22.10.07

Clichê


Tinha 76 anos e já tinha perdido a sanidade há muito tempo. Não tinha família, os pais, obviamente, haviam morrido, os irmãos idem. Amigos tinham suas vidas, tinham sumido ou já tinham ido pro beleléu também. Ela morava em um asilo e acordava todos os dias às 8h. Acordava, colocava a dentadura e ia fazer xixi. Escovava a dentadura, como dentes de verdade, e bochechava com Cepacol. Repetia as frases da antiga propaganda “Cepacol, diariamente. / Não é a cara do tio?!” e sentava-se na cama para esperar a enfermeira que a levaria tomar o café da manhã.

Todos riam dela. Um dia fora muito bonita e charmosa, mas acabou uma velha perua com trapos descombinados e baton bem vermelho. Sempre colocava um lenço colorido na cabeça, pulseiras no pulso magro e só tinha saias rodadas. Quando entrava no refeitório, não andava, desfilava. Os velhinhos de lá achavam graça, as velhinhas a chamavam de velha-louca-assanhada. Ela não ligava, na verdade nem ouvia, só fazia um pivô no centro estratégico do salão cheio de mesinhas de madeira com toalha xadrez e cheiro de sopa rala com pão.

Almoçava com quem lhe desse um sorriso com um pouco mais de saúde e saía bailando, em passos lentos de uma valsa sem muita harmonia. Ia para o jardim com a enfermeira e pensava na vida, contava causos sem pé nem cabeça e ia tirar um cochilo. Quando chovia, as flores brotavam e ela levava uma margaridinha para o quarto. Em meio a uma lucidez sem sentido, vivenciava com pesar sua solidão. Remontava cenas dos muitos amores passageiros que passaram pela sua vida sem ficar. Lembrava do amor que nunca conseguiu entregar e do coração que pulsava, mas nunca conseguiu embrulhar para presente, mesmo querendo. Fazia o bem-me-quer-mal-me-quer e dava um jeito de acabar no “mal”. Era assim que era para ser. Foi assim que foi. E ela voltava a rodopiar com seus trapos descombinados, esperando o fim chegar.

imagem:Cinéfilo, n. 89, May 3 1930. Na foto Sally Blanc e June Clyde.

5 comentários:

Paulo disse...

Thais
Muito triste, mas real, tantas pessoas passam por isso
Seu pai.

Fabio Chiorino disse...

adoro histórias em que protagonistas perdem a sanidade sem perder a beleza de seus atos já desconexos. "Fazia o bem-me-quer-mal-me-quer e dava um jeito de acabar no “mal” é divino. Um bravo para você.
Beijo

Ju Guidolin (agora também Perrenoud) disse...

O que mais me encanta nos seus posts é a riqueza de detalhes da sua imaginação. E o romantismo e respeito com que trata todas as personagens. Isso a torna muito mais machadiana do que rodriguiana. Eu gosto, prefiro...

bjos

Thais França disse...

Obrigada ao mocinhos! Fábio, posta algo legal terça que vem, pelo amor de Deus... vcs estão me deixando down...
Ju, milagre vc aqui! thanks, amiga querida. bj

Thais França disse...

Legal = up, no sentido acima