18.10.07

O cara da frente

Estava ouvindo Modest Mouse e tentando imaginar como eu dirigiria um clipe para a música Dashboard sem conseguir me desligar dos barbudos do clipe (bem bom) já existente... foi quando vi o trânsito parado e, de repente, estava no meio do engarrafamento em uma rua estreita de duas mãos. Mudei pra Radiohead, que combinava melhor, ainda mais por estar chuviscando. Não tinha para onde fugir e percebi que logo ia ser eu a motorista que poderia ou não fechar a rua perpendicular um pouco à frente. O “logo” acabou durando 20 minutos... Quando ia apontar na rua, pronto. Parou de novo. Ficou um cara na minha frente. A galera xingava, ônibus soltavam aquela fumaça fedida e gosmenta como se estivessem bufando de raiva e de cinco em cinco segundos passava uma moto buzinando, como se estivesse se exibindo, sabe, como aquelas magrelas bonitonas que cabem em qualquer roupa. Já estava com a paciência no limite. Via meu prédio e até podia enxergar a minha cortina, mas estava ainda longe de poder subir pelo elevador e me esticar no sofá.

Cansei do som e desliguei tudo, até o carro. Aí, prestando atenção na cena externa, comecei a ver que algo estranho estava acontecendo. Ao contrário da rua onde eu estava, o trânsito na rua perpendicular poderia fluir, mas a minha fila estava atrapalhando a visão. Aí, o cara na minha frente se ligou que tinha virado o ponto zero daquele plano cartesiano e, de dentro do carro, começou a sinalizar pros motoristas da direita se podiam ou não fazer o 90 graus, passando pelo lado dele e dando tchau pro estresse daquele aglomerado de gente em suas maquininhas dirigíveis.

O cara dava buzinadinhas, esticava o braço pra fora, fazia sinais universais de “pare”, “siga” e gritava “pode vir!”, pra assegurar ao outro que a barra estava limpa. Aí, o sujeito agradecia, sorrindo, claro, e se livrava dali. Parecia cumprimento de compadres. Um velho rabugento ajudado teve a capacidade de emparelhar e dizer “obrigado, mas você é bobo, hein!” e saiu cantando pneu. Foi quando um outro que estava atrás, ouviu e gritou: “Ao contrário do véio, eu te amoooo!”. Acho que o bairro inteiro ouviu. E foi assim que o cara da frente virou herói de alguns que queriam chegar logo em casa, fazer um xixi e ou comer alguma coisa.

3 comentários:

renata disse...

Eu também amaria esse cara. Fez a diferença no meio do caus! Fez a parte dele e se redimiu pelo erro de fechar o campo visual dos outros. Ponto pra ele!

Adoro crônicas sobre o cotidiano.

Paulo disse...

Thais
É por isso que morar mais no interior, numa cidade menor , é melhor às vezes, mas nem sempre ...

Thais França disse...

pois, pai... e eu querendo fugir!