2.12.12

Conspiração para encarar uma retrospectiva



Fim de ano sempre nos obriga involuntariamente a pensar em nós mesmos. Fazer aquela retrospectiva, mesmo que não queiramos. Nos últimos dias vi uma conspiração se desenrolar para que eu fizesse isso. Estava fugindo, não queria. Mas um dossiê foi arquitetado por alguém, certamente Deus, para eu –por algum motivo não evidente – pensar na minha vida.

Começou com minha amiga Sílvia postando no Facebook um texto dela, de um blog que já não existe mais, onde ela escrevia sobre o ano de 2006, no final dele. Lembrei que tinha um aqui, blog que estava aposentado há algum bom tempo e acabo de retomar, datado do final de 2007 (dá para lê-lo aqui). Busquei, li, achei graça, também postei no Facebook. Depois foi um email. Um email de uma amiga que conheço só há dois anos, uma chinesa, que não fala nossa língua, mas conseguiu me tocar fundo quando comentou alguns detalhes da sua vida que não conhecia e me fez pensar na minha.

A terceira ação desta conspiração que me tirou do comodismo para pensar na minha vida foi o amigo-secreto do pessoal do trabalho. Uma colega está recebendo cartas anônimas com recortes de revista do amigo-secreto dela e todos estão morrendo de inveja. Eu, entre elas, pois adoro surpresas, adoro enigmas, adoro situações inusitadas criadas para a alegria do outro. Enfim, cheguei em minha mesa e havia um envelope pardo, escrito com letras feias “Thais, seu passado te condena. Ass: anônimo”. Abri parecendo criança o envelope e havia só uma foto antiga minha, com um ex-namorado. Não sei a data, mas tinha ali entre 20 e 21 anos a julgar pelo ex e pelo corte do meu cabelo. O que era para ser engraçado me tocou profundamente. Olhei e disse em voz alta: “Ah! Thais! O que se passava na sua cabeça aí, nesta idade?”. Fiquei um pouco reminiscente, saudosa de momentos tão legais da minha vida (aliás, não posso reclamar da minha vida. Sei e adoro viver, felizmente). Ordenei que as memórias não tirassem a concentração da última sexta-feira de novembro no meu dia de trabalho e guardei o envelope. Passou.

Mas não parou aí. Ontem vi no Facebook que um colega de infância, um grande amigo quando tinha entre 9 e 11 anos, faz aniversário hoje. A mente viajou anos no meu passado, mas ia sair, deixei para pensar depois e dar os parabéns via Facebook hoje, o dia certo. Saí, me diverti, engavetei as recordações. No caminho ouvi pela terceira vez nos últimos 10 dias a música “Garotos”, que venhamos e convenhamos, não toca mais em rádios com frequencia, e que também me move a caminhar pela minha vida. Ouvi, cantei, mas não dei atenção às lembranças adolescentes que vieram com ela.

Até que outra ‘perturbação’ me pegou hoje pelos pés. Chegou um gaveteiro que comprei pela internet e resolvi montá-lo. É Fácil de montar, e como diz meu perfil astral (rss) “a libriana é vaidosa, muito feminina, mas pode executar tarefas masculinas sem reclamar, como dirigir um trator ou arar, claro, não sem antes passar batom”. Assim, para a tarefa masculina, prendi o cabelo e liguei meu notebook a fim de por um sonzinho para acompanhar. Com o Windows Media Center, consigo “puxar” todas as músicas da minha pasta, que não são poucas, mas exatamente 1171 (abri e contei).

E o que a conspiração fez? No modo “aleatório” as duas primeiras músicas sorteadas e tocadas na sequência foram Stay, do U2, e Chão de Giz, Grande Encontro. Puxa! Se num talk show eu tivesse que apertar um botão mais rápido que meus concorrentes e responder bem rápido as duas músicas que eu considero como trilha sonora da minha vida eu não titubearia, apertaria o botão e gritaria “Stay e Chão de Giz!” antes mesmo dos concorrentes pensarem.

