3.4.13

Desapegar do apego






O difícil não é esquecer, mas abrir mão do apego; o apego de pensar em como seria e lembrar do pouco que foi. É gostoso o apego a essas lembranças poucas  e às centenas de fagulhas de vivências que nunca existiram, mas são vivas, pois falam, cheiram bem e dão sensação de aconchego, pirilampando num universo fictício que gravita dentro da mente criativa e romântica da gente. Não é amor, é apego. É parecido, mas amor é real, é preciso ser experimentado, comprovado empiricamente. O apego é a vontade do amor. A vontade grande que ele exista e se faça material concreto. É o pré-amor, pode-se assim dizer, eu acho. Por isso é fácil esquecer o que não foi e difícil desapegar. É difícil dizer ao pré-amor: “Mas você já vai sem ter vindo? Eu tinha tantos planos pra você!”

Ahhh o apego! Esse “quase” amor que gravita em saltitância e elegância, como astronauta fazendo de nossa cabeça solo lunar. Passeia por entre nossos arquivos cerebrais, remexendo e perfumando as gavetas mais sérias, como nossa rotina profissional, com nossos afazeres diários organizados em ordem alfabética ou por ordem de exibição. As seis gotas de homeopatia pela manhã, a alimentação equilibrada, os exercícios pontuados da semana, o horário de início e fim do expediente, as idas e vindas pelas ruas, a cobrança pelos dois capítulos do livro por dia antes de dormir, a oração que precede o fechar dos olhos já com a mente leve no travesseiro. Ahhh, apego! Como é ruim deixar-te ir, sendo pré-amor do que não foi e poderia ter sido. Não acredito em reencarnação, mas se ela existir, na próxima prefiro vir nascida em janeiro para ser mais razão e menos coração. Prefiro vir em junho, para não ser tão fiel e persistente. Prefiro vir em  novembro para ser quase só carnal. Em outubro não quero vir mais. Os nascidos em outubro têm por meta comprovar o amor e abraçá-lo. É fantástico, mas cansa por todas as vidas.

4 comentários:

Junior/Ju/menino/Carlão disse...

puxa, não sabia dessa de quem nasce em janeiro. É.. às vezes eu queria ser menos racional e cético com as coisas.

Anônimo disse...

complicado desapegar do que pouco ou quase nao existiu...cabecas pensantes e falantes que se entrosaram tao bem mas que nao se cansariam por todas as vidas

Thais França disse...

êêêê Anônimo! Toda pessoa com seu nome é metida. Quem disse que esse texto tem a ver com vc? E vc? feliz com suas cabeças pensantes?

Anônimo disse...

caraca...nao achei qtivesse a ver, apenas comentei. de qualquer forma, curti(e curto) o q vc escreve. bjs