28.12.07

vacaciones

... vuelvo sólo en 07-01-2008!
Blog parado!

besos (y perdón por no responder a los últimos recados)

21.12.07

Tá acabando o ano...

Não sou uma pessoa boa para julgar e elencar coisas. Pelo menos, hoje, evolui e consigo saber e jogar fora sem dó o que me faz mal, mas o que me faz bem eu abraço feito a Felícia e fico chateada em numerar... então, cito algumas coisinhas boas de 2007. Nada de listinha de dez mais, cinco mais.

O único prêmio de primeiro lugar é pro quesito “Fã e figura mais presente do blog No Mezanino”. Este, sem dúvida (e por isso sem consciência pesada em ser injusta) vai pro meu pai, que insiste em assinar “Seu pai, Paulo”, como seu eu tivesse outro. Ele demorou pra aprender a assinar o nome sem aparecer o “anônimo” e passa aqui direto, comenta e acha bom (ele acha de verdade, coruja, não finge não – ou eu acredito piamente nisso).


Troféu Ouro Branco (o melhor bombom do mundo) pra ele (não deveria merecer nada, na verdade, pois miguelou os olhos verdes pra mim e pra minha irmã).


Algumas cositas boas do ano:
Todos os filmes que vi. Vi vários e agradeço as oportunidades de ver alguns deles no(a) Reserva Cultural. Olhe para os dois lados (divertido, moderno, bom praca), Vermelho como o céu (fez chorar), O Passado, Paris Je T'Aime (talvez arrisque que foi o que mais me empolgou), Os visitantes (vi na Warner, um filme israelense, acho, muito massa), O Último Rei da Escócia (não foi à toa o Oscar), putz, só este ano vi Pequena Miss Sunshine e amei, chorei de rir; Não por acaso (poético), Malena (é de 2000, mas vi este ano e tive certeza de que, se eu pudesse escolher ser outra pessoa, mas com meu cérebro mesmo e tal, ele seria o da Monica Bellucci), O ano em que meus pais saíram de férias (a última frase do moleque no carro vale o filme inteiro, que já vale muito), tá, Tropa de Elite também! Lembrei desses, não fui atrás, então, acho que estes foram meus melhores. Agora estou louca pra ver (e cantar – agüenta a Thais!) Across the Universe.

Músicas: descobri várias (sim, muitas) bandas e tenho CERTEZA que refinei meu gosto. Destaque para Manic Street Preachers e Superbus.

Amigos e colegas: Os fiéis espetaculares; “elementos” da promoter Lia; casamento de amigas do peito; novos bacanas na terra do trampo; troca de baboseira (ou não) diária com ‘’blogueiros’’ (ahahahah odeio este nome nerd) do Haja Saco ( em especial Fabinho , menino bom e simpático), Carol, Fê, Biazinha, Kiara, Calebe-Teenager, Jungle, Mari, Daniella, Priscila, Tiago... se esqueci alguém, xinga!

Amor: Ainda bem que a gente tem alguma coisa parecida com isso na vida; toda perda tem um ganho; tudo que é sincero vale a pena.

Trabalho: Ralação, adaptação, um monitor maior porque estou cada dia mais cegueta.

Família: A melhor sempre.

Foram muitas as experiências em 2007, que foi bem melhor que 2006... ufa! Cabelos diferentes, explosão da cozinha, carro novo (mesmo que simprinho), contas e responsabilidades de quem mora sozinha, fins de semana corridos, novas pessoas, novas conversas, novas descobertas.

Desejo que 2008 supere qualquer expectativa... sempre esperamos isso. Um Ano Novo maravilhoso a todos!

ps.: tem tanta coisa legal pra escrever e este post ficou medíocre. Tô cansada... tô morta... amanhã a.p. das 17h30 estarei de férias! Ufa!

18.12.07

absurdinhos

- da mesma marca, determinada mochila custa R$ 879 e uma barraca R$ 399
- o álcool subiu 4 centavos em duas horas
- resolvi querer uma pochete
- amanhã vou pagar 5 ou 6 pedágios
- esqueci de pagar uma conta de R$ 0,53 e cortaram meu gás

nada a ver, só pensando alto...

Perplexo é uma palavra bonita. Soa bem. Assim como pelado soa legal e balela é engraçada porque enrola a língua se falada rápido demais. Gosto de perceber o som das palavras, talvez seja por isso que prefiro as ditas às não ditas. Palavras guardadas são desperdício de som. Paradoxalmente o silêncio é espetacular. Fica aí mais uma demonstração da minha indecisão para algumas coisas, libriana...

O que bate o martelo são os sentidos. Como brincar de “pedra, papel e tesoura”, o olhar cala, o tato faz falar, o cheiro emudece e a audição aguça a língua,; o paladar, no geral, impede que a boca seja usada pra outra coisa. E eu amo muito tudo isso, tipo slogan do Mc mesmo. E nesse 8 ou 80 meio que desequilibrado é que, insana, eu durmo em completa e incomparável paz.

17.12.07

Croniquinha ruim de Ano Novo*

Preparou-se para a noite do Ano Novo em 15 minutos apenas. Sabia que não seria muito diferente do ano anterior: meia noite ouviria fogos e cachorros uivando em conseqüência e as pessoas que estavam no prédio brindariam quase mais alto que os bêbados no salão de festas do térreo. Na TV, Copacabana estaria lotada e talvez virasse fumaça como no ano retrasado. A Paulista pipocaria em mil cores e em algum momento mostrariam o primeiro dia do ano nas demais capitais brasileiras, sem a mesma ênfase, mas com o mesmo entusiasmo de “ano novo, vida nova”. Pegou uma berma branca que comprou em promoção na C&A e uma camiseta escrito “E que venha o Ano Novo!” em letras douradas, que ganhou da mãe, que foi pra praia com amigos. A irmã deixou um par de havaianas (erroneamente dois números menores) com um bilhete “Vai passar em casa de novo, mané? Feliz Ano Novo!!!” e se mandou pra Floripa com as amigas. A cueca da sorte estava já meio velha, mas compôs o visu frankstein de reveillon. Tudo seria a mesma coisa. Abriu a porta do apê e colocou uma cadeira pra fora. Era só esperar a contagem regressiva, abrir o champagne barato, beber e dormir. Não atenderia ao telefone com os amigos gritando Feliz Ano Novo, ah, não ia mesmo. Tinha pavor disso.

Foi no shopping duas vezes por semana por quatro delas e não achou o que vestir. Queria algo que não fosse glamouroso, que não fosse praiano, que não fosse mambembe, mas que também não fosse especial. Não achou. Pegou a minissaia branca do ano anterior e uma regata branca meio desbotada. Deixou na cândida e ficou novinha. Pegou uma tinta prateada e fez uns rabiscos malucos. Rasteirinha de strass e beleza. Pronta pra ir pro bar com a galera. Antes, ia passar a virada em casa, pra fazer sossegada seu filminho mental ali, sem ninguém se intrometer ou falar merda. Gostava de azul, achava que não dava sorte só pras noivas, fez uma mecha no cabelo e esticou-se no sofá com uma taça de cristal numa mão e uma garrafa de Chandon na outra. Estava calor, foi abrir a porta.

O tapetinho listrado enroscou e ela foi pro chão. A saia subiu e o vizinho da frente arregalou os olhos. “O que que é? Nunca viu? Pode vir me ajudar?”. Na verdade ele já tinha visto sim, mas fazia tempo. Enquanto ele a ajudava a levantar, ela reparou nos calcanhares caindo pra fora dos chinelos. “Esse chinelo não é seu, né?”. “É sim, assim como sua saia”. Eles desataram a rir e a contagem regressiva começou. E foi assim que o cara da cueca velha beijou a mocinha da mecha azul e daí pra frente o corredor daquele andar nunca mais foi o mesmo. Depois disso Renato Russo mudou um pouco a verdadeira história e escreveu Eduardo e Mônica, que vocês já conhecem.

*Outro texto escrito para postar no blog dos coleguinhas do Haja Saco (o primeiro está aqui)

10.12.07

olhos de menino

Ele tem olhos de menino que corre atrás de pipas
Ele tem olhos de menino que não gosta de comer verdura
Ele tem olhos de menino que coleciona figurinhas
Ele tem olhos de menino que ganha o maior carrinho de todos no Natal
Ele tem olhos de menino que pula a janela pra brincar na rua
Ele tem olhos de menino que gosta mais do sorvete dos outros
Ele tem olhos de menino que vive cheio de ralados e esparadrapos pelo corpo
Ele tem olhos de menino que joga espelho embaixo da carteira da colega de saia
Ele tem olhos de menino que desamarra biquínis e puxa cangas na praia
Ele tem olhos de menino que rouba beijo da menina e depois de levar um tapão sai correndo dando risada
Ele tem olhos de menino que espia o que não deve pelo buraco da fechadura
Ele é grande. Ele tem olhos de menino.

6.12.07

aaaaaaaaaaaaaaa


a ansiedade é uma coisa terrível que corrói e faz o corpo padecer a gente quer tudo que é necessário pra hoje e tudo que é bom pra ontem e aí como não temos controle sobre o tempo a pele fica feia os cabelos caem as unhas desfiam e sai até herpes na boca outra coisa que também acontece é a língua fica boba e falar coisas absurdas tão rapidamente que não dá tempo de o cérebro censurar em algumas ocasiões isso acaba sendo ótimo mas em outras geralmente levamos um tapa na cara real verbal ou visual e todos doem ser ansioso é ruim a gente toma sorvete tão rápido que não dá tempo de sentir o sabor e fica só com dor nos dentes sensíveis e andamos tão depressa que nem percebemos a cidade iluminada com luzinhas e mil enfeites de Natal sorte que os ansiosos têm também conta pra pagar para poderem ser obrigados a parar pelo menos pra fazer somas e subtrações mas aí vem o boleto da passagem da viagem de férias e a ansiedade passa a perna novamente naquele ínfimo momento lúcido e se imagina as malas por fazer os acertos finais e a empolgação que está pra chegar como se uma torcida organizada balançasse pompons em volta de quem está ali com tudo na cabeça passando como um filminho em alta velocidade um filminho que ainda não foi gravado e que as cenas podem ser iguais piores ou melhores que aquelas ali ser ansioso é uma merda pois a gente nunca acerta a trilha sonora e nem faz uma fusão decente nas imagens até os créditos finais são atropelados e atropelado o momento entre o café e a volta pro trabalho que teima em atrapalhar todos os planos de dias tranqüilos e sem preocupações nem que durem só dez ou seja 240 horas sem dar uma de trator ao invés de passarinho feliz não dá pra ser acelerado igual ao Forest Gump e ficar barbudo daquele jeito

3.12.07

palitinho de picolé premiado vale mais um

Não te conheço. Não sei quem é você. Não sei se prefere Phebo porque limpa melhor ou Dove porque tem o bendito 1/4 de creme hidratante e não sei se prefere entrar na água do mar ou caminhar na areia. Não sei se é encrenca, não sei se é fantasia de monstro em parque de diversões. Não sei qual dos seus nomes combina mais com você, mas gosto do que cada um me faz pensar. Não sei muita coisa, e não é esse pequeno mistério que me impulsiona a querer descobrir mais, mas perceber que você é do tipo que sempre faz rir. Disso estou certa. E quem faz rir acumula créditos. É como provas de fim de semestre com peso 2 ou bolas de bilhar que valem mais. Quem faz rir é a bônus track da melhor música do álbum em versão especial ao vivo só com voz, banquinho e violão.

