que dava bastante veracidade ao ambiente, mas a cozinha não era um local de fumaça aromatizada por temperos e respingada por caldos saborosos. Não. Era mesmo o que tinha depois da porta de correr da sala, e o que vinha antes do armarinho de dispensa com o soberano microondas em cima. O teto ainda cinza pelo resultado da citada união de frango, óleo e fogo continuava assim desde o ocorrido mais de 365 dias antes. O relógio de parede sem pilha continuava sobre a banqueta de madeira e o pingüim de pelúcia estava imóvel desde sempre, no alto e sem resquício algum de gordura, apenas pó.

Em toda a história daquela cozinha só um dia deste ano teve destaque, o dia 2 de agosto. Com a presença das caixas na sala, a cozinha ganhou atenção e uma vontade enorme de fazer aquele maquinário enferrujado funcionar emergiu dos tupperwares escondidos na profundeza de uma gaveta. De comestível havia poucos elementos: açúcar, barrinhas de cereal, macarrão penne, um pacotinho de gelatina, uma lata de creme de leite e uma de leite condensado. Assim, o avental saiu do ganchinho na parede, o abridor e colheres das gavetas e a fôrma de pudim foi lavada e enxugada com pano de prato limpíssimo. O mix elétrico mexeu ou ingredientes à base de leite com a gelatina recém feita na preferida panela vermelha. Pronta, a sobremesa foi para a primeira grade da geladeira, lugar de respeito. Depois que as caixas engolissem tudo, o doce seria companhia e remédio. Seu papel era importante. Tratou de manter-se bem firme e gostoso.

a.c e d.c

Depois que saíram do carro, as caixas subiram pelo elevador e ficaram na sala. Elas ocupavam uma parte considerável do chão. Estavam amontoadas e podiam enxergar também a cozinha e a pequena área de serviço. “Logo vamos engolir tudo o que tem nessas gavetas!”, comentou uma com malícia. Ao que outra completou: “Não vai sobrar nenhuma coisinha também em cima dos móveis. Olha aquelas velas ali, e aqueles castiçais. Vão ficar todos amontoados aqui em mim, hehehe”. As caixas riam sarcasticamente das peças de decoração, dos quadros, das toalhinhas coloridas, dos livros e CD´s, de tudo que perderia sem lugar.

Elas ainda estavam em um canto, mas logo dominariam o pedaço e sabiam disso. Aliás, aguardavam ansiosas pela apoteose. Passaram a noite imaginando serem recheadas de partes de vida de objetos inanimados. De lá, iam para um caminhão fechado e escuro e tudo que engoliram seria eliminado apenas quase 200 km de distância depois. Elas eram más. Elas sabiam que fariam diferença, pois elas carregariam história sem deixar pedra sobre pedra. Elas iriam colaborar ativamente para o fim de uma fase. Elas eram divisores de águas. De repente, criara-se uma era: antes das caixas e depois das caixas.

27.8.08

às vezes...

Às vezes dá vontade de correr, correr sem parar, pulando obstáculos, costurando vias, alternando estrada de terra, asfalto, paralelepípedo, mármore escorregadio. Chão liso de shoppings ou de grandes supermercados, fechados para limpeza, cheios de sabão. Dá vontade de correr e se jogar ali, para a espuma ajudar a ir escorregando pra frente. Medida bem humorada de criança que quer rir, sem se importar em molhar a bunda.

Às vezes dá vontade de chorar, chorar muito mesmo, exageradamente como tudo que acontece naquela propaganda do Novo Fiesta, que o pessoal fala “tudo bem!”. Chorar até as lágrimas acabarem, até o rosto ficar molhado e o pescoço melado. E as roupas respingadas. E as mãos cheias de rímel e lápis preto. Sabe aquele choro que depois vira risada, risada da própria tragédia? Então, às vezes dá vontade de ter tragédia só pra rir da comédia do fundo do poço.

