29.8.07

No elevador

No primeiro dia ela entrou no elevador junto com um casal. Apertou o 5, eles o 15, último andar. Beijos, amassos, braços como pseudópodes amébicos para lá e para cá. Era como se ela não estivesse ali.

No segundo dia ela entrou no elevador junto com um senhorzinho que usava andador. Apertou o 5, ele o 3. O velhinho tossiu, pigarreou e tossiu de novo. As mãos apoiavam o corpo no andador e a boca não pôde ser tampada. Ela o ajudou a sair pela porta e seguiu por mais dois andares em companhia do cheiro de garganta inflamada.

No terceiro dia ela entrou no elevador junto com três molequinhos que estavam antes brincando de pega-pega no estacionamento. Apertou o 5, o primeiro molequinho o 2, o segundo o 3 e o terceiro o 4. Eles ficaram rindo da cara dela ao pararem nos andares e nenhum descer. Chegando no 5º ela desceu e os três continuaram rindo, mas complementaram a sacanagem com os dedinhos médios de todas as seis mãos levantados.

No quarto dia ela entrou no elevador junto com um homem muito nojento. Não, muito, muito nojento. Ele encolheu a barriga, inutilmente, e ocupou quase todo ambiente. Apertou o 5, ele o 7. Ele a mediu de cima para baixo, de baixo para cima, deu um sorrisinho e contou que tinha uma Pajero TR4, apartamento na praia e ia fazer uma viagem para a Alemanha. Piscou e disse “quer conhecer a morada do salsichão comigo?”. O elevador se abriu, ela saiu o mais rápido que pôde.

No quinto dia ela entrou no elevador junto com uma jovem mãe e uma menininha de colo, vestida de cor-de-rosa. “Pode aguardar um pouquinho?”, segundos depois entrou a mãe e a sogra. Apertou o 5, cada uma delas, exceto a bebê, apertou o 10. As duas avós, com luva de pelica, disputavam a atenção da criancinha. Com muito chacoalho, um jato de vômito azedo voou nela. Chegou no 5º. “Não foi nada”, respondeu aos 500 pedidos de desculpas. Direto pro chuveiro.

No sexto dia ela entrou no elevador junto com uma mulher cheia de sacolas de supermercado. Apertou o 5, a mulher o 13. De repente um das sacolas rompeu, a mulher abaixou para salvar o conteúdo, outras sacolas caíram, ela abaixou para ajudar. Várias miudezas rolaram pelo elevador. A porta se abriu no 5, mas ela não conseguiu sair. Foi até o 13 ajudando a mulher. Tudo resolvido, apertou o 5. O elevador subiu.

O casal, no 15º, entrou. Amassos. Pseudópodes. Parou no 13, a mulher entrou: “esqueci uma sacola no carro”, explicou-se. E aí parou novamente no 10, quando entrou a moça, a mãe, a sogra e a criancinha. A porta abriu-se novamente no 7, quando o homem nojento não entrou, pois achou que não cabia. Quando pensava que poderia, então, correr para seu apartamento quando o solavanco e a luz verde marcando o 5 ocupassem o mesmo lugar no espaço, percebeu que não apertara novamente o botão e o elevador havia “esquecido” o chamado.

Solavanco, luz verde no 4. Um dos menininhos marginais. Solavanco, luz verde no 3, velhinho com tosse resolveu esperar, pois o andador jamais entraria ali dentro. Solavanco, luz verde no 2, outro marginalzinho. Solavanco, luz verde no 1, o zelador. Solavanco, luz verde no térreo. Todos descem. Ela fica. Aperto o 5 mais de 5 vezes e reza para ninguém aparecer. Prece atendida.

E foi assim que, cansada, no sétimo dia, viu que tudo aquilo era demais e que a escada poderia ser uma alternativa. Hoje, um ano depois, está com 5kg a menos, as panturrilhas mais firmes, mais bem humorada e não pega gripe desde então.

2 comentários:

Fabio Chiorino disse...

muito bom. Tá aí um texto que eu gostaria de ter publicado no haja Saco aos sábados (quando as mulheres nos enviavam colaborações). Se você quiser retomar a prática, tá convidada.

Thais França disse...

Valeu Fábio, quando surgir um bacana eu mando com exclusividade. Será uma honra!!
Bom final de semana :)