29.11.07

Sexta infame com tudo!



Me confessa... óbvio que você já sentiu uma orquestra de anjos tocando no seu coração, vai! vávává!

Essa música é incrível, inacreditável...
O comecinho é intraduzível... um "La da di da-da da-da da / Da-da da-da / La da di da-da da-da da" poético por demás! Número 5 num novo CD que deixo no carro...

Assista ao clipe e contemple esta bela obra dos anos 80. A corte é um sarro, mas o meu destaque fica pro back gordinho (nada contra, vê a cara dele) que estréia aos 1'01'' e faz entradinhas surpresas... e, claro, pra piscadela final! Sensacional!
Ah! tem um moleque tocando gaita também, enquanto outros voam (claro, são anjos!)

Boa sexta!

Must Be Talkin' To An Angel
Eurythmics

La da di da-da da-da da
Da-da da-da
La da di da-da da-da da
Da-da da-da, yeah

Main:
No one on earth could feel like this
I'm thrown and overblown with bliss
There must be an angel
Playin' with my heart, yeah

I walk in to an empty room
And suddenly my heart goes BOOM
It's an orchestra of angels
And they're playin' with my heart, yeah

Chorus:
Must be talkin' to an angel

Main

And when I think that I'm alone
It seems there's more of us at home
It's a multitude of angels
And they're playin' with my heart, yeah

Chorus

Bridge:
I must be hallucinating
Watching angels celebrating
Could this be reactivating?
All me senses dislocating?
This must be a strange deception
By celestial intervention
Leavin' me the recollection
Of your heavenly collection

(Instrumental)

Chorus repeats until fade

uma cena e uma música qualquer

Ela resolveu passear na velha Maria Fumaça que o avô a levara quando era criança e os pedacinhos de carvão trazidos pelo vento, junto com a fumaça pra dentro do trem, queimaram seu conjunto de shorts e blusa vermelho de bolinhas brancas, feito pela avó. Sozinha, debruçada na janela antiga com tinta verde descascada, ele sorri pensando como é bonito ver os trilhos serem cobertos pelos vagões. De repente, uma música, que nunca havia reparado, começa a tocar nas velhas caixas de som que reproduziam o chiado mais magnífico que já tinha ouvido. É Palavras e Silêncio. Pensa por instantes que Fagner é terrível e que o dueto com Zeca Baleiro é irrelevante. Só que o violão a enfeitiça, a música navega em suas veias em barquinhos de papel dobradura e ela acaba tomando cada verso em aviõezinhos de colheradas. Volta para a poltrona, só apóia uma das mãos no peitoril da janelinha e mira o horizonte. O sol está se escondendo atrás de duas montanhas, como naqueles desenhos feitos com giz de cera. Começa a pensar na vida, desde que o carvão queimou o shorts, o mesmo da foto que ela está numa praia, morrendo de medo, posando de bonezinho sobre um pobre e mirrado pônei. Lembra de muitas das palavras não ditas e de muitos silêncios cheios de significado. Recorda-se de grandes pequenas conquistas e de todos os seus amores. Tenta fazer uma listinha, desde o menininho da festa junina da escolinha. Refaz velhas perguntas, “será que se eu tivesse feito tal coisa seria diferente?”, “será que se eu não tivesse feito seria?”, “será que fiz tudo que pude?”, “será que eu estou fazendo a coisa certa?”. Suas palavras se perdem na brisa do cair da tarde e suas dúvidas na única certeza de que tem: talvez nunca tenha respostas. Muda o foco, lembra dos olhos verdes clarinhos do avô, que a diabetes escureceu, do abraço forte do outro, que ainda pode sentir. Da avó que completou 80 anos cheia de energia, mesmo fumando feito a chaminé do trem e da outra, que vive procurando novas doenças e remédios para ter um pouco mais de atenção, e que, baixinha, cabe embaixo do braço dela. Percebe que os exemplos são doces e que, polindo cada parte do que tem, poderá ficar velha com dignidade. Na Maria Fumaça, reviveu seu passado, analisou seu presente e decidiu seu futuro. Os medos voaram pra traz da locomotiva, que apitou só quando chegou na estação.

certezas e incerteza

- Vou rir demais quando for tomar banho en el baño compartido do primeiro hostel que eu for ficar mês que vem, pois vou lembrar da cara de nojo da minha irmã, dizendo "vamos levar só sabonete líquido";
- Vou rir pra sempre, toda vez que lembrar da amiga trêbada, chacoalhando uma caixa de presente enorme e gritando "é um cinzeiro!";
- Meus olhos vão brilhar cada vez que meu coração me apontar alguém interessante;
- Meus olhos vão brilhar cada vez que eu lembrar de todas as lendas e contos de fada que já vivi, sendo princesa, bruxa ou gata borralheira;
- Vou gaguejar cada vez que mentir pra minha mãe e praguejar pessoas que tratam as outras mal ou chutam o cachorro;
- Vou chorar um choro de sorrisos quando for abraçar a Vivi de noiva, no próximo dia 15, exatamente o mesmo de quando abracei a Ju, em 30 de julho;
- Vou chorar um choro morno e feliz quando conhecer a Torre Eifel, exatamente o mesmo da minha primeira aula no laboratório fotográfico em 2000, quando a imagem começou a aparecer, "do nada", bem nos meus olhos (por dentro e por fora).

...o resto, só Deus sabe.
Como é que é que ele disse mesmo? "Navegar é preciso, viver não é preciso". Isso, foi isso mesmo.

27.11.07

quando a moça desidratada saiu correndo e voltou


Não teve dúvida. Saiu correndo sem nem bater a porta, largou aberta. Enquanto corria, lembrou do filme “Corra, Lola, corra”, mas sabia que não dava para ficar indo e voltando a cena. Só parou de correr quando torceu o pé várias quadras pra frente. Por sorte, o bairro tímido tinha muitas casas e algumas ofereciam degraus para a calçada. Sentou. Tirou o tênis e percebeu o pé inchando. A dor da torção era bem menor que a de seu coração oprimido. Ele tinha sido torcido e retorcido por meses a fio e já nem tinha mais a forma de uma mão com os dedos presos na palma, estava meio disforme, meio mulambento. Começou a chorar, mas sabia que não ia lavar a alma como acontece nos filmes. Sabia que o chorar descontrolado era apenas um desabafo à galope, um alívio morno. Efeito placebo. Mesmo assim não conseguia controlar o fluxo das lágrimas que rolavam sem vergonha de estar à céu aberto e que saiam dos olhos deixando a cabeça mais oca e propícia a uma bela dor de cabeça.

Chorou até a dor do pé e do coração parecerem pequenas. Até todas as dores acumuladas parecerem se esconder por detrás dos olhos mareados, cujas pupilas nadavam sem rumo num mar finito, mas fundo e revolto demais. Quando as pálpebras se cansaram de ficar apertadas demais, ergueu a cabeça (que já comportava um turbilhão de alfinetes que se movimentavam em ritmo acelerado), e decidiu limpar o rosto. As lágrimas haviam descido queixo abaixo e molhado todo seu colo. O gosto estava vívido nos lábios. Lembrou que quando era criança percebeu que “lágrima é igual a soro caseiro”, mas o resultado não era o mesmo, a lágrima não recompunha, não acabava com a desidratação daquele corpo maltratado pela falta de doses líquidas de carinho. Cansada, olhou pra rua vazia e acompanhou os poucos carros que passaram por ela, sem sentir sua permanência triste naqueles degraus. Levantou, saiu mancando. Teria que caminhar bastante e o tênis não cabia no pé. Foi descalça sentindo o asfalto quente. Tinha deixado a porta aberta e precisava fechar.

...

Do elevador, ouviu a música vindo do apê...

26.11.07

quando a menininha percebeu que não era tão pequena


Era uma vez uma menininha bem pequena. Ela era minúscula. Um dia ela abriu os olhos e viu o mundo diferente. Conheceu os passarinhos, as borboletas, os pernilongos, as formigas, as pulgas, e viu que era enorme. Um dia a menininha bem pequena percebeu que não é preciso usar salto pra ser grande e nem subir no alto de um prédio e gritar. Para quem está no chão, o tamanho das pessoas que pulam de pára-quedas é o mesmo. Na imensidão do céu, são todas fadas Sininho sem a mesma graça da personagem da história, mas livres e apenas com a força da gravidade nas costas.

(imagem ''Pulga'', de www.weno.com.br)

24.11.07

O dono do sorriso monaliso

Não ouve bem
(repete propostas indecorosas mesmo depois de nãos consecutivos)
O olfato não é aquelas coisas
Em conseqüência o paladar vai mal
Sobrou ser mestre no tato
Já que não vê todas as cores
Mesmo assim
Deu de presente luzes de Natal e de uma cidade inteira
É estratégico,
É terrível,
Mas não deve ser tanto.

22.11.07

!!SEXTA!!



Sextaaaaaaa! Exatamente! E pra você ficar ainda mais feliz, música boa: Superbus! Queria "Un peu de Douleur", mas só achei gravações de shows ao vivo e estão horríveis... baixa, vale a pena. Taí o clip "Lola"...


21.11.07

fica sempre um pouco de perfume

Adora dar presente. Quando conhece alguém legal e divide alguma intimidade, dá um jeitinho de presentear. Nada caro, não é esse o ponto. É a lembrança, a demonstração de afeto; um sorriso carinhoso em forma de pacotinho embrulhado. Pode ser um bombom, um lápis, um bloquinho, uma pedra do lugar X, uma cocha da praia Y, uma bolacha de cerveja do bar Z. Pode ser também um verso. Quando está com alguém então, apaixonada, a vontade de comprar coisinhas sem muito sentido racional aumenta e dinheiro de pinga vira poesia. Em datas comemorativas a mania piora, beira a doença, um fascínio, quase fixação. Também gosta de ganhar (Freud diria que é projeção) esses pequenos presentes. Lembra de cinco que recebeu na mesma linha: um peso de papel cafona, uma cestinha de vime com três cachorrinhos de resina quase ridículos, um porta-caneta escrito “Feliz Aniversário”, num mês distante do dela, uma camiseta que levou dias para ter bordado um coração nas cores do Brasil e uma violeta de plástico. Quando pensa nisso se enche de alegria. Para ser feliz, basta uma fita escolhida a dedo, mesmo que não envolva nenhum pacote. De preferência, de surpresa, num dia qualquer.

20.11.07

Um Rodrigo qualquer

Era uma vez um Rodrigo como todos os outros. Como todos os outros, era safado, bonitão, tinha um certo charme, e gastava dinheiro à rodo. Não, não era fútil. Ele não gostava de economias, só isso. Ganhava bem, ia viajar direto e tinha amigas e amantes por todos os lados. Também tinha muitos amigos. Amigos de bar, de balada, de trabalho, da academia, da ong que freqüentava voluntariamente para agradar a vizinha-avião. Não sabia ir ao cinema e ficar de mãos dadas, mas era mestre em dançar forró e dar amassos em cantos retirados. Era um Rodrigo, como já dito.