Às vezes também da vontade, sabe do quê? De andar sem sapato. Não dá? Às vezes bate uma vontade de ficar descalça e sentir o geladinho do chão! Dá vontade de procurar imperfeições no piso e senti-las com os dedos dos pés. Dá vontade de fazer todo mundo ficar assim e jogar os sapatos do alto de uma janela bem alta, e ficar olhando o que vai acontecer com eles quando terminarem a queda livre. Ou então, dá vontade de arrancar e jogá-los na pista, em alta velocidade e dirigir descalça. É gostoso sentir os dedos nos pedais. É legal sair com a sola do pé suja.

Às vezes dá vontade de envelhecer para virar aposentada e curtir cinema de graça, teatro, andar de ônibus pela cidade à toa, ouvindo as conversas dos outros. Às vezes dá vontade de ser criança de novo e poder fazer absurdos sem ninguém achar anormal, só, no máximo, levar bronca por ter saído da linha. Às vezes dá vontade de ser pipa e ficar voando no céu. Mas aí, dá vontade de ser passarinho e ser pipa perde a graça, apesar do charme. Quando bate a vontade de ser passarinho é uma gostosura. O cenário é entardecer com pôr-do-sol e um ventinho refrescante sopra no rosto. O cheiro de eucalipto vem junto com a vontade de ser passarinho sempre voador.

Às vezes dá vontade de tomar banho na bacia de alumínio da minha avó e ficar jogando água nas pessoas que passam, mas só meus pés cabem nela hoje em dia. Poderia ser ruim, mas realizaria três vontades de uma vez: a de voltar a ser criança, a de ficar descalça e a de ser passarinho, porque, para isso, é só fechar os olhos e ficar quietinha. Qualquer dia vou experimentar.

26.8.08

pensando em quereres ...

- Quero ter um apartamento com pouca parede e uma bela varanda numa rua larga/avenida arborizada (não tem problema ter barulho, mas tem que ter luz ambiente bacana contrastando com as folhagens que deverão formar um corredor dividindo as mãos da rua larga/avenida).

- Também quero um New Beatle amarelo (me dei conta que é meu preferido depois do Mini – nada acessível – no fim de semana. O marido da minha amiga quer que ela compre um e ela está titubeando... estou trabalhando para ajudar a colocar a cabeça dela logo no lugar e ela aceitar a idéia).

- Quero poder escrever bem em algum lugar, quero ser cronista um dia. Mas de verdade, e nacionalmente reconhecida. Ou mais.

- Sempre quis um irmão gêmeo, mas isso sempre foi impossível e desde cedo aprendi que existem coisas que estão além do nosso alcance e, as que não estão, precisam de uma forcinha para serem conquistadas. “Tamoaê”.

- Queria que meu cabelo estivesse como há uns meses, antes de eu cortar. Mas eu tenho certeza que se eu não tivesse cortado estaria marcando horário no salão ou já teria cortado e daqui uns meses teria me arrependido, ou seja: ok.

- Queria pelo menos dois abraços do Lu por dia (daqueles que é só abraço mesmo), uns quatro beijões e uns pares de beijinhos.

- Queria comprar um shopping com tudo dentro e ficar uma semana sozinha nele, só me divertindo! Hehehe!

- Queria um monte de coisas que o dinheiro compra, como uma lipo e os dentes mais brancos do mundo, mas meu dinheiro anda curto e me contento com greve de chocolate e de massas e pasta dental Whitening.

