7.2.08

A casa da vó


No carnaval eu não corri atrás do trio e nem fiz trenzinho no salão. Não vesti fantasias e nem máscaras. Fui pro meio do mato do jeito que eu sou. Com sapato de verniz.

Claro que mato não é meu lugar e o sapato de verniz teve que ser lavado duas vezes. Atolei na lama e no esterco também. Na primeira, meus dedos sentiram o geladinho da terra úmida quando a lama entrou pela abertura da frente do sapato. Na segunda, por sorte, só dei uma escorregada. Aí, ganhei um tênis velho emprestado e pude adentrar pelo mato alto, que escondia insetos e outros bichos. A dona do tênis até já foi picada por cobra por lá.

Atravessando um pequeno trecho do mato pude ver um vale lindo. Estava no alto de uma montanha, em frente à casa onde morou a avó do meu namorado. Em frente a uma casa que guardava tantas lembranças quanto as teias de aranha que hoje tomam conta dos cantos.

O local está abandonado e ao entrar pela construção antiga e rústica, com tinta branca nas paredes e batentes azuis, não houve como não reparar na escuridão. Tudo vazio, tudo morto, tudo escuro. “Dá até dó. Uma judiação”, alguém comentou. Ao abrir as janelas, a luz entrou e clareou o que um dia foi uma sala de contar histórias, o que um dia deve ter reservado um sofá para aconchego e guardado brinquedos no chão.

A luz entrou, mas não clareou tudo. Clareou só o que se podia ver. Estava ali, mas não clareou o que um dia foi e estava na memória das pessoas que me apresentavam “a casa da vó”. Como a terra que entrou pelo meu sapato e todos puderam ver a sujeira encobrindo o verniz, mas só eu senti a lama úmida entre meus dedos, só eles sentiram a falta de calor daquele lugar que um dia guardou o sol.

4 comentários:

Anônimo disse...

Você sabe como transformar uma simples tarde de domingo, onde algumas lembranças vinham à tona, em poesia...

E com certeza, tem algo de você neste texto!!!!

Simplesmente lindo!

Bjão

LR

Paulo disse...

Thais
A luz, a claridade, é vida , é tudo, por isso trabalho com iluminação, poder levar as pessoas a verem, sair do escuro, entender o que passa ao seu redor .
Seu pai.

Calebe disse...

Ótimo. Ótimo...

Oi. Cuprimentar ocê primeiro. Oi, Thais.

Estive acompanhando sua "crise de palavras" e, agora, vendo essa reação com o novo post, fico contente por você. Gostei bastante do que li.

Para não ser muito puxa saco apenas vou dizer que meio que me senti na cena que você descreveu.

Um beijo, té logo.

Calebe

Fabinho Chiorino disse...

de fato. Nossa alma é uma casa que vai sendo abandonada aos poucos, não?
Beijos, Tha. Senti que as turbinas recomeçam a esquentar por aí rs