Um dia o Rodrigo descontrolou e engordou no mesmo período em que bateu o carro, ficou à pé e o barbeador pifou. Desacostumado com o peso, não conseguiu mais praticar esportes. Tentou, ele tentou. Mas, seilá o motivo, não emagrecia. O carro ficou dois meses na oficina e a barba cresceu até ficar como a do Tom Hanks, em O Náufrago. O sonho de viver sob uma redoma de vidro, como naqueles filmes futuristas, numa praia particular jogando vôlei com os melhores amigos e as meninas mais gostosas do mundo ia por água abaixo. Não conseguia mais imaginar, não conseguia sonhar, não conseguia se olhar no espelho.

Aí, o Rodrigo como todos os Rodrigos fez algo diferente e chorou. Lavou a alma, mas não se conformou. Arregaçou as mangas e saiu por aí correndo. Dizem que o Forest Gump é inspiração. Dizem que agora consola as mais feias. Dizem que virou lenda urbana. Dizem que mora no prédio ao lado. Dizem que encontrou um emprego pífio e conserta relógios de ponto de empresas falidas. Dizem que fez lipo e virou o Gianecchini. Dizem que é piada, e é o Maradona. Dizem que nunca existiu.

quando eu morrer

Vai demorar
Mas quando eu morrer
Não vá me ver no cemitério
Eu não estarei lá

É,
Vai demorar
E quando eu morrer
Não faça velório longo
Não gaste lencinhos de folhas duplas
Nem com caixão requintado
Dinheiro jogado fora

Quando eu morrer
Enterra logo o que sobrou
Coloca a plaquinha com minha foto na melhor fase
Faz uma oração
Canta uma música bem alto
E lembra das besteiras que eu falei em vida

Quando eu morrer
Assim que acontecer
Vou voar pra bem longe
E você vai me ouvir rindo com o vento
Mas vai demorar
Ainda tenho muito amor pra distribuir
e muito paralelepípedo pra tropeçar

13.11.07

descendo

assim,
quando eu penso em não pensar mais em você
é mais um motivo para eu continuar pensando
como bêbado que pede a saideira
pra continuar bebendo
como músico que sai do palco
e volta correndo pro bis.

assim,
decidi optar por fazer de meus próximos passos
um descer a ladeira
é, eu só desço
não dá pra voltar
é íngreme demais
e estou sem roupa apropriada para escalar montanha alguma

só desço
pra descer, todo santo ajuda
desço sem brecar com os joelhos
e coloquei um imobilizador de pescoço
(não se preocupa, é de material leve e posso transpirar tranqüila que não coça)
desço sem olhar pra trás
torcicolo de amor é o que mais dói.

podia passar batido...

1 – Posso morar no meu carro, de tanta coisa que tem lá dentro

2 - Fanta com manga é ruim, mesmo eu jurando que tudo com manga seja excelente

3 - Barba valoriza quase todos os homens

4 - Nem um circo merece mulheres barbadas

5 - Almocei um canelone mole demais e jantei uma carne dura demais

6 - Já furei a meta da semana, “chocolate, por hoje não”, três vezes, sem contar os Toddys que bebi

7 – números 4 e 5 associados podem causar estragos... será que já estão????

8 - Tinha uma placa verde de fungo na água de uma panela largada na pia que usei ontem (e este fato irá mudar a rotina de eu abrir a conta de gás e encontrar, três meses seguidos, o valor de R$ 0,00 no campo a pagar)

9 - Pastas de dente que prometem deixar os dentes branquinhos mentem

10 - Patê da Sadia, naquelas bisnaguinhas, são nojentinhos, mas bons pra caramba

11 - É impossível mandar um vídeo de 954 MB por e-mail e zippar é uma tentativa mais ridícula ainda

12 - (por e-mail)
“Você viu? Ninguém contou que todos ali vão assinar um voto de pobreza ao pegar o canudo, né?! Jornalismo foi recorde da Fuvest...”

13 - (no trabalho)
“É simples o que a gente precisa, o pessoal de sistemas não vai ter trabalho. É só mudar o banco de dados, incluir uns itens no cadastro, trocar o banco do boleto e fazer uma interface com um outro sistema de outro departamento (humm, não sei o nome agora). Dá pra esse mês ainda, né?!”

14 - (na academia)
“Esses dias marcados são os que você não veio, certo? NÃO!?!?!?!?!”

15 - (ainda lá, minutos depois)
Thais no abdutor, três pessoas em coro, num gesto motivacional:
“Shortinho! Shortinho! Shortinho!”

16 - (hoje, pela última vez em determinada manicure)
“Trocou de carro é? É fléquixxí? Ele anda com tudo, né, com óleo também?”

Com dois finais

- dizem que vivemos reescrevendo nossa história... eu reescrevo este post de março, mas com um final novembro...


Não há cura para o nascimento e a morte, a não ser usufruir o intervalo (George Santayana)


I want so much to open your eyes
´Cause I need you to look into mine


Este verso é, sem dúvida, o mais bonito da minha trilha sonora do último carnaval, a “Open your eyes”, do Snow Patrol. Apesar de ela estar virando modinha – e isso muito me irritar – continuo ouvindo e me sentindo muito bem. Outro dia viajei na letra e, hoje, apenas neste verso.

Uma das coisas mais deliciosas, que une o melhor das sensações emocionais e físicas, é o abrir dos olhos após um beijo. Não um beijo qualquer. Mas um beijo demorado, longo, apaixonado e, claro, firme. Nada daquela coisa morna, como muitos apertos de mão que não envolvem as duas participantes e, pior, quase não se sentem os dedos do outro, de tão leve e inexpressivo. Quase fingido.

1 - Queria que uma barreira invisível, mas altamente real, não me circundasse mais e eu conseguisse sentir essa sensação novamente: da completude ao open my eyes. But, now, I can’t to look to anyone. Not cause I´m alone, but cause I can’t open my heart. (março 2007)

Enquanto isso, o intervalo é menos saboroso.

2 - Queria que uma barreira invisível, mas altamente real, não circundasse aquele que eu escolhi para sentir essa sensação novamente: da completude ao open my eyes. Now, I can’t look to him. The guy that I want can’t open his heart. (novembro 2007)

Enquanto isso, o intervalo é menos saboroso.

8.11.07

em português...



A primeira vez que ouvi a música pensei: eu queria ter escrito esta letra!
Lindinha... Cordel é legal. Pra ficar melhor, só se tivesse Los Hermanos junto, fzendo um som tipo repente. E de alguma forma eles infiariam "Eu sei é um doce te amar/O amargo é querer-te pra mim" no meio...

(a música é trilha de Lisbela e o Prisioneiro)

ininglix

Um poema:

i like my body when it is with your

i like my body when it is with your
body. It is so quite a new thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like,, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh . . . . And eyes big Love-crumbs,

and possibly i like the thrill
of under me you quite so new


Um refrão:

Every minute from this minute now
We can do what we like anywhere
I want so much to open your eyes
´Cause I need you to look into mine


Uma estrofe:

My life
You electrify my life
Lets conspire to ignite
All the souls that would die just to feel alive

Breve triste conto sobre a Juju chata

Seu nome era Julieta, mas o apelido era Juju. Detestava as piadas que faziam referência à amada de Romeu. Seu nome era um problema e isso interferia no relacionamento. Os pretendentes inventavam apelidos carinhosos e acabava sendo pior. O primeiro a chamava de “sereia”; ela o mandou pra cucuia. O segundo de “Jujusão”, no começo achava legal, depois começou a se irritar com o aumentativo e deu uma desculpa qualquer para terminar. O terceiro, logo que usou o clichê piegas e cafona “minha princesa”, ficou no vácuo e nunca mais ouviu falar dela. O quarto, mais esperto, perguntou antes: “Jujuzinha? Jujuba? Jugi? Pequena? Lindinha? Fofa?”. Ela o achou interrogativo demais e desencanou. Depois do primeiro encontro, o quinto a olhou nos olhos, envolveu seu corpo num abraço feito com o corpo todo, a beijou e disse: “até mais, minha vida”. Ela estremeceu. As bochechas rosaram. O coração acelerou e seus pés saíram do chão. Ela quis confirmar: “você me chamou de quê?”. Ele repetiu “de minha vida”. Pronto. Era ele, o quinto elemento. Dia seguinte esperou a ligação e nada. No outro dia também. E no outro, e no outro. E no outro, e assim foi. Ela levou a sério, entregou a vida a ele, ficou sem e aguarda que ele devolva. Mas o rapaz anda roubando mais algumas por aí e não prometeu voltar. As vizinhas dão risada e gritam em coro: "bem feito, Juju chata!"

metade inteira


Tem dois mini puffs na sala, para apoiar os pés. Usa os dois, um para cada perna, sem necessidade, claro, mas tira os dois que ficam embaixo do móvelzinho que separa a sala de estar da de jantar e os usa. Tem um sofá de dois lugares. Senta de um jeito que fica meio no meio e se esparrama pelos assentos. A mesa de jantar é pequena, mas tem quatro lugares. O ideal é retirar duas das cadeiras e duas pessoas jantarem juntas, uma de frente pra outra. Outro dia descobriu que se encostar a peça na parede e diminuir três cadeiras fica com uma boa área útil para si só.

A cozinha tem um tamanho bom e no armário existem muitas panelas, que não podem ser usadas no microondas, que fica do lado oposto do fogão. Só usa o micro. Se soubesse cozinhar ou não soubesse, mas ao menos tivesse o hábito de esquentar sanduíches para o queijo derreter, poderia usar o forno. Está lá à disposição.

O banheiro não é grande, mas cabem duas pessoas. Ou três: uma no chuveiro, outra no vaso, a última escovando os dentes na frente da pia. É estranho alguém num banheiro estreito fazendo cocô do lado de outra escovando os dentes. Então, na verdade, cabem duas mesmo - uma no chuveiro e outra cuidando da higiene bucal.

No quarto, a cama é de casal, mas se espalha em toda extensão do colchão alto de molas. Deita na diagonal e se enrola no lençol. O segundo travesseiro fica no meio das pernas, como faz desde criança. Há gavetas com poucas roupas, que poderiam abrir espaço para outras, mas estão bem acomodadas lá. Há utensílios para mais de uma pessoa. Mas ok. Está tudo bem arrumado, organizado, utilizado. Não precisa de ninguém, mas cabe mais um perfeitamente.

A mulher que se rendeu*

Já fazia um tempo, mas não lembrava quando aquilo virara uma obsessão, só sabia que parecia que tinha experimentado pela primeira vez ontem, o que não era verdade.

Mas naquele dia tudo ia mudar. Decidiu acabar com aquela dependência. Tinha uma folga e resolveu aproveitá-la. Ligou avisando que não ia trabalhar. “Uma indisposição”, disse e, na verdade, não mentiu. O fato é que os colegas de trabalho também agradeceriam se ela parasse com o vício. Já estava incomodando e era comum perceber as pessoas tomando outros rumos ou entrando por portas laterais quando a viam caminhar pelo corredor da empresa. Não a queriam por perto, ou apenas queriam manter-se na paz, sem aborrecimentos e sem precisar sentir aquele cheiro aflitivo que vinha dela.

Pois, não indo trabalhar, continuou de pijama, não abriu as janelas e nem fez muito barulho. Sentou-se sobre a cama e fitou a caixa de papelão colorida sobre a estante. Por causa dos entorpecentes guardados ali, ela já não lembrava há quanto tempo não conseguia comer e nem respirar direito e por isso decidiu acabar com tudo. Havia perdido noção de espaço, de tempo e parecia estar tão fraca que mal conseguia levantar seu ânimo e suas próprias vontades.