- Queria uns dias de férias de mim, só pra querer voltar pra mim de novo e me sentir aliviada de eu ser eu e não outra pessoa. Só pra ter certeza, sabe?! Outro dia minha mãe perguntou se eu queria ser outra pessoa. Não queria não, mas seria legal saber como é. Se hoje eu pudesse escolher, queria um dia ser o Phelps, no outro o Eric Moussambani (lá nos 15 min de fama dele) e no outro eu mesma, mas com 9 anos, na aula de natação. Depois voltaria pra mim mesma hoje e pensaria “devia nadar”.

analogia

Poeta me desculpe, mas ganhar poema de você é fácil. Você faz isso com o pé nas costas. Desculpem-me também os floristas e jardineiros, não quero rosas vindas de vocês. Assim é fácil também. Eu sei, eu sei. Entendo que o compositor esteja me achando chata e desagradável por não aceitar uma música fresquinha feita para mim, não quero. É bom ganhar um cartão decorado com pincel e aquarela, mas não vindo de um artista. Aceitaria bombons comprados por um diabético que só conhece sabores salgados e uma melodia quadrada de quem não sabe tocar guitarra. Quero coisas sinceras e palavras que tenham tido dificuldade para sair, porque o medo estava fechando a garganta e as inseguranças travando a língua, mas elas conseguiram virar frases e olhares reais. Quero vento de ventilador e não de ar condicionado. Ontem comprei um vasinho de flores para mim.

20.8.08

a algum possível novo leitor

Amigo leitor, por favor, ignore os último posts. Li o que aparece até o fim desta barra de rolagem e assustei. Passeie pelo arquivo, que está aí, no menu lateral, lá pro fim, depois do calendário humano (legal, né?!).

Tá bom, vai ler? Beleza. Sou eu mesma, fazer o quê!? Mas no geral, sou mais legal, viu... Ó, passeia pelos arquivos, você vai ver, é sério. Não vou jurar por Deus porque é pecado. Mas eu juraria se não fosse!

Então, você vem sempre aqui? Não! Óbvio que não! Você é leitor novo, desculpe a ignorância. Nossa, acho melhor me despedir, a coisa anda feia. A saúde estava capengando, muitas preocupações, sabe como é, né?! A gente não pode ser 100% feliz toda hora, e olha, eu sou do tipo feliz mesmo nos dias tristes. Verdade! É que, também, o fim do ano está chegando, meu aniversário também e ando pensativa. É isso. Adoro fazer planos! Estou com várias promessas para a listinha, e você?

Então, mas eu já ia indo embora. Então tá, fica assim. A gente se fala.

Abração, lembranças pra família!
Vou trabalhar, tem bastante coisa pra fazer por aqui. Aí não? Putz, também né... dureza. Opa, já ia começar a puxar papo de novo...!

Bom, abração,
sucesso sempre!
Thais França

ps.: ei, você vem aqui de vez em quando! Curiosidade mata, né... viu que não era pra você e leu assim mesmo! Que cara de pau!

a vida é linda depois da TPM

TPM é uma tristeza. Tudo fica cinza sem graça ou vermelho raivoso. As flores enchem a paciência e o sol é quente demais. A chuva é chata demais. O céu é azul demais. Mas ela vem todo mês e, felizmente, depois de um tempinho feito garota enxaqueca a gente (a maioria, pelo menos) volta ao normal. O otimismo tem seus três ou quatro dias de confinamento em um buraquinho pequeno, frio e escondido do cérebro, mas depois volta soberano. Ufa!

E viva as Olimpíadas! Viva o 41º lugar com 1 ouro e 5 bronze! Viva o cafézinho preto recém passado na garrafa térmica verde limão! Viva a limonada, que a gente faz, para não azedar a vida!

Estava ontem em frente ao meu prédio e ouvi duas velhinhas conversando. Uma baixinha, de vestido florido com destaque em azul e a outra um pouco mais alta, de calça de elanca e camiseta. Ambas devem estar na casa dos 70. A conversa foi mais ou menos assim:

(de vestido florido) – O que você achou da pintura do prédio?
(de calça de elanca) – Gostei, mas achei o azul apagado...
(de vestido florido) – Jura! Eu gostei, me lembrou o hospital municipal.
(de calça de elanca) – Então, as pessoas morrem lá, viu como a cor é ruim?
(de vestido florido) – Mas também tem muitas que nascem. Eu adorei!

