27.11.07

quando a moça desidratada saiu correndo e voltou


Não teve dúvida. Saiu correndo sem nem bater a porta, largou aberta. Enquanto corria, lembrou do filme “Corra, Lola, corra”, mas sabia que não dava para ficar indo e voltando a cena. Só parou de correr quando torceu o pé várias quadras pra frente. Por sorte, o bairro tímido tinha muitas casas e algumas ofereciam degraus para a calçada. Sentou. Tirou o tênis e percebeu o pé inchando. A dor da torção era bem menor que a de seu coração oprimido. Ele tinha sido torcido e retorcido por meses a fio e já nem tinha mais a forma de uma mão com os dedos presos na palma, estava meio disforme, meio mulambento. Começou a chorar, mas sabia que não ia lavar a alma como acontece nos filmes. Sabia que o chorar descontrolado era apenas um desabafo à galope, um alívio morno. Efeito placebo. Mesmo assim não conseguia controlar o fluxo das lágrimas que rolavam sem vergonha de estar à céu aberto e que saiam dos olhos deixando a cabeça mais oca e propícia a uma bela dor de cabeça.

Chorou até a dor do pé e do coração parecerem pequenas. Até todas as dores acumuladas parecerem se esconder por detrás dos olhos mareados, cujas pupilas nadavam sem rumo num mar finito, mas fundo e revolto demais. Quando as pálpebras se cansaram de ficar apertadas demais, ergueu a cabeça (que já comportava um turbilhão de alfinetes que se movimentavam em ritmo acelerado), e decidiu limpar o rosto. As lágrimas haviam descido queixo abaixo e molhado todo seu colo. O gosto estava vívido nos lábios. Lembrou que quando era criança percebeu que “lágrima é igual a soro caseiro”, mas o resultado não era o mesmo, a lágrima não recompunha, não acabava com a desidratação daquele corpo maltratado pela falta de doses líquidas de carinho. Cansada, olhou pra rua vazia e acompanhou os poucos carros que passaram por ela, sem sentir sua permanência triste naqueles degraus. Levantou, saiu mancando. Teria que caminhar bastante e o tênis não cabia no pé. Foi descalça sentindo o asfalto quente. Tinha deixado a porta aberta e precisava fechar.

...

Do elevador, ouviu a música vindo do apê...

2 comentários:

Paulo disse...

Thais
Tears sometimes helps you to understand your soul and others times to clean your lachrimal stream.
Your father

Thais França disse...

é bom tê-los sempre limpinhos! bj, pai!