A caixa e todas as drogas que a entorpeciam combinavam bem naquele espaço. Há muito tempo ela se acostumara a alimentar-se de altas doses daquela química que a consumia e lhe roubava cor e graça. Ali existiam lembranças e momentos em forma de bilhetes, canhotos de cheque, cartões de estacionamento, tíquetes de cinema, de jogos de futebol, de postais encontrados em lojas, exposições, shows. Também continha fotos, muitas delas. Coloridas, em preto e branco, recortadas, com imã atrás para pregar na geladeira. Com marcas de ferrugem feitas por tachinhas do quadro de cortiça.

Um tempo depois parecia ainda o dia seguinte e ela já estava cheia daquela sensação. Por isso, trêmula, levou todo seu arsenal tóxico à área de serviço, despejou tudo no tanque de lavar roupas e, aos poucos, foi ateando fogo em cada pedaço de engano. A fumaça preta foi subindo e se espalhando pelo apartamento. Ela abriu todas as janelas e ao passo que o vento levava o fruto daquela droga em combustão, também se desfazia no ar tudo o que um dia a fez rir e depois a fez morrer em vida, vivendo como um zumbi oco e inexpressivo.

Horas depois, quando tudo o que era cinza se desgarrou dela, sentia-se meia. Olhou para o tanque e precisou limpar as borras negras que ficaram ali. Muitas manchas permaneceram e nem com litros de água sanitária a cor branca voltou a ser como antes. Cansou e parou de esfregar com força; era um desgaste em vão.

Voltando ao quarto, o espaço da caixa na prateleira gritava e a xingava com mil palavrões. Estendeu o dedo médio e colocou uns livros quaisquer no lugar. Assunto resolvido. Foi aí que se olhou no espelho. O reflexo mostrava uma senhora e não uma mulher. Passou os dedos pelo rosto e sentiu as rugas e a flacidez natural de seus anos.

Fechou os olhos, lembrou de tantas repetições em seus dias, o mesmo trajeto a pé, o mesmo metrô, o mesmo café com o mesmo gosto do mesmo lugar, o mesmo corredor com os mesmos colegas na empresa. As mesmas plantas, o mesmo quarto com janelas fechadas e momentos tantos idênticos, em que decorava cada resquício de um amor frustrado que deixava pegadas e marcas de suor naquela caixa, agora não mais existente.

Já fazia um tempo, mas não percebeu que o tempo estendeu-se e havia retido anos de sua vida quando navegava naquele mar de lamúrias. O mais difícil já tinha feito: acordado. Mas não acreditava que um príncipe encantado pudesse lhe retribuir o amor depositado fielmente naquela conta corrente de ninguém. Fechou os olhos e decidiu esquecer-se. Não sabia viver de outra forma senão aquela que a aprisionara. Uns disseram que, abstêmia, enlouqueceu. Outros que a encontraram morta na cama, outros ainda, que vive por aí, sem rumo. Eu acho que também virou fumaça e quando menos esperamos, ela tenta alimentar nossas tristezas e frustrações.

*texto escrito para colaboração no blog dos coleguinhas do Haja Saco, postado lá em 30-09

6.11.07

humor horror

Domingo, São Paulo, Casa Verde...

palitinhos



Veja mais: www.explosm.net/comics/


E tem também o xkcd.com/, ainda mais legal...





5.11.07

"Que cheiro bom...!"

Trecho de sexta:
Pronto... agora minha avó descobriu o Macaco Simão. Tá virando a Dercy!

Trecho de sábado:
Assisti Um Certo Olhar (Snow Cake) e a Sigourney Weaver tá muito bem como autista.

Trecho de domingo:
- Amanhã você vai escrever alguma coisa no seu blog, né (rs)?
- Óbvio que não!
- Vai sim, te conheço...
- Claro que não, sobre isso não.
- Duvido. Sei até qual vai ser o título!

30.10.07

Copa no Brasil em 2014...


A comitiva da CBF sorriu de verdade hoje, com o martelo batido. Mas, Ricardão Teixeira, aspone Paiva, presidente Molusco, Baixinho e Dunga (anão das 11 brancas de neve) não seriam ninguém sem a presença do grande Paul Habbit.

29.10.07

luto e raiva em plena segunda



Perdi os macacos árticos e The Killers ainda no palco enquanto eu acordava para mais uma semana cheia. E quarta eu não estarei no Morumbi. Odeio esta semana. Um "viva" aos mortos!

28.10.07

Brainstorm literal

A chuva não estava forte, mas achou melhor abrir o guarda-chuva. Protegia-se das gotas poucas e gordas que caiam do céu e pareciam estourar na lona como se recitando sílaba a sílaba o nome dele. Aproveitou e tomou um remédio para dor de cabeça (conseguia engolir o comprimido enorme sem líquido e achava isso um inútil, mas interessante, diferencial). As gotas gordas começaram a cair em intervalos menores e a martelar as sílabas do nome dele na lona do guarda-chuva com mais intensidade. Começou a correr, mas a chuva não deu trégua e o que começou com um suave sílaba-a-sílaba virou um ininterruptível gritar pelo nome dele. O vento soprou o guarda-chuva, que entortou e perdeu sua função. Abandonou o objeto vagabundo numa lixeira pública qualquer e parou de escutar a chuva gritando o nome dele. Quando achou que a perseguição havia acabado, percebeu que se embebedava da canção triste que escorria por ela, pelo asfalto, bueiro abaixo.

24.10.07

Jogo sem fim

Adora futebol, mas, quando o jogo é outro, ele não sabe o que fazer com a bola. Recebe a redonda e a responsa é dele. A torcida grita: “vai, vai lá, tá pertinho, corre, chuta, dribla, encara o babaca que não te deixa ir em frente, cospe, mostra que é macho, faz embaixadinhas pra se exibir e goleia de bicicleta! Não tem ninguém na frente, a bola é só sua, você consegue!”

Mas não. Ele se vê sozinho e a área, livre, parece enorme e complexa demais para ele. Nem ouve a torcida. Apenas pega a bola, abre o baú de brinquedos, a joga lá dentro e diz: “já que você parou eu não quero mais brincar”. Senta no chão, cruza os braços e faz bico.

23.10.07

Boa!

Não costumo colar spam no blog, mas esse é muito bom. Capitão Nascimento é um herói nacional! (clica para ampliar esta letrica!)

22.10.07

Clichê


Tinha 76 anos e já tinha perdido a sanidade há muito tempo. Não tinha família, os pais, obviamente, haviam morrido, os irmãos idem. Amigos tinham suas vidas, tinham sumido ou já tinham ido pro beleléu também. Ela morava em um asilo e acordava todos os dias às 8h. Acordava, colocava a dentadura e ia fazer xixi. Escovava a dentadura, como dentes de verdade, e bochechava com Cepacol. Repetia as frases da antiga propaganda “Cepacol, diariamente. / Não é a cara do tio?!” e sentava-se na cama para esperar a enfermeira que a levaria tomar o café da manhã.

Todos riam dela. Um dia fora muito bonita e charmosa, mas acabou uma velha perua com trapos descombinados e baton bem vermelho. Sempre colocava um lenço colorido na cabeça, pulseiras no pulso magro e só tinha saias rodadas. Quando entrava no refeitório, não andava, desfilava. Os velhinhos de lá achavam graça, as velhinhas a chamavam de velha-louca-assanhada. Ela não ligava, na verdade nem ouvia, só fazia um pivô no centro estratégico do salão cheio de mesinhas de madeira com toalha xadrez e cheiro de sopa rala com pão.

Almoçava com quem lhe desse um sorriso com um pouco mais de saúde e saía bailando, em passos lentos de uma valsa sem muita harmonia. Ia para o jardim com a enfermeira e pensava na vida, contava causos sem pé nem cabeça e ia tirar um cochilo. Quando chovia, as flores brotavam e ela levava uma margaridinha para o quarto. Em meio a uma lucidez sem sentido, vivenciava com pesar sua solidão. Remontava cenas dos muitos amores passageiros que passaram pela sua vida sem ficar. Lembrava do amor que nunca conseguiu entregar e do coração que pulsava, mas nunca conseguiu embrulhar para presente, mesmo querendo. Fazia o bem-me-quer-mal-me-quer e dava um jeito de acabar no “mal”. Era assim que era para ser. Foi assim que foi. E ela voltava a rodopiar com seus trapos descombinados, esperando o fim chegar.

imagem:Cinéfilo, n. 89, May 3 1930. Na foto Sally Blanc e June Clyde.

18.10.07

O cara da frente

Estava ouvindo Modest Mouse e tentando imaginar como eu dirigiria um clipe para a música Dashboard sem conseguir me desligar dos barbudos do clipe (bem bom) já existente... foi quando vi o trânsito parado e, de repente, estava no meio do engarrafamento em uma rua estreita de duas mãos. Mudei pra Radiohead, que combinava melhor, ainda mais por estar chuviscando. Não tinha para onde fugir e percebi que logo ia ser eu a motorista que poderia ou não fechar a rua perpendicular um pouco à frente. O “logo” acabou durando 20 minutos... Quando ia apontar na rua, pronto. Parou de novo. Ficou um cara na minha frente. A galera xingava, ônibus soltavam aquela fumaça fedida e gosmenta como se estivessem bufando de raiva e de cinco em cinco segundos passava uma moto buzinando, como se estivesse se exibindo, sabe, como aquelas magrelas bonitonas que cabem em qualquer roupa. Já estava com a paciência no limite. Via meu prédio e até podia enxergar a minha cortina, mas estava ainda longe de poder subir pelo elevador e me esticar no sofá.

Cansei do som e desliguei tudo, até o carro. Aí, prestando atenção na cena externa, comecei a ver que algo estranho estava acontecendo. Ao contrário da rua onde eu estava, o trânsito na rua perpendicular poderia fluir, mas a minha fila estava atrapalhando a visão. Aí, o cara na minha frente se ligou que tinha virado o ponto zero daquele plano cartesiano e, de dentro do carro, começou a sinalizar pros motoristas da direita se podiam ou não fazer o 90 graus, passando pelo lado dele e dando tchau pro estresse daquele aglomerado de gente em suas maquininhas dirigíveis.

O cara dava buzinadinhas, esticava o braço pra fora, fazia sinais universais de “pare”, “siga” e gritava “pode vir!”, pra assegurar ao outro que a barra estava limpa. Aí, o sujeito agradecia, sorrindo, claro, e se livrava dali. Parecia cumprimento de compadres. Um velho rabugento ajudado teve a capacidade de emparelhar e dizer “obrigado, mas você é bobo, hein!” e saiu cantando pneu. Foi quando um outro que estava atrás, ouviu e gritou: “Ao contrário do véio, eu te amoooo!”. Acho que o bairro inteiro ouviu. E foi assim que o cara da frente virou herói de alguns que queriam chegar logo em casa, fazer um xixi e ou comer alguma coisa.

17.10.07

50% powerful

queria que o vento fosse mais que mágico, fosse também profeta
e que as dúvidas fossem ridicularizadas por uma certeza nua

queria que o vento não só bagunçasse a cena, mas também tirasse do chão
não só fizesse voar todos os papéis daquela bolsa cheia de coisas sem sentido
mas desse visões futuristas que explicassem porque continuam lá ocupando espaço

acontece que o vento mexe tudo, mas quem se movimenta é quem arruma os cabelos e põe as mãos no bolso
acontece que o vento não é profeta, é só mágico.

