29.11.07

uma cena e uma música qualquer

Ela resolveu passear na velha Maria Fumaça que o avô a levara quando era criança e os pedacinhos de carvão trazidos pelo vento, junto com a fumaça pra dentro do trem, queimaram seu conjunto de shorts e blusa vermelho de bolinhas brancas, feito pela avó. Sozinha, debruçada na janela antiga com tinta verde descascada, ele sorri pensando como é bonito ver os trilhos serem cobertos pelos vagões. De repente, uma música, que nunca havia reparado, começa a tocar nas velhas caixas de som que reproduziam o chiado mais magnífico que já tinha ouvido. É Palavras e Silêncio. Pensa por instantes que Fagner é terrível e que o dueto com Zeca Baleiro é irrelevante. Só que o violão a enfeitiça, a música navega em suas veias em barquinhos de papel dobradura e ela acaba tomando cada verso em aviõezinhos de colheradas. Volta para a poltrona, só apóia uma das mãos no peitoril da janelinha e mira o horizonte. O sol está se escondendo atrás de duas montanhas, como naqueles desenhos feitos com giz de cera. Começa a pensar na vida, desde que o carvão queimou o shorts, o mesmo da foto que ela está numa praia, morrendo de medo, posando de bonezinho sobre um pobre e mirrado pônei. Lembra de muitas das palavras não ditas e de muitos silêncios cheios de significado. Recorda-se de grandes pequenas conquistas e de todos os seus amores. Tenta fazer uma listinha, desde o menininho da festa junina da escolinha. Refaz velhas perguntas, “será que se eu tivesse feito tal coisa seria diferente?”, “será que se eu não tivesse feito seria?”, “será que fiz tudo que pude?”, “será que eu estou fazendo a coisa certa?”. Suas palavras se perdem na brisa do cair da tarde e suas dúvidas na única certeza de que tem: talvez nunca tenha respostas. Muda o foco, lembra dos olhos verdes clarinhos do avô, que a diabetes escureceu, do abraço forte do outro, que ainda pode sentir. Da avó que completou 80 anos cheia de energia, mesmo fumando feito a chaminé do trem e da outra, que vive procurando novas doenças e remédios para ter um pouco mais de atenção, e que, baixinha, cabe embaixo do braço dela. Percebe que os exemplos são doces e que, polindo cada parte do que tem, poderá ficar velha com dignidade. Na Maria Fumaça, reviveu seu passado, analisou seu presente e decidiu seu futuro. Os medos voaram pra traz da locomotiva, que apitou só quando chegou na estação.

5 comentários:

Luciano Ricardo disse...

oi moça!

Seus textos são simplesmente maravilhosos... sempre me pergunto qual é parte ficção e a parte que é realidade...

Parabéns

bjs

Cybersein disse...

Nossa, fazia algum tempo que eu não passava aqui p/ visitar. Tá produzindo, hein moça! Haja inspiração. Os seus texstos estão mesmo muito bons. Passa lá no meu qqr hora, http://jungleman.weblogger.com.br .Abraço!

Fabio Chiorino disse...

lindo. E vou ler novamente depois em casa ouvindo "Trem das Sete", do Raul, que me parece a trilha perfeita para este post

Thais França disse...

Obrigada mocinhos, vcs são muito gentis...
Sempre passo lá, no jungleman... está no meu itinerário de viagem! deixarei recados.

Thais França disse...
Este comentário foi removido pelo autor.