Ou seja... qual seu referencial?

15.8.08

nem sólido, nem líquido

Sobre a mesa em L, uma bagunça generalizada. Teclado, mouse, apoio de punho, monitor 19” à frente. Caixinhas de som. Calendário colorido, porta-canetas coloridérrimo sem canetas, só um lápis, borracha, marca-texto e grampos de grampeador. Um carimbo com nome e função meio escondidinho. Uma lata de ervilha pintada de verde (é artesanato) abriga remédios para dor de cabeça e lixa de unha. Repara que aquilo é meio anti-higiênico...

Não move os braços. Um notebook emprestado ocupa quase todo espaço do lado esquerdo, onde também se encontra uma agenda sobre uma lista de ramais, que servem de apoio para o telefone preto, pesado e paquidérmico.

No espaço à direita, reservado para leitura e interação com quem senta à frente: jornal do dia, revista da semana, um guarda-chuva que deveria estar guardado há quatro dias e uma revista de quinta categoria comprada no fim de semana anterior.

Nas gavetas, papéis amontoados sem motivo, rascunhos escondidos e bisnagas de creme sem conteúdo ocupando espaço. Cada hora em um lugar, a garrafinha de água ainda tem lacre e os rins dela estão quase perdendo a função de filtrar. Talvez o cérebro também esteja em estado quase crônico de ressecamento. Uma vida medíocre é espelhada ali, abaixo dos óculos com armação nova e acima da lata de lixo ao lado da cadeira giratória laranja. Não acende a luz, liga o ventilador e fica sentindo seu estado de calefação ainda mais rápido.

13.8.08

às 14h20, no elevador

De longe notei a presença dela. Apesar de não passar de um metro e meio de altura, já era grande. Usava sandália com salto, tinha uma bolsa vermelha de verniz supermoderna e nos lábios contornados de rosa, muito gloss. Uma presilha de strass adornava os cabelos claros e um lenço de poás, o pescoço. Entrou no elevador com toda delicadeza e elegância que só uma verdadeira lady pode fazer notar e, educadamente, deu boa tarde a todos que também estavam ali, espremidos mais para o fundo. Os olhos brilhavam e percebi uma mistura de surpresa e timidez. Quando a porta se fechou e o solavanco se deu (coisa que só antigos elevadores ainda fazem com esmero) ela gargalhou e apertou firme a mão da mãe. Apesar de toda estampa, era mesmo só uma menininha que se divertia com algo novo e diferente. Com certeza, se não tivesse mais gente ali ela teria pulado, esquecendo que usava saia e que queria ser gente grande.

31.7.08

"Só um estantinho, por favor"

Não dá tempo de escrever, só de pensar, pensar e pensar. Isso é bom. Entre um intervalo e outro, o debate sobre o que é realmente importante.


"And love is not the easy thing
Is the only baggage that you can bring
Love is not the easy thing
The only baggage you can bring
Is all that you can't leave behind"

And if the darkness is to keep us apart
And if the daylight feels like it's a long way off
And if your glass heart should crack
And for a second you turn back
Oh no, be strong

(Chorus)
Walk on! Walk on!
What you got, they can't steal it
No, they can't even feel it
Walk on! Walk on!
Stay safe tonight

You're packing a suitcase for a place
None of us has been
A place that has to be believed to be seen
You could have flown away
A singing bird in an open cage
Who will only fly, only fly for freedom



(Chorus)
Walk on! Walk on!
What you got, they can't deny it
Can't sell it, or buy it
Walk on! Walk on!
You stay safe tonight

And I know it aches
How your heart it breaks
You can only take so much
Walk on! Walk on!

Home!
Hard to know what it is
If you never had one
Home!
I can't say where it is
But I know I'm going
Home!
That's where the hurt is

And I know it aches
And your heart, it breaks
And you can only take so much
Walk on!