Quadrúpede



Pois, esta que vos escreve vive reclamando do texto alheio, de notícias mal escritas, mal estruturadas, mal apuradas. E ela mesma assinou um termo "Voltarei para a faculdade" ao colocar um lead no pé de um texto! Detalhe: a própria percebeu a caca, no tardio da hora. Burra!

Isso. Desabafo aqui e eternizo a gafe na história. Também divulgo minha última imagem acima.

15.10.07

Fato verídico

- Alô...
- Oi, linda, tudo bem?
- Tudo, quem é?
- Sou eu, né.. puxa... já esqueceu..
- Estou em dúvida... é o Rafa?
- Não... não acredito que você vai errar!
- É o Tiago! Tontooo!
- Não é o Tiago tonto. Faz tempo que não te ligo, mas é impossível você não reconhecer minha voz!
- Me dá uma dica então...
- Você estava de blusa azul e eu també, brincou que "íamos cantar"
- Nossa... não lembro, dá uma dica melhor!
- Nos vimos há três dias, no Frans.
- No café?
- Isso!
- Desculpe, não fui em nenhum Frans esses dias...
- Você não é a Letícia?
- Não...
- Puxa, desculpa! Gastei uma puta grana à toa! Espero que não seja feia, pelo menos.
- Não, não sou. Tchau.
tu-tu-tu-tu...

Quanta indelicadeza!!

11.10.07

Lembrança relâmpago


Lembrou de quando morava em São Paulo e sentiu saudade. Não da cidade natal, onde mal viveu, mas da época em que isso aconteceu. Ainda nem batia na cintura da mãe e agarrava-se nas pernas dela, quando ia atender à porta.
- Hoje são três de abacaxi e três de maracujá. Volta na sexta?
- Obrigado.
- Obrigada, bom dia.

Bate a porta. Ela corre para a cozinha e bebe o Mammy que não dá alergia, como o leite de vaca. Cresceu fortinha e passou a mãe. É a mais alta das três mulheres da casa, com 1,66m.

atropelamento

Sozinho segue pela avenida
Traços da rua corriam dele
Para trás iam embora
E o carro comia pedaços de chão
Duros
Frios
Cinzas, como todo o resto

De repente
um susto
Moto preta corta a frente
Freada ouve-se nas costas
Pelo retrovisor, um vira-lata a rodar
A sofrer
A latir
A chorar
A morrer.
A noite pesou
Os olhos amarraram
O coração sentiu
A mente invejou
Queria que o cão fosse ele.

10.10.07

Prestigiando uma amiga...


Vamos? Pelo ensaio acredito que vale a pena...
É sobre o que você menos fala e sobre o que não quer pensar que mais te queima o peito. É esse assunto não dito que fica escondido nas esquinas, espalhado pelas cidades e sob as roupas pouco usadas na gaveta, mas que sempre encontra momento oportuno para pular e te assustar.

É sobre o que você menos fala e sobre o que não quer pensar que mais te queima o peito. E é este assunto ignorado, tratado com falsa indiferença, tentando ser esquecido, que te espera acordado para dormir na sua cama, velando um sono que não vem com suavidade.

Um dia você acha que apagou o assunto, e seu consciente até o deleta mesmo, mas não entende porque dormir é tão desconfortável. E o assunto cantaComo diz o refrão de uma música "você vai me sentir numa sala vazia".

cantiga de ninar

É sobre o que você menos fala e sobre o que não quer pensar que mais te queima o peito. É esse assunto não dito que fica escondido nas esquinas, espalhado pelas cidades e sob as roupas pouco usadas na gaveta, mas que sempre encontra momento oportuno para pular e te assustar.

É sobre o que você menos fala e sobre o que não quer pensar que mais te queima o peito. E é este assunto ignorado, tratado com falsa indiferença, tentando ser esquecido, que te espera acordado para dormir na sua cama, velando um sono que não vem com suavidade.

Um dia você acha que apagou o assunto, e seu consciente até o deleta mesmo, mas não entende porque dormir é tão desconfortável. É que o assunto te nina baixinho com o refrão de uma música: "você vai me ouvir daqui a mil anos, você vai me sentir numa sala vazia".

8.10.07

Azar

Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco. Espero que o 1x0 pro CURINTIA contra o meu time querido não me traga má sorte. Bem no dia do meu aniversário, pô! Fazia mais de quatro anos que o tricolor não passava por isso. Pãtz...

7.10.07

27 anos - parte 2

Disseram que a tarde de 7 de outubro de 1980 estava meio nublada na capital paulista. Às 17h25 eu nascia. Não faz tanto, faz 27 anos, mas o longa metragem rodou bastante, virou seriado, teve várias temporadas. Muitas personagens passaram por ele, umas ficaram por perto, outras no coração... e as gravações continuam.

Na minha vida sou protagonista e diretora. Quem escolhe a trilha sonora e a próxima cena sou eu, ou deveria ser. Deus, destino, coincidências, acaso.

Eu desejo que inutilidades me cerquem, sorrisos tolos me façam feliz, incertezas se afastem, vontades sejam saciadas, o amor sempre esteja presente, sendo meu melhor lugar do mundo, e a fé seja sempre o alicerce. Que a criatividade me faça sentir viva e as responsabilidades me mostrem o chão. Que as estrelas me lembrem do brilho, mesmo que distante, e as fases da lua continuem me comovendo. Que a foto complemente o conteúdo e o ponto final exista para seguir para a próxima linha.

E que a força de um abraço sincero, a credibilidade de um olhar puro e a confiança de um belo aperto de mão estejam sempre por perto.

27 anos


Quando choro, geralmente é bem doído e as lágrimas caem quentes, escorrendo com velocidade pelo rosto, pingando no chão ou contornando o queixo, até o pescoço. Adoro rir e tenho marca de expressão no canto da boca por isso. Meus olhos ficam estreitos e pareço japonesa. Quando me envolvo com alguém sou tudo ou nada. Sou nada para quem não me convence do caráter ou para quem apenas estremece o físico. Sou tudo para quem me aquece a alma. Sou dedicada, sou amiga, amante e companheira, sou toalha de banho e cobertor, sou entrada e sobremesa. Sou presente sem prender jamais.

Quando me abalo ou me sinto insegura sofro antes, durante e depois. Descontrolo, sinto o chão tremer e me minha vida vira bombardeio em Hiroshima. Na TPM sigo à risca o que diria um manual ou uma bula. Tudo me desafia e eu acabei viciando nisso, como aquelas pessoas que acordam de madrugada para beber Coca-Cola. Assim, obviamente sou teimosa como uma porta.

Quando rezo, coloco toda fé do mundo nas minhas súplicas ou agradecimentos. Fecho os olhos ou bato um papo como se Deus estivesse comigo numa mesa de bar. Pá daqui, pá de lá. Quando me apresento não uso fantasia, máscara ou passo perfumes diferentes. Mostro minha cara, meu cheiro e a cédula de identidade. Não gostou, tchau. Nada pior que atuar.

Seja lá o que eu faça, faço questão de mergulhar e não ligo em perder a noção do ridículo. Fria ou quente, nunca morna. É por isso que comemoro mais um ano de vida e não o lamento. É por isso que não tenho medo da morte, mas procuro ouvir, cheirar, tocar, olhar, experimentar e absorver tudo que posso. É por isso que sou feliz mesmo nos dias tristes.

6.10.07

martelada boa



Criança adora ver o mesmo filme 500 vezes e ainda decora as trocentas falas para, na vez 501, ler o filme todo. Não lembro os títulos dos filmes que (num dia longínquo) fiz isso, mas lembro que minha irmã assistiu Os Caça-Fantasmas (The Ghostbusters) vezes suficientes para a fita parar de fazer barulhinho na rebobinagem. Ando meio assim ultimamente, mas no play, nessa música aí. A letra é uma graça, bem charmosa, e eu já decorei faz tempo. Mas eu não queria só saber a letra, e também é pouco saber tocar a guitarra ou o baixo dela. Queria ser a própria guitarrinha ardida, ou o baixo sóbrio, dependendo da conveniência.

4.10.07

Pensamentos próximos a mais uma conta para a direita



Perguntaram o que eu queria ganhar de presente de aniversário e pensei em mil coisas incompráveis. A única coisa material e acessível que me veio em mente e me encheu o rosto de brilho foi um buquêzinho que sempre vejo nas bancas encostadas ao cemitério da Consolação. Já procurei semelhantes em outros lugares, mas nunca achei. Ele não tem nada de super. É bem pequeno e feito com flores do campo. Gostei de um com poucas rosas amarelas no meio. Felizes, elas. Os buquêzinhos ficam em baldes, no canto das bancas e não devem custar caro.

Refletindo sobre meu objeto de desejo tão pequeno tive duas alternativas:
- achar que ele é uma projeção de mim mesma, que sou pequena demais por não pensar em algo maior de "bate pronto";
- perceber que algo que poderia estar ligado a imagens funestas também guarda uma sutil e memorável beleza.

Preferi dizer sim para a segunda. Domingo estarei em Sampa, mas acho que não vou conseguir comprar um. Uma pena.

3.10.07

Fácil assim...


Diante do estado da minha sala e do meu quarto lembrei deste vídeo. Eu queria arrumar minha casa com essa facilidade. Pelo menos o bom som deu um up no trabalho do meu córtex cerebral.

Ah! E queria ficar tão bem quanto ela com um batonzão desse...

Fato

"A Casa Demolida", de Stanislaw Ponte Preta, é incrível. Só. Ponto.

2.10.07

Libertação

Foi na sexta-feira passada, quando estava dirigindo sozinha na estrada, já com quase 45 minutos de asfalto e mil pensamentos na cabeça. Viu o sol baixando e borrando o céu de traços alaranjados, amarelos e a chegada de um lilás escuro descendo pelo horizonte como água que infiltra pelo teto e vai tomando espaço. Não havia concorrência na pista, nenhum caminhão, nenhum carro sequer, nada de motos cortando o vento. Sentiu-se numa freeway e, claro, começou a gravar o clipe. Fez tomadas pela janela esquerda, zoom out do sol. O mesmo com as faixas entrecortadas da estrada. Fez várias pans interna e externamente ao ambiente do carro, lembrou da Primeira Lei de Newton. Ela estava parada ali, mesmo com o carro a 120 km/h.

“Todo corpo em equilíbrio mantém, por inércia, sua velocidade constante. Todo corpo continua no estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme, a menos que seja obrigado a mudá-lo por forças a ele aplicadas”


Sentiu-se obrigada a se mexer, movimento combinava mais com aquele cenário mutável, aquele dia dando lugar à noite e tantos detalhes do caminho passando rapidamente, sendo quase nada capturados pela visão periférica, tudo indo embora sem dar adeus. Foi aí que ergueu o som. Ergueu muito o som bem naquela música que tanto ouve, mas sempre numa altura moderada. E foi ali que ouviu a música de verdade pela primeira vez.

