24.9.07

Ela saiu da caixinha de música

Não precisou trocar de roupa mais de uma vez. Viu que estava bem. A saia era de bom gosto, a blusa, charmosa. Sapato perfeito: lindo e confortável. Enfiou pulseiras nos dois braços, escolheu uns brincos diferentes e ainda pendurou um colar. Parecia um cabide de mostruário de loja, mas sentia-se bem. Estava protegida em todas as partes. A bolsa atravessando diagonalmente o corpo a abraçava e uma presilha pesava sobre sua cabeça, para não sair do lugar. Se perfumou para que os poros não exalassem tristeza, mas um cheiro delicado de flores com uma pitada de sensualidade, que só determinado vidro inanimado cor-de-rosa poderia oferecer naquele momento. Ainda faltava escovar os dentes e fazer uma maquiagem, para não ir com o rosto cinza. Usou bastante creme dental e contornou os olhos da maneira costumeira, puxando um traço além da área sobre os cílios. Se olhou no espelho e viu algo brotar lá de dentro, fazendo com que as bochechas parecessem mais salientes. Agora sim podia arriscar o pé para fora de casa. Saiu e o vento estava tão perfeito que ela esqueceu que antes teria tristezas para distribuir. O céu estava tão perfeito que ela esqueceu que queria um teto para esconder-se e a rua estava com o asfalto tão brilhante que ela esqueceu como era duro e áspero passar por ali. Deslizou e riu tanto que até esqueceu que parecia um cabide de mostruário. De repente estava nua no meio de uma multidão e isso não a incomodava. Os pés permaneceram firmes na terra, mas ela voou por algumas horas sem que ninguém percebesse. Sim, ninguém viu, mas todos sentiram a brisa do balanço dos cabelos dela cada vez que completava uma volta por aquele pedaço de céu e de chão.

6 comentários:

Paulo disse...

Thais
Parece-me que distribuir tristezas não fazia parte do glossário.
Seu pai, Paulo

Fabio Chiorino disse...

Ou estou enganado (mas não estou), mas há um jogo poético soberbo em "Se perfumou para que os poros não exalassem tristeza". Bom demais. Beijão.

PS: fiquei feliz com o anúncio. E-mail da redação é chiorinobr@yahoo.com.br

Thais França disse...

Verdade, pai. É que é mais gostoso escrever sobre tristeza, só isso ;)

Fábio, boa mesmo é esta música. Ela é 100% boa, letra, música, instrumentos usados, vocal, tudo.

Em breve receberá algumas coisas para análise. Bj!

ca.jornal disse...

Thais, pra variar, um texto impecável!
Jesus, sua escrita sempre foi motivo de inspiração para mim! Como você consegue? rs
Pode deixar que entrarei sempre viu!
Um super bju
Camila, sua eterna estagiária

Calebe disse...

Thais,

depois venho ler e comentar esse post, no mais, queria apenas agradecer sua presença e seus comentários lá pela Abstraktus. Oh, sim, e também: comentei no "Sem mais ataques" e no "Comentário na saída do cine" - depois dá uma olhada...

Beijo, té logo.

Calebe

Thais França disse...

Valeu, Calebe! Vou ler tudo sim... respondo.
bj