You've got to leave it behind:

All that you fashion
All that you make
All that you build
All that you break
All that you measure
All that you feel
All this you can leave behind
All that you reason, it's only time
And I'll never fill up all I find
All that you sense
All that you scheme
All you dress-up
All that you've seen
All you create
All that you wreck
All that you hate

22.7.08

agora, vai!


dança
dança
dança
pança
comilança
esperança
logo eu subo e dou risada da balança...


Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar, quero ver o seu corpo dançar sem parar!

11.7.08

o ladrão



Chegou em casa esbaforido com a mochila pesada já nas mãos, fora dos ombros doloridos. Foi tirando a roupa pela casa e chutou os sapatos pra cima; o cachorro veio de encontro com o rabo abanando, brinquedo na boca, euforia. Não ganhou atenção alguma. Seu dono queria dormir. Correu pro quarto e se jogou na cama desarrumada e empoeirada, devido à janela aberta há três dias; janela que interligava a segurança de um cômodo escuro à claridade e movimento de ônibus, carros e pessoas da avenida.

Jogou-se na cama e cobriu o rosto com a coberta, como fazia em tempos nos quais seus pés ficavam longe do final do colchão. (Um tempo distante, quando medo de lagartixa era um segredo vergonhoso. “E se alguma subisse por ele durante a noite? Essas danadinhas geladas e esquisitas adoram a calada da noite, eu sei...”. A solução era cobrir-se todinho e se certificar de que o lençol não oferecia nenhuma brecha).

Pois, 100% coberto e imóvel fechou os olhos e logo dormiu. Rolou de um lado para o outro, rangeu os dentes, teve pesadelos, suou, chorou. Acordou e passou a mão no espaço ao lado. Sentia falta. Sentia falta de sua inocência e sabia que nunca mais a recuperaria. O cachorro mordeu e rasgou toda a mochila, deixando em evidência a culpa, que não o havia deixado dormir em paz. Olhou para o chão e viu os livros e discos preferidos dela ali. Vingança vã do que ela havia feito: roubado suspiros, sorrisos e coração. Ela não devolveria, ele também não. Agora, cada folha de cada livro amarelado lhe contaria uma história e cada faixa de cada disco embalaria seus momentos sórdidos. Ele tinha se tornado um ladrão para sempre. De uma vez por todas o medo de lagartixa havia sumido e dado lugar a um medo maior, o medo de fraquejar.

30.6.08

retrospectiva

Quando eu era criança eu ia a pé pra escola, corria e andava de bicicleta a tarde toda e os fins de semana inteiros pelo condomínio onde morava. Era uma rua fechada extensa e, no final dela, havia uma área de lazer com piscinas e quadra de grama. A gente ia da portaria até a quadra e da quadra até a portaria inúmeras vezes. E sem tênis com amortecedor, era de havaianas mesmo (aquelas antigas, azuis, pretas, verdes ou amarelas, sempre com branco). No meio do corre-corre brincava de pular corda, pular elástico, esconde-esconde, “baleado” (como chamam Queimada na Bahia). Não era raro eu passar mal e ter que tomar injeção de Dramin (tenho alergia a Plasil) para cessar o vômito. Mais tarde descobrimos que eu tenho prolapso na válvula mitral, o que é um probleminha sem muita importância, que não vai me matar, mas que me fez levar no bolso um atestado médico para não prática de Educação Física a vida toda. Ok, mesmo assim eu jogava vôlei na rua. E continuava ligada na tomada.

Entre 11 e 17 anos eu andava mais de 15 km por dia em terreno acidentadíssimo (quem conhece Itatiba entende o quanto o superlativo foi cabível). Quando conquistei minha carta de motorista (hoje sou pilota) e logo após entrei na faculdade e consegui um estágio, o sedentarismo poderia ter me pegado, mas resisti. Conheci as delícias de um choppinho vez ou outra, de um vinho bem descansado e, com dinheiro próprio, pude comprar inúmeras guloseimas inexistentes no meu então cardápio, graças à triagem da minha mãe. Com todo este novo mundo a meu bel prazer, poderia ter me entregado, mas não. Resisti e entrei numa academia. Comecei a trabalhar e meu trabalho me fazia caminhar bastante e, numa correria total, minhas panturrilhas tornavam-se as mais bonitas já vistas.