Os violinos mergulharam nas suas veias, a bateria acelerou a respiração, apertou o diafragma, impulsionou o coração a bombear melhor o sangue pro corpo todo e atender também a alma. A adrenalina foi a mil antes do refrão. A cada gritou “hey!”, algo transformava a expressão dela. Os braços erguiam-se alternando o controle do volante. O cérebro não conseguiu entender nada e isso foi maravilhoso. As lágrimas começaram a cair ao mesmo tempo em que gargalhadas desenfreadas a faziam sentir-se a louca mais feliz do mundo. Euforia. Acabara a inércia. A música a levou até o fim. No coral “ô, ôô...”, que antecedeu o final, as rodas do carro sobrevoavam a pista em câmera lenta. Abriu as janelas para sentir o vento gelado que fazia contraste com o slow motion do momento. O clipe ficou lindo. O sol já havia baixado e quase se podia ver estrelas no céu. A lua já estava lá e uma assistia a beleza da outra. Quando a música terminou e o random do rádio escolheu a próxima, ela tinha vida para ressuscitar umas 50 pessoas.

---------------------
(Onde estou não consigo buscar o link pro You Tube. Por curiosidade, a música é a já manjada No cars go, do Arcade Fire. E foi para o tal lugar onde nem carro vai que eu fui)

1.10.07

Breath



Oh, that song is singin’. Singin’ in to me. Slow and sweet. It caries me.
Cinematic Orchestra

Foi pra lista das mais.

ps.: Vale a pena também ver este aqui, do Grey's Anatomy. Perfect. Talvez melhor que Breath...
E me diz se violino e piano juntos não derrubam o queixo e a dureza de qualquer um...

28.9.07

da série Sextas Infames (episódio 3)


Nossa... sexta-feira do cão. Só agora consegui postar... ainda vale, ainda é sexta.


Remédio barato


Sexta-feira chegou e nem vi a semana passar
O calor deu lugar ao frio
E a chuva nada de cair pra nos abençoar

Com nariz trancado e garganta arranhando
Passei a semana meio reclamando
Mas sexta chegou e eu melhorei
Foi automático, nem remédio tomei

A bela primavera me faz cantar
E entre flores e brisa eu quero dançar
Nesta sexta e sábado vou me acabar
Pra na segunda-feira tudo recomeçar.


Essência (baseado na Real Beleza Dove)

A menina esquisita bonita queria ser
Mas não sabia como isso podia acontecer
Pintou os olhos, prendeu os cabelos e um vestido pagou pra fazer
Se enfeitou e saiu para a rua brincar
Mas com o novo visual não conseguiu nem rodar
A saia justa prendeu as pernas e ela não pôde dançar

Se encheu e pra casa voltou sem pensar
E um shorts larguinho tratou de botar
Feliz sorriu e conseguiu atestar
A beleza vem de dentro e não dá pra comprar.

24.9.07

Ela saiu da caixinha de música

Não precisou trocar de roupa mais de uma vez. Viu que estava bem. A saia era de bom gosto, a blusa, charmosa. Sapato perfeito: lindo e confortável. Enfiou pulseiras nos dois braços, escolheu uns brincos diferentes e ainda pendurou um colar. Parecia um cabide de mostruário de loja, mas sentia-se bem. Estava protegida em todas as partes. A bolsa atravessando diagonalmente o corpo a abraçava e uma presilha pesava sobre sua cabeça, para não sair do lugar. Se perfumou para que os poros não exalassem tristeza, mas um cheiro delicado de flores com uma pitada de sensualidade, que só determinado vidro inanimado cor-de-rosa poderia oferecer naquele momento. Ainda faltava escovar os dentes e fazer uma maquiagem, para não ir com o rosto cinza. Usou bastante creme dental e contornou os olhos da maneira costumeira, puxando um traço além da área sobre os cílios. Se olhou no espelho e viu algo brotar lá de dentro, fazendo com que as bochechas parecessem mais salientes. Agora sim podia arriscar o pé para fora de casa. Saiu e o vento estava tão perfeito que ela esqueceu que antes teria tristezas para distribuir. O céu estava tão perfeito que ela esqueceu que queria um teto para esconder-se e a rua estava com o asfalto tão brilhante que ela esqueceu como era duro e áspero passar por ali. Deslizou e riu tanto que até esqueceu que parecia um cabide de mostruário. De repente estava nua no meio de uma multidão e isso não a incomodava. Os pés permaneceram firmes na terra, mas ela voou por algumas horas sem que ninguém percebesse. Sim, ninguém viu, mas todos sentiram a brisa do balanço dos cabelos dela cada vez que completava uma volta por aquele pedaço de céu e de chão.

21.9.07

Vambóra pra frente (da série sextas infames)

Sexta-feira chegou
E ‘Um dia sem carro’ eu vou dispensar
Já enchi os pneus, verifiquei a água do carburador
O tanque ta cheio
E é pra estrada que eu vou

Sexta-feira chegou
E eu decidi:
Este é dia de versos infames no blog
Dia de deixar livre meu lado bobo e grógui

Sexta-feira chegou
E meus olhos não param de rir
Já fiz a mala e pra vida vou partir

Sexta-feira chegou e não só nesta semana
Sexta-feira virou símbolo, da minha essência que diz
Que se quarta é Zeca, sexta é Thais.

---------------------------------------------------------
Tá decidido, depois do sucesso (rs) dos versos infames da sexta passada, agora, aqui, as sextas serão todas assim.

20.9.07

sem mais ataques

Corre, corre, vai mais rápido que você me desafia a virar maratonista. Se quiser nadar, tudo bem, ou pegar uma bike para descer as ladeiras mais depressa, ok, viro triatleta para te perseguir.

Se você sumir de vista, meto-me nas asas de um pardal e saio sobrevoando o mundo em busca de você. Se virar molécula, transformo-me em microscópio para te diferenciar entre todas as outras.

Sei que pode estar por aí sugando flores nesta primavera precipitada, te procuro nos jardins e, se te achar, não cortarei tuas asas, mas te entregarei minhas melhores seivas e fragrâncias.

Ando errando o caminho e batendo em mil paredes para conseguir achar você nesse planeta enorme e até já ultrapassei as fronteiras da atmosfera. Fiquei sem ar, caí lá de cima, o sol me queimou e acabei num cassino em Las Vegas. Já perdi muito no caça-níquel, no blackjack, na roleta, no baccarat. Agora cresci e estou na mesa de poker. Na minha mão, um royal straight flush está pronto para matar o jogo e eu te levar pra casa, assim que você aparecer.

19.9.07

Beijo da morte

Esta música é muitoooooo boa. New Order é muito bom!

Comentário na saída do cine

Acabei de assistir "Não por Acaso" e gostei. Não está na lista dos meus 100 mais, mas é bacana... e poético. Um cara saiu da sala e ouvi dizendo para a mulher que estava com ele que "é quase um monólogo", concordei. O filme traz bastante subjetividade e eu gosto disso.

Um pequeno trecho que me marcou foi uma fala da personagem Ênio, vendo São Paulo da torre do Banespa: "engraçado né, uma coisa acontece agora e a gente não sabe onde vai dar". Não faz muito tempo estive lá e pensei exatamente a mesma coisa.

Esta parte, vi agorinha, está no trailer do filme. Você pode dar uma olhada se quiser aí embaixo. Nada demais este post, é que como fui sozinha ao cine e o mundo sumiu de casa, estou sem ninguém pra compartilhar, rs.

Solidão

Entrou e quando viu a moça se aproximar desabotoou a calça e desceu o zíper sem cerimônia. Já estava velho, machucado e gordo demais para pensar em amor, beijos, sexo com carinho, cujo desfecho fosse um sono profundo em meio a abraços e não uma satisfação momentânea por algum dinheiro ou um grito calado de prazer solitário.

Não tinha vergonha do que fazia toda sexta-feira naquele lugar sujo e barato. Já estava velho, machucado e gordo demais para pensar em delicadezas. Simplesmente viu que ela se aproximava e, por baixo da mesinha redonda, desabotoou a calça, desceu o zíper e soltou um risinho assanhado.

Sabia que aquele ato era vergonhoso e lembrava sempre que era um pecado, mas não se importava, pois quando se olhava no espelho, via com tristeza um homem velho, gordo e cheio de cicatrizes que ainda doíam. Então, quando ela chegou bem perto, já agarrou os talheres e atacou a porção de frango assado e de espaguete ao sugo, marcadas no cardápio para duas pessoas. Mais uma vez entregava-se à gula e enchia o estômago e todos seus outros vazios.

18.9.07

(poder de retalhos)



Se é correspondido, o amor é batismo,
se não é
é extrema-unção.

Mas
por pior que seja o desgosto
o amor é tão poderoso
que até seu não é ressurreição.

O corpo morre facilmente
mas os fiapos de alma
- feita de seilá-o-que -
completam os vazios como colcha de retalhos.

(O amor é tão poderoso
que até o que é triste exala beleza)
nos pequenos quadrados
ligados
amarrados
costurados
para não soltar
e virar ar coletivo do mundo
(O amor é tão poderoso
que não deixa esquecer)
que um dia
foi respiração ofegante de dois cúmplices.

A política é como a química



Lembro de uma palestra com a assessora de comunicação da Basf, que contava sobre o case da empresa, que precisou de um suado plano estratégico integrado de comunicação para tirar o rótulo de “química é podre” do senso comum, algo que, nas vésperas da virada do milênio estava muito à tona. A onda do natureba, light, o boom de programas de Responsabilidade Ambiental e Social nas organizações e assim por diante, cegava os mais simplistas e parecia que a química não estava inserida no mundo e era coisa de um passado bárbaro. Como se química se reduzisse a processos grosseiros de fabrico e fosse quase sinônimo de soda cáustica.

Com um planejamento bem elaborado, a Basf refez seu slogan e com “A Química da Vida” investiu em espaços publicitários em todos os cantos e logo todos eram persuadidos de que a química está por toda parte e não é uma vilã do mundo moderno, ao contrário, faz parte da vida das pessoas.
Lembrei disso ontem de manhãzinha ouvindo a Jovem Pan sobre o caso Renan Calheiros (amanhã tem votação do segundo processo, vamos ver o que vai dar).

Na semana passada, Renan foi absolvido pelo plenário do Senado, em sessão secreta, no processo que pedia a cassação de seu mandato. Apesar de ser acusado de usar recursos da empreiteira Mendes Júnior para pagar aluguel e pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha fora do casamento, o cara continua lá. O fato colocou o “ahhhhhhh não é possível!” na boca de muita gente e os poucos exemplares de uma imprensa crítica remanescente de outros carnavais noticiou que “o plenário tomou uma decisão contra a vontade do povo”. E foi aí que pensei: mas que vontade é essa que deixa tudo passar?

Como a Basf fez, alguém, alguma coisa, de alguma forma deveria mostrar pro povo que a política não é um bicho de sete cabeças, como a química, permeia nosso cotidiano. Nós votamos, pagamos impostos e temos informações (pelo menos parte delas, que a mídia noticia) sobre o que acontece no topo da política e parece que é só isso. Mas não. Não mesmo. Há política no ambiente de trabalho, na relação com os vizinhos, na escolha do presente que vamos comprar em conjunto para um membro da família, na hora que defendemos que X bar que queremos ir é mais interessante. Até em alguns “bons dias” há política. Mas o povo não a sente por perto, parece que ela está muito longe de seu alcance, que a política pública "não é pro seu bico".