Foi aí que, ainda mais sendo um domingo, sem desculpas de “tenho algo mais importante a fazer”, resolvi me render à conspiração estranha que está me obrigando a pensar na minha vida. Que fique claro: adoro minha vida. Mas não é fácil parar para encará-la de frente e relembrar decepções, sonhos, momentos bons que deixaram saudades e ruins que doeram. Tem que ser muito mulher e muito homem para fazer isso: analisar o passado, o presente e repensar o futuro. O fim de ano sempre nos aproxima deste momento corajoso de auto-análise. Eu estava fugindo, mas me rendi com toda essa conspiração. Trilha sonora é golpe baixo, né Deus! Jogou sujo comigo... Por que está me obrigando a isso?

Comecei pelo que mais me tocou. Ver minha carinha cheia de alegria e sonhos aos 20, 21 anos. Há mais de dez anos o que se passava pela minha cabeça? Ahhhh eu lembro! E me lembro bem. Estava terminando a faculdade, e, profissionalmente, trabalhava no que amava: vídeo, na tv local da minha cidade. Mas como TV, apesar de paixão, sabia que me consumiria uma vida familiar, que sempre foi minha prioridade, imaginava que em dez anos eu estaria estável na minha área, mas não numa emissora de televisão.

Imaginava que trabalharia numa empresa bacana, sendo líder de uma equipe boa, desempenhando meu papel com competência e reconhecimento. Também achei que meu salário estaria acima da média do mercado, afinal, “sou inteligente, competente, em dez anos estarei arrasando”. Tá, quase ok, quase isso. Não posso dizer que não estou bem profissionalmente, apesar de a realidade não ser bem o que imaginava.

Do ponto de vista familiar, queria que um milagre acontecesse e meu avó, com câncer, melhorasse e voltasse a falar, andar, comer, nos reconhecer, brincar com a gente, rir. Pouco tempo depois chorei muito a morte dele. Hoje, é uma lembrança triste e distante, ruim de lembrar. E eu, na foto, com aquela carinha de menina otimista e feliz não sabia ainda quão dolorido seria perdê-lo. Também queria, ainda sob o ponto de vista familiar, que minha mãe, que estava muito triste na época, retomasse as rédeas da vida dela e fosse feliz. Ufa. Objetivo alcançado alguns anos depois.

Minha irmã fazia faculdade de hotelaria e não conseguia enxergá-la trabalhando nesta área quando formada… isso era uma preocupação de irmã mais velha para mim. Os anos se passaram, ela adaptou o que amava na hotelaria, especilizando-se em gastronomia, e está bem na área. Que bom, preocupações derrotadas.

Com relação a amizades, havia o grupo dos amigos da faculdade, os do colegial e adolescência e os do namorado, que viraram meus também, claro. Era uma turma muito boa e eu, ali, nos meus 20 e 21, tinha certeza que todos seriam pra sempre, assim como o ex. Na minha projeção de futuro naquela época, me via casada com o ex e aqueles amigos indo em nossa casa nos finais de semana fazendo a maior festa. Me via estourando pipoca pros meninos vendo jogo na sala de casa, me via indo no casamento do mais “problemático” com relação a esse assunto. Bem, quanto aos amigos de faculdade ficaram poucos, naquela intensidade de antes. Tenho duas grandes amigas que amo de paixão, mas vejo entre três a quatro vezes por ano apenas, devido a tantas coisas que a gente vive, prioriza ou é obrigado a fazer por conta da rotina.

A relação com os amigos do colegial e adolescência, continua a mesma, deliciosa, também com pouca frequencia de convívio, mas igual ao que era antes. Os amigos daquele ex, ficaram no passado, assim como ele. Ah! E aquele amigo problemático com relação a relacionamento sério foi o primeiro deles a se casar e eu não fui ao casamento.

Muitos outros amigos surgiram neste período da Thais de 20, 21 anos até a Thais de hoje, com recém completados 32. Amigos de outros trabalhos, de outros ex namorados. Se naquele dia que a foto foi tirada eu pudesse visualizar minha vida hoje, certamente me assustaria. Quantas mudanças!

Em essência, não mudei muito. Amadureci o que era aos 20, 21, mas só. Continuo amando surpresas que a vida prepara, acreditando que nada é por acaso, me esforçando para ser uma boa profissional, romântica incurável que crê ‘no amor da nossa vida’ e no melhor das pessoas. Recentemente vivi algo cansativo, mas que foi maravilhoso sob o ponto de vista reminiscente, trabalhei por dois meses com um antigo colega de trabalho e amigo, na área de vídeo. Foi como se eu tivesse voltado no tempo e desfrutado de um trabalho por hobby ao lado de um amigo querido. Foi na verdade o que aconteceu. Agradável surpresa da vida.

