31.3.08

Impressão ruim

Entrei e procurei pela carteira com anotação 24, meu número, segundo o fiscal. Era na fileira do meio, que separava as outras quatro fileiras da sala, duas de cada lado. Logo reparei que na coluna um, linha um, parede da esquerda, havia um cara dormindo, encostado num moletom amarelo. Na mesma coluna, última posição, outro cara com idade para ser pai do primeiro também cochilava. E roncava. Ele tinha cabelos grisalhos e usava uma calça jeans notadamente desbotada, camisa xadrez surrada e sapato com sola bem, bem, bem gasta.

Girei meu pescoço e fiz um reconhecimento mais detalhado da sala. Ali, entre as 51 pessoas dispostas, apenas seis tinham menos de 35 anos – segundo minha avaliação – e quatro das outras, menos de 45. Foi deprimente. Mais ainda foi reparar que dos 51 presentes só eu e mais três pessoas não tínhamos roupas surradas e sapatos meramente funcionais como da “maioria esmagadora”, como muitos usariam a expressão.

Ser jornalista nunca foi fácil, mas é triste perceber como grandes profissionais hoje sofrem. Sofrem pela falta de mercado, sofrem pela falta de oportunidade, sofrem pelas poucas vagas destinadas à função, e desempenhada por gente que muitas vezes nem escrever direito sabe. Pior é que, neste universo inseguro, grandes jornalistas desacostumados com tecnologia se vêem chutados da área e ter no CV uma lista de prêmios de reconhecimento intelectual e anos de experiência em liderança de equipes não vale muita coisa, se não se sabe assinalar qual menu do Photoshop abre determinada gama de opções.

Sou parte dos 405 jornalistas inscritos para concorrer a uma das quatro vagas para o cargo de Editor II na Imprensa Oficial de São Paulo. Ontem fui fazer a prova e, pelo que vi, poucos dos 405 não foram. Os quatro que passarem receberão pouco mais de R$ 3 mil e ouvi muita gente, aquela gente com cabelos brancos na cabeça, comentando com colegas o desejo de conseguir “aquela bocada”, pois “salário assim tá impossível por aí”. Tudo bem que esse valor é inicial e há muitos benefícios, além do fato de todo mundo saber que é fácil encostar-se no serviço público concursado (não sei como alguém consegue achar vantagem nisso), mas, mesmo assim, não dá pra olhar a situação e se sentir confortável.

Confesso que não estudei nada e me senti "A" trouxa que gastou o valor da inscrição e ainda combustível, pedágio e horas da manhã de um precioso domingo à toa. Mas acho que valeu a pena por duas coisas: 1) eu dar mais valor para o que tenho; 2) confirmar que não sou fraca e nem burra, já que fiz sussa a prova sem me preparar.

Vivo reclamando do meu salário e do dinheiro que não sobra, mas estava bem vestida e pude chegar até lá com conforto. Tive vergonha de todos os meus reclames. Eu merecia ser a primeira peça eliminada daquela sala, que mais parecia um tabuleiro de damas, onde uma canibalizaria as outras para não ser comida. Saí com o estômago embrulhado, dor de cabeça e a imagem de uma senhora cafona e descabelada testando umas mil vezes a tinta de uma Bic velha num rascunho, antes de começar a prova. Talvez tenha dado azar e não é nada disso. Talvez não.

7 comentários:

Paulo disse...

Thais
É bíblico, quem atira a primeira pedra ? Você se acha arrasada, mas se olhar para tras, poderá ver inúmeras pessoas em situação muito pior que vc, reze bastante , agradeça a Deus pelo que tem, mas nunca se acomode, busque coisas que melhore sua vida , seu ego e seu bolso !
Seu pai, Paulo

Fabinho disse...

hahahahahahaha, eu prestei o concurso também. Me inclua na lista dos sapatos menos surrados. Não acredito que estávamos na São Judas e não nos encontramos.

renata disse...

Thais

Muito bom valorizar o que se tem e descobrir que sua capacidade técnica está em dia. Melhor ainda se sentir bem vestida.

Desculpe, mas não sei como vc se espantou com os participantes? Jornalista sempre teve fama de desleixado. Aquelas redações cheias de fumaça, com muito papo cabeça... Adoram temas existenciais, nada de conversa comezinha. Bom são os filmes alternativos, nada de arrasa quarteirao! A maioria não liga para o vestir bem, afinal o que importa é o interior. É verdade também que o mercado não está aquecido para esses profissionais, principalmente na capital.

Sei que corro um risco de sério dizendo isso aqui, assim publicamente, afinal este blog é de uma jornalista e lido por outros tantos. Leitores, tenham certeza que eu sei que esse esteriótipo não define muitos de vocês. O Fabinho mesmo, sempre me pareceu um cara muito ajeitadinho, apesar de jornalista! Eu estava certa, porque ele tava de sapatinho bacana!

Temos de analisar o fator idade também. Afinal pessoas com mais de 50 anos vivenciaram a ditadura e os anos 70. O Relaxo provem muito daí também.

A maioria de pessoas que presta concurso público está pensando na estabilidade. Num futuro menos atribulado. Muitas pessoas de 50 já deram adeus às ilusões.

Bem, eu nem sei porque dei esse depoimento tão polêmico. Você sabe que torço por você sempre, qualquer que seja a circustância. Se for da vontade de Deus vc vai passar no concurso e dar uma chinelada nos idosos. Senão, é que ainda não é o seu lugar.

Lembre sempre de nossas conversas.

No mínimo vc entrou na PMSJC para me conhecer, e vice-versa! Mas eu acho que tem mais coisa por trás disso.

Acho que passei um pouco do limite. Deveria deletar tudo... mas, como não sou disso vou dar o enter logo.

Beijos

Fabio Chiorino disse...

Só para esclarecer. O Fabinho acima é o Chiorino e talvez não nos conhecemos, Renata. Em tempo: fui de tênis para fazer a prova. A brincadeira do sapato foi justamente para corroborar a tese da Thais sobre a distância entre as gerações.

Thais França disse...

ahahahahahahahah Fabinho e Renata, renata e Fabinho. Apresentados!

É, posso ter viajado, mas tinha muito nego passando fome ali, sério. Acho que a sala 36 juntou os piores. Analisei o fato do desleixo natural da classe e não me pareceu só isso não.

Fábio, não estava na São Judas, estava na Unicid, Tatuapé.
Numa próxima oportunidade semelhante mando um email perguntando onde vc tá. Quem sabe o tal chopp sai um dia!


Beijos aos dois!

renata disse...

Fabio Chiorino (Fabinho), perdoe-me pela intimidade. Como eu já li alguns de seus textos no Haja Saco e sempre leio seus comentários aqui, me senti à vontade e fui me espalhando com vc... Não me leve a mal.

Thais, da próxima vez terei mais compostura para com os seus amigos.

Paz!

Thais França disse...

ahahha Renata, vc entendeu errado... ele achou que vc pensou que ele fosse outro Fábio! Só isso!

bjos