Alguns idealistas e outros seres pequenos demais no seu entendimento de como funcionam as coisas acreditam que a corrupção acabe quando X ou Y partido ou presidente assumir o poder, mas todos têm interesses próprios, todos têm sua política e imaginar que basta colocar os problemas nas mãos de um milagreiro e cair no samba é o caminho, é um erro. Se a maioria que vota vê aquela ação como um “ok” momentâneo na urna eletrônica (supermoderninha, por sinal), aquele dia que ninguém pode beber e passa horas procurando pelo título escondido em alguma pastinha ou gaveta não tem sentido. Num país onde as pessoas não vivem, passam pela democracia, a liberdade de escolha é um presente de grego.


p.s.: não escrevi isso criticando o governo atual ou o anterior, ou um partido ou outro. O que irrita é a postura do brasileiro e me incluo nisso de certa forma.

14.9.07

(80%) brancos e (100%) infames



Má companhia

Abordagem muda, calada, criada
De joelhos como que em oração
Aparece cinza e estranho.
Agarrando os joelhos,
cobre-se com cobertas e fibras musculares rígidas
Suor, pânico
Olhos não fecham, piscam.
Coração não bate, martela.
Garganta fecha, oração não se eleva.

Noites em claro
Velhos pesadelos.



Engano

Viu o mar perfeito pelo vão das pernas da mãe
Viu o sol perfeito pelo negativo de um filme fotográfico
Viu a lua e as estrelas perfeitas todas a céu aberto de uma varanda
Viu as flores perfeitas no canteiro da avó
Viu sorrisos perfeitos ao longo dos anos
Viu a cena perfeita na avenida perfeita da cidade perfeita com a pessoa perfeita
Achou que tinha visto todas as perfeições
Acreditou
Mas era tudo imperfeito.



Fome

Arroz, feijão, batata frita, bife à milanesa ou parmegiana
Filé mignon, molho fungui, salada de palmito
Lasanha, espaguete, milho verde na espiga
Frango ao suco de laranja, salmão ao maracujá, pintado na brasa
Panquecas, crepes, sorvetes, bombons, amanditas,
Guarda-chuvinhas de chocolate, lápis, moedinhas
Não. Torta salgada, pastel de feira, kibe assado, esfirras!

Miojo, hummm, que delícia.



Sexta-feira

Abre, senta, cinta, liga, sai, segue, pista,
Pedágio, pista, pista, pista, pista, pista, pista
Pedágio, pista, pista, pista, pista, pista, pista
Pista, pista, pista, pista, pista, pista, pista, pista,
Pista, pist-a, pis, t-a, pi-s-t-a, p-i-s-t-a...
Lar, doce, lar.
Ça va?!



Final feliz

Cansada de ficar sozinha
Lembrou do conselho da vizinha:
Melhor se enforcar num pé de couve.

Roça adentro buscava um pé que lhe agüentasse
Estava fraca, fácil achar um que a segurasse.

Perdida no mato, sem avistar sequer uma casinha
Lembrou do conselho da vizinha:
No desespero louve.

Rezou e ao longe viu um moço de chapéu
Estava fraca, difícil pedir outra ajuda que não a do céu.

Mas ele a viu e a socorreu.
As pupilas dilataram
e as mãos nas delas ele correu.
Ela não sabia, mas ele era surdo.
Pronto, trocou o pé de couve por um anjo que não ouve!

12.9.07

Eu, eu mesma e Scorsese


Uma coisa puxa a outra e, no cinema, lembrei do esperado Oscar para “Melhor diretor” conquistado por Martin Scorsese no ano passado. Não, nenhum trailer anunciava um próximo filme dele, mas fazendo zilhões de ligações meus neurônios trouxeram a imagem dele com o Oscar na mão. O estalo foi assim: “meu! Tenho tudo a ver com o Scorsese!”.

Não é prepotência, olha só, além dos óculos com armação quadrada e grossa, nariz avantajado, ele não abre mão do seu estilo. O cara é ponta-firme.

Ok, mas o fato é que ele tentou, tentou, mas o homenzinho de ouro apareceu depois de muito trampo. Os filmes que mais o fizeram chegar perto de uma estatueta para “Melhor diretor” foram Gangues de Nova York (2002), com dez indicações, e O Aviador (2004), com 11. Mas foi só no ano passado, que The Departed lhe rendeu o esperado (mais pelo mundo que por ele, que já estava cansado de não ter o nome no envelope) Oscar. Até o Clint Eastwood passou a perna nele. Pô!!!


Então, como Scorsese, já passei por dois “quase”, “é agora, é agora”, “consegui!”, mas meu “homem de ouro” não veio pra casa. Óbvio que analisando friamente é duro engolir que o cara conseguiu o Oscar já na terceira (existe quarta?) idade... Assim, essa é mesmo uma preocupação legítima. O melhor a fazer para viver bem e não enlouquecer de não-amor é ter fé e não esmorecer quando alguém acabar com o romantismo e dizer “ahhhh, aquilo foi prêmio de consolação! pô, que talento reconhecido oscambau*!”. Isso NÃO é verdade.

Afinal, não adianta ser bom e ganhar vários bons prêmios. Na cabeceira da cama tem que estar o melhor.

Depois desse besterol que pareceu interessante na minha mente maluca e cheia de links desvairados, enquanto via o trailer de Passado, com Gael García Bernal fazendo papel de esquecidinho (deve ser bom o filme), começou Primo Basílio. Sorte que a Glória Pires estava lá, no papel da esférica Juliana e salvou minha entrada inteira, porque sou eterna estudante, mas só filosofia de vida não carimba carteirinha de desconto.

O filme foi tão bom que voltei pra casa retomando a teoria "retarded" da minha semelhança com o Scorsese e não pensando no Basílio (ou no Jorge, muito mais meu tipo).

* afinal, como escreve “oscambau”?

10.9.07

Dia Mundial de Prevenção do Suicídio



Ok. É romântico, é byronista, é marcante. Mas eu não pularia, não tomaria zilhões de remédios, não cortaria os pulsos, não me enforcaria, não tomaria overdose, não me jogaria na frente de carros, trens, trens de pouso, motos, trilho de metrô. Não. Não me afogaria, não estouraria os miolos com um tiro. Nada de "boom". Quando eu morrer será "pluft" e pronto. Na hora certa, seja ela qual for. Há o que ver, o que cheirar, o que experimentar. Às vezes o gosto amargo prevalece, mas nas entrelinhas há muito chocolate e sorvete para degustar.

E pensar que tudo começou com um grito da mãe, um sorrisão do pai, um tapa na bunda do médico, um choro ardido ao ver a luz e receber ar pela primeira vez... um ano depois "Parabéns pra você". Tá, nem sempre é tão "redondo" assim, mas a luz e o ar sempre estão lá.


Uma pessoa se suicida a cada 30 segundos no mundo, diz OMS. Veja a notícia que saiu na Folha On Line

6.9.07

E as cortinas se fecharam...



É estranho quando um ícone morre. Parece que só quem sente dor são pessoas comuns, como eu, meus amigos, conhecidos. De repente uma doença se apodera e faz calar.

Lembro que já havia ouvido o tenor Luciano Pavarotti muitas vezes, mas a primeira que me emocionei foi com Miss Sarajevo. No momento que era ouvida e o show beneficente visto ao vivo pela TV, a situação, a letra, a música eram lindas. Bono estava lá, emprestando seu charme e fortalecendo seu posicionamento filantrópico diante de um cenário triste de guerra... mas o que fez a diferença, o que deu significado àquela música que marcava um momento histórico foi mesmo a expressão do sentimento despejado de forma violenta, grave, poderosa e sem abafadores, na voz de Pavarotti.

Foi quando ele entrou na música quebrando o ritmo baixo e delicado que Bono dava à canção, que eu desmoronei e creio que o mundo sentiu o real significado de tudo aquilo, assim como eu. Se Pavarotti fez diferença na música lírica pelo seu talento e técnica, para mim ele fez diferença quando suas notas tocaram forte meu coração. As cortinas se fecharam, mas ele soube fazer a diferença e ganhou a imortalidade.
E na paz.


Foto: Jason Szenes/EFE -14.mar.2004
Aqui, no álbum do Uol



(atualizado às 19h)
obs.: Escrevi merda. O show que tenho na memória foi o Pavarotti And Friends (o vídeo é esse aí). A música foi feita para um documentário sobre a guerra na Bósnia e dá referências do concurso da Miss Sarajevo, que foi realmente realizado em plena guerra para chamar a atenção das autoridades européias aos horrores que estavam acontecendo em Sarajevo. No desfile as candidatas entraram na passarela com um cartaz que dizia: "Não deixem que eles nos matem", cena que estampou muitas primeiras páginas de jornais. Nada como Google e Wikipédia para checar gafes. Mas sim, ouve arrecadações e movimentações antiguerra. É isso. Haveria ainda muito o que dizer... mas fica pra próxima.

3.9.07

é só Roma ou romã

O amor é quase nada. É apenas uma palavra na boca da maioria das pessoas do mundo. Amor é roma ao contrário, Roma ou romã. Só isso. Queimemos a primeira, chupemos as sementes em simpatia de Ano Novo na segunda e só.

O amor não tem sentido. É só uma palavrinha simples de soletrar, com fonética ritmada e fácil de separar as silabas: a-mor. A-mortecido, a-mordaçar, a-morfo, a-mornado, a-mortalhado, a-mortecedor, a-mortiçar.

O amor não é real. É algo subjetivo demais, confuso demais, mascarado demais. É jogo de poker sem estratégia, é Straight Flush roubado. É ator de filme de quinta, de seriado sem graça e de novelinha mexicana, mas com pretensão a protagonista digno de Oscar, Cannes, Concha, Leão, Globo e Palma de Ouro.

O amor não é mocinho, é bandido. Ele não salva, mas sai atirando por aí, mata uma, duas, três, mata quantas vidas puder. Mata até gato. Mata fênix. O amor matou toda máfia italiana e todos os membros da Yakuza.

Achar que ele é verdadeiro é como comprar televisão em promoção por R$ 799 e encontrar por R$ 599 na loja ao lado. É como acreditar no e-mail que lhe envia um prêmio. É como acordar com porre de vinho batizado ou vodka porcaria.

Faz quase 27 anos que não aprendo. É por isso que vivo maltrapilha e doente por aí. É por isso que minha enxaqueca é crônica e também por isso que trago sempre Engov na bolsa.

31.8.07



Digo pedra

Digo pedra, esta pedra e este peso,
Digo água e a luz baça de olhos vazos,
Digo lamas milenárias das lembranças,
Digo asas fulminadas, digo acasos.

Digo terra, esta guerra e este fundo,
Digo sol e digo céu, digo recados,
Digo noite sem roteiro, interminada,
Digo ramos retorcidos, assombrados.

Digo pedra no seu dentro, que é mais cru,
Digo tempo, digo corda e alma frouxa,
Digo rosas degoladas, digo a morte,
Digo a face decomposta, rasa e roxa.

(Saramago, Provavelmente Alegria, 1970)

29.8.07

No elevador

No primeiro dia ela entrou no elevador junto com um casal. Apertou o 5, eles o 15, último andar. Beijos, amassos, braços como pseudópodes amébicos para lá e para cá. Era como se ela não estivesse ali.

No segundo dia ela entrou no elevador junto com um senhorzinho que usava andador. Apertou o 5, ele o 3. O velhinho tossiu, pigarreou e tossiu de novo. As mãos apoiavam o corpo no andador e a boca não pôde ser tampada. Ela o ajudou a sair pela porta e seguiu por mais dois andares em companhia do cheiro de garganta inflamada.