Tudo isso acabou. Preciso fazer alguma coisa, virei rainha do escritório sem direito AB Toner. Sim, este post ficou chato e acabou de repente. Ficou chato porque é assim que estou hoje. E ponto. Um bom dia pra você.

25.6.08

Eu quero morrer como a Ruth Cardoso

Eu quero morrer como a Ruth Cardoso, rápido, sem esperar.
Eu quero morrer e ter meu marido chorando pela morte ter nos separado. Calado por lágrimas quentes derramando um choro morno em minha presença apagada. Emudecido pela falta de meu espírito num corpo morto dentro de um caixão sem cores.
Eu quero uma morte romântica, triste e sóbria, como a de Ruth Cardoso.

Eu quero morrer com rugas semelhantes às de dona Ruth. Quero que elas representem uma coleção de feitos. Quero morrer falando com um filho, quero morrer sem tempo de me despedir. Quero morrer por meu coração ter trabalhado além da conta.

Eu quero morrer como a Ruth Cardoso, sendo eu e não primeira dama. Eu quero morrer com minha história de vida calcada em pedra. Eu quero morrer sendo sócia de uma vida conjunta, quero ser completude e relevância para mais de pelo menos meia dúzia de pessoas, sendo isso reconhecido por não ter sido metade, mas meu todo.

Eu quero morrer sem óculos, como a Ruth Cardoso. Eu quero não precisar ver a última cena. Quero só sentir o alçar vôo das asas da minha alma pelo impulso das minhas pernas.

16.6.08

Para voltar

A temperatura até que estava alta para uma tarde de meados de junho, mas a sensação térmica pedia por uma blusa de manga comprida reforçada, já que o vento bagunçava os cabelos e assoviava alto ao pé do ouvido. Entrei no carro e, como pouco gosto de fazer, fechei o vidro da minha janela. Recostei a cabeça nele e observei os pedaços de chão entrando embaixo do carro em movimento, ou, sob outra perspectiva, o carro passando por cima da rua cheia de pegadas, passos, marcas, freadas, histórias. Tanto faz. Vi bicicletas, pessoas correndo, algumas paradas também passaram. Passou um posto de combustível, uma doceria, uma lanchonete. Passava tudo quase tão rápido quanto a minha presença em cada um daqueles trechos de cidade.

O sol estava se pondo e as nuvens, que pedrentas explicavam que haveria chuva ou vento no fim do dia, também já tinham deixado claro que não iriam permitir que a bela estrela desse seu adeus com ar glorioso. Ele daria lugar para a lua (que já dividia o lado oposto do céu desafiando sua majestade) sem despedir-se formalmente, sairia à francesa. Mas, de forma tímida, como que para não desapontar, preparou uma surpresa. Quando o carro seguia por mais uma rua, que levaria para a saída da cidade, dezenas de plátanos com folhas avermelhadas pelo outono nos davam tchau. Mesmo fraco, o sol abençoou as árvores magras com uma cobertura dourada imortalizando um momento que, até então, era simplesmente uma passagem por cenários urbanos comuns e confundíveis.
Felicidade é aquele milésimo de segundo que você repara que você está no lugar certo, com a pessoa certa, na hora certa, com um frágil raio de sol iluminando seus olhos para que, além de mais brilhantes, eles sejam capazes de refletir aquela eufórica sensação de privilégio em slow motion, esquentando o mundo inteiro sem mesmo precisar se mover. O duro é que, se você não perceber este milésimo de segundo, nada fará sentido e felicidade será uma palavra que rima com caridade, maldade, ansiedade, e mentira, não verdade.