17.3.08

O que ninguém sabia sobre Monalisa

Vivia se depreciando. Não podia ser bonita e nem feliz. Era feliz e bonita, mas fazia de tudo para boicotar essas duas coisas. Ficava bem de azul, mas comprava só roupas vermelhas ou em tom de verde escuro, que não lhe caiam bem. Quando estava magra, se entupia de comida para obter uma forma pouco atraente.

Algumas vezes, a espontaneidade acabava com seus planos. Quando se dava conta estava sorrindo azul pra todo lado e conquistando amizades. Mas se passava por uma rua e via a alegria estampada no rosto refletida no vidro de uma janela, fechava a cara, puxava a boca para baixo e fazia cair os ombros. Um dia se perguntou o motivo daquela novela que só tinha uma personagem: ela. Qual seria o desfecho daquele drama? Não sabia a resposta e tinha medo de tentar entender.

Em segredo, à noite, depois que a cidade adormecia, entre perfumes e pincéis, ela se preparava para dormir. Sentia-se linda com o delineador bem traçado e o rímel que alongava os cílios. Penteava os cabelos dividindo-os ao meio e vestia seu melhor vestido. A cama vazia exteriorizava um vazio interno profundo e de mau hálito. No dia seguinte, antes de todos, acordava, lavava o rosto e punha-se feia. Até que um dia Leonardo a viu. E seu sorriso tímido, tentando disfarçar o que realmente ela era, entrou para a história.

4 comentários:

Fabio Chiorino disse...

que belo retorno
vc é craque nestes micro contos. Ah, a sua foto ao lado é ótima. Teremos post temático de Páscoa?

Paulo disse...

Thais
Não conhecia este lado da estória, será que o Leonardo quando a pintou sabia ?
Seu pai, Paulo

Artur disse...

Fiquei pensando se mudaria alguma coisa na obra se ela tivesse feito terapia naquela época...

Thais França disse...

Fabinho, Escrevi mentalmente um conto de Páscoa bacana, mas não passei pra cá. Já era, perdi o timing.

Arthur, ahahaha, CERTEZA.

Pai, vc devia montar um blog pra vc estravazar toda sua maluquice! bjão