No terceiro dia ela entrou no elevador junto com três molequinhos que estavam antes brincando de pega-pega no estacionamento. Apertou o 5, o primeiro molequinho o 2, o segundo o 3 e o terceiro o 4. Eles ficaram rindo da cara dela ao pararem nos andares e nenhum descer. Chegando no 5º ela desceu e os três continuaram rindo, mas complementaram a sacanagem com os dedinhos médios de todas as seis mãos levantados.

No quarto dia ela entrou no elevador junto com um homem muito nojento. Não, muito, muito nojento. Ele encolheu a barriga, inutilmente, e ocupou quase todo ambiente. Apertou o 5, ele o 7. Ele a mediu de cima para baixo, de baixo para cima, deu um sorrisinho e contou que tinha uma Pajero TR4, apartamento na praia e ia fazer uma viagem para a Alemanha. Piscou e disse “quer conhecer a morada do salsichão comigo?”. O elevador se abriu, ela saiu o mais rápido que pôde.

No quinto dia ela entrou no elevador junto com uma jovem mãe e uma menininha de colo, vestida de cor-de-rosa. “Pode aguardar um pouquinho?”, segundos depois entrou a mãe e a sogra. Apertou o 5, cada uma delas, exceto a bebê, apertou o 10. As duas avós, com luva de pelica, disputavam a atenção da criancinha. Com muito chacoalho, um jato de vômito azedo voou nela. Chegou no 5º. “Não foi nada”, respondeu aos 500 pedidos de desculpas. Direto pro chuveiro.

No sexto dia ela entrou no elevador junto com uma mulher cheia de sacolas de supermercado. Apertou o 5, a mulher o 13. De repente um das sacolas rompeu, a mulher abaixou para salvar o conteúdo, outras sacolas caíram, ela abaixou para ajudar. Várias miudezas rolaram pelo elevador. A porta se abriu no 5, mas ela não conseguiu sair. Foi até o 13 ajudando a mulher. Tudo resolvido, apertou o 5. O elevador subiu.

O casal, no 15º, entrou. Amassos. Pseudópodes. Parou no 13, a mulher entrou: “esqueci uma sacola no carro”, explicou-se. E aí parou novamente no 10, quando entrou a moça, a mãe, a sogra e a criancinha. A porta abriu-se novamente no 7, quando o homem nojento não entrou, pois achou que não cabia. Quando pensava que poderia, então, correr para seu apartamento quando o solavanco e a luz verde marcando o 5 ocupassem o mesmo lugar no espaço, percebeu que não apertara novamente o botão e o elevador havia “esquecido” o chamado.

Solavanco, luz verde no 4. Um dos menininhos marginais. Solavanco, luz verde no 3, velhinho com tosse resolveu esperar, pois o andador jamais entraria ali dentro. Solavanco, luz verde no 2, outro marginalzinho. Solavanco, luz verde no 1, o zelador. Solavanco, luz verde no térreo. Todos descem. Ela fica. Aperto o 5 mais de 5 vezes e reza para ninguém aparecer. Prece atendida.

E foi assim que, cansada, no sétimo dia, viu que tudo aquilo era demais e que a escada poderia ser uma alternativa. Hoje, um ano depois, está com 5kg a menos, as panturrilhas mais firmes, mais bem humorada e não pega gripe desde então.

Inveja do eterno amor juvenil



- Você me ama?
- Claro...!
- Quanto?
- Muito, tudo, pra sempre.
- Eu amo mais: pra sempre mais três dias.
- ahahah, bobo.
- Sério. Você é linda, charmosa, gostosa, inteligente, divertida, seus olhos brilham.
- Me abraça forte?
- Te amo...
- Te amo...
- Ops, seu pai chegou, até amanhã,
- Até, te ligo assim que chegar em casa.
- Tá, espero, manda mensagem também.
- Mando. Viu, te amo!
- Eu vou casar com você.

(o videozinho é um achado de uma amiga, que mandou o link com uma nota, que dá título ao post)

28.8.07

Red Hill Mining Town

Acabo de ler o encarte e descobrir que não tinha mais que 7 anos quando a faixa 6 do álbum The Joshua Tree já podia ser ouvida na Europa. Eterna, pude conhecê-la lá por 1995 ou 1996 e desde então me acompanha. Não é a melhor música do mundo, mas uma das mais belas composições (leia-se a somatória de letra, música e pegada) da banda, na minha humilde, partidária e pouco entendida opinião. O tipo de trilha para todas as horas: alegria, fossa, delírio, alongamento, bar, jantar romântico, intervalo de festinha heavy metal.

Ela faz sentir o amor e não coloca o eu narrativo como um bundão abandonado, um bobinho apaixonado ou um coitado medíocre. Ele vive esperança e algo mais que todo mundo vive: dúvidas. Não achei clip no You Tube... só uma montagem feinha. Quem não tem o disco para dar play, pode clicar aqui.

E eu juro que este post não é recado pra ninguém!

_______________________________________________________________

ps: Será que é verdade que Bono e Penélope Cruz estão juntos? Puta mulher linda, aliás. (Nem preciso dizer o que eu e 999 milhares de mulheres e homossexuais achamos do Bono)

Saio tranqüila, ele está congelado

Aproveitei para recolher meus cacos do chão. Peguei um saco plástico vagabundo e fui jogando as partes de mim que encontrava pela casa lá dentro. Pedaços de mãos, de pés, de costas, centenas de fios de cabelos. Boca, olhos e pescoço também estavam esmigalhados e foram parar lá. Partes de minhas pernas, as coxas especificamente, também foram encontradas e colocadas no saco. Encostado no fim do corredor, meu coração pulsava fora de mim. Estava escuro, descompassado e pesado demais. Peguei-o com cuidado e não o joguei no saco, como as outras minhas partes machucadas e dilaceradas. Amarrei a boca do saco, enfiei-o em outro e joguei tudo fora. Respeitei as experiências do meu coração, embalei-o em MagiPac e resolvi deixar no freezer. O saco plástico não o agüentaria e o que faria eu se arrebentasse o saco e caísse meu coração? Se escorregasse pelas escadas e espatifasse em um degrau qualquer?

27.8.07

100 posts


Estava esperando pelo post #100 e pensando no que poderia fazer de interessante para o marco. Isso há uma semana. Esqueci completamente e o post anterior ocupou um lugar privilegiado sem mérito. Coisas da vida... já aconteceu comigo, certamente também com você.

O 101 é este aqui. Vi esta árvore na semana passada, fiz a foto, mas não imaginava que a cena interagia como uma espécie de profecia. Ela é o retrato do meu interior hoje.

É cinza, mas mira o alto e não perde o foco. É o que interessa.

Para arrematar, assista a abertura do seriado Dexter, um dos meus novos favoritos e veja se a edição é ou não espetacular...

A casa 15


Sempre que tenho um rascunho em mãos faço um tipo de mosaico com formas geométricas ou desenho o tradicional cenário com casinha e chaminé, árvore, cerca, nuvens, sol e montanhas ao fundo. O mais interessante é que a casa dos meus rabiscos tem plaquinha com número, e é sempre 15. É incrível como a nossa mente guarda as coisas com carinho. Eu já morei em uma casa de número 15 há muito tempo, quando tudo era festa. Quando quero extravasar ou sumir do mapa, meu cérebro lembra com saudade daquele tempo em que dormir, estudar e rir era emprego, e eu rabisco a mesma casinha sobradada com janela para a rua.

Eu era criança e a casa 15 ficava em Feira de Santana, na Bahia, num condomínio fechado, que reunia várias casas em uma rua larga e comprida, que terminava em um espaço com estacionamento para visitantes, piscina, bar e campo de futebol, mas que sempre era ocupado por rede e bola de vôlei. Havia muitas mangueiras pelo condomínio e poucos cachorros (para minha sorte, que tinha pavor naquela época).

Éramos uma criançada diferente das de hoje. O computador era artigo apenas para bancos e grandes empresas e ter videogame era um luxo para os solitários, já que o legal era brincar na rua. Jogávamos queimada (lá era “baleado”), pulávamos elástico, desbravávamos casas vizinhas ainda em construção, as quais nossos pais nos faziam prometer que nem passaríamos por perto. Éramos uma turminha unida tanto para o bem quanto para o mal. Se estávamos juntos para estudar, também estávamos juntos oferecendo suco e bolo de terra para as crianças menores. Riamos a cada bocada dos pequeninos com nossos garfinhos de plástico e não contávamos para ninguém nossas pequenas malvadezas. Mantínhamos nossos segredos.

Na casa 15 pulava as janelas para poder sair para brincar aos fins de semana que estava de castigo, e achava que meus pais não sabiam. Lá eu dividia o quarto com minha irmã, pois preferíamos assim. Foi lá que fiz meu primeiro ensaio fotográfico, gastando um filme novinho de 24 poses com fotos de nossos brinquedos.

Na casa 15 me enroscava, de ponta cabeça, numa rede e pedia para os amigos balançarem “bem fortão”. Devo ter me machucado umas vezes, mas não me lembro. Na casa 15 eu também caí no quintal e ralei os braços nas paredes chapiscadas do corredor, de onde saía com minha bicicleta Caloi Ceci. Ainda posso me enxergar pulando dela quando percebia que não tinha mais ninguém segurando a garupa e, seilá por que, não freava ou fazia curvas. Apenas saltava da magrela e deixava a coitada à deriva, até cair e se ralar nos paralelepípedos contínuos da única rua do condomínio.

-----

“Moscão!!!!!”
Quando eu morava na casa 15 minha mãe ainda tinha muito medo de moscas varejeiras, aquelas verdes, cheias de larvas, sabe? Ela tinha ouvido dizer que uma criança havia morrido porque a mosca depositou os ovos no nariz ou no ouvido dela sem que percebesse, e os bichos cresceram por dentro. Assim, ela desenvolveu um método de proteger eu e minha irmã das moscas nojentas e matadoras: com a mão direita, apertávamos o nariz e aproveitávamos para cobrir a boca (já fechada com força, mantendo os lábios escondidos) e, inclinando a cabeça, tampávamos a orelha direita com o ombro. A mão esquerda tratava de fechar a orelha esquerda e os olhos também eram apertados. Fechávamos as perninhas e nos mantínhamos quietas, para a mosca não perceber nossos movimentos. Aí, minha mãe pegava o inseticida e cumpria seu papel de heroína. Pronto, estávamos salvas!

Claro que pode parecer maluquice, mas Feira de Santana ainda tinha muito que melhorar no seu saneamento básico e, certamente, se eu morar num lugar semelhante, farei o mesmo com meu ou meus futuros filhos. “Moscão!”, também gritarei para eles, sendo perpetuado nosso eterno grito precedente da operação tapa-buracos.

-----

Da janela do meu quarto, que dava para a rua, dei a última olhada para o condomínio, em 1991. Deixamos a casa 15 com muitas lágrimas e dor. Soube que a escada vazada de madeira, desenhada pela minha mãe, as ardósias da sala, o jardim com “rosas graxas” coloridas não existem mais, talvez nem o armário incrível, que, com uma das portas, escondia a suíte do quarto dos meus pais. De qualquer forma, apesar de não abrigar uma caixa, ou uma porta secreta, sei que ainda há muitos segredos meus espalhados por lá.