Mas voltando à foto. Analiso com carinho: estou mais magra, com os cabelos mais escuros e com o brilho nos olhos típico dos 20 e poucos anos. Um brilho que todos que passaram por esta idade conhecem. O brilho da crença de que tudo irá bem, de que a vida é linda, um parque de diversões. O brilho do amor verdadeiro, com pouca ou nenhuma decepção. Estou na foto, sentada em uma mesinha, em alguma confraternização, de braço dado ao ex, apoiada no ombro direito dele.

Expresso no rosto minha típica cara de “arte”. A julgar por nossas roupas era inverno e além da minha blusa de gola alta, estava com uma jaqueta dele. Vejo a foto e posso sentir a sensação de segurança que eu vivia na minha vida naquela época. Eu era feliz e sabia, assim como sou hoje e sei. Mas a felicidade dos 20 e poucos anos é uma felicidade diferente, sem machucados.

Naquela época eu já fazia algo que infelizmente, continuo fazendo: me boicotando emocionalmente. Mas com poucos tombos eu era muito mais corajosa e menos errante. Que coisa! Há dez anos me saía melhor que hoje, mais madura, em certas situações. Que ruim reconhecer isso. Será este o cerne da conspiração que me fez parar para encarar minha vida?

Stay do U2 me remete a trilha sonora do período que descobri que o amor é essencial e que ser feliz sozinho é menos divertido que com alguém. Stay é uma música triste, mas alegre no meu contexto de descobertas. Stay me lembra que a vida é feita de pessoas de mãos dadas, sejam amores, amigos ou familiares. Chão de Giz marcou a passagem da Thais que vivia sob as asas da mãe para a Thais livre, dona de suas ideias, planos, decisões. As duas músicas me tornam mais fortes e paradoxalmente também mais vulneráveis ao serem tocadas. Encarei, escrevi esse relato e voltarei a montar o gaveteiro.

Para mim escrever é mais fácil que pensar, ou melhor, penso melhor assim. É dolorido relembrar os amores desiludidos, os amigos que hoje estão mais afastados, os sonhos juvenis que não se concretizam como gostaríamos, mas por outro lado é bom demais saber que tudo valeu a pena e que muito ainda está por vir. Venha 2013, venha 2014, venham todos os anos que tiverem que vir. Em 2020 espero retroceder as memórias dos 40 para os 30 anos com a mesma sensação de dever cumprido e com novas histórias cheias de intensidade e sinceridade. Quem sabe, apenas, com menos decepções. Como o brilho nos olhos é típico dos 20, creio que as maiores decepções ficam entre o final deles e início dos 30 e passam. Espero estar certa, dizem que os 30 são os anos das realizações. Enquanto isso ouço Stay e Chão de Giz confirmando que a vida é mesmo uma caixinha de música fantástica e ser a bailarina dançando até a corda terminar é sensacional.

6 comentários:

Anônimo disse...

"garotos não resistem aos seus mistérios, garotos nunca dizem não. Garotos como eu, sempre tão espertos, perto de uma mulher, são só garotos..." as vezes, na vida, somos como super-heróis. Temos que usar máscaras. Quer descobrir quem sou? Investigue.

Thais França disse...

ahhhhh amigo-secreto! Reginaldo Maciel! rsrsrsrssss

Isa disse...

nossa Tha..amei o texto..e tbm me fez pensar na minha vida =) mto lindo e profundo...vc é gênia..saudades..beijos

Mariana Calza disse...

Essa foto, foi tirada em algum dia especial de agosto, meu aniversário. No extinto Fazenda, alguns anos atrás, com pessoas muito queridas. Muitas delas ainda estão na minha vida, como vc! E outras ficaram nas lembranças...

Adorei o texto, passa no meu blog que deu uma semi ressuscitada nele! rsrsrs

Bjsss

Thais França disse...

Obrigada, Isa! Acho que vou exterminar com o outro blog e passar os textos pra cá... lembra aquele do CDzinho? Bj, saudades!


Mari... eu não me lembro! Mas me lembro que vc já se fazia presente e que bom permanece! bj

Ana Claudia disse...

curti curti curti...como sempre...me emocionei com algumas passagens...