26.2.08

Estorietas de pessoas reais*

Ele entrou no lugar de um senhorzinho que se aposentou com o máximo de idade e de anos possíveis trabalhando em um mesmo lugar. Todos estavam acostumados a pedir bem alto o número do andar quando entravam no elevador e não foi fácil acostumar com um substituto tão mais jovem e com a audição tão perfeita. Bastava entrar e falar discretamente “quinto andar” ou “quarto” e ele acionava o botão. Quem mais gostou foram as meninas de 18 a 22 anos, estagiárias ou recém formadas, que ocupavam mesas pouco espaçosas ao longo dos milhares de corredores do prédio. Ele era loiro, de olhos azuis, meio cheinho, do tipo fortinho, e todo malandro. Percebia que fazia sucesso entre as moças que haviam recentemente abandonado a fase teen e distribuía sorrisos cariocas. Sempre ganhava um café, um pão na chapa ou um chocolate quente logo cedo. Assim, economizava o troco diário do café da manhã e comprava balas de qualidade. Recheava os bolsos e usava os docinhos como prévia para colecionar os telefones das fãs. Se deu bem.


Ela vivia de mau humor. Chegava no quartinho, pegava brutamente o equipamento e saía pisando com força, encerando com força, maldizendo cada centímetro de chão com força. A enceradeira fazia um barulho que perturbava e era por isso que preferia limpar os vidros das largas e inteiriças janelas do 11º andar, onde ficava seu cartão de ponto. Todas as outras colegas tinham medo da altura, da janela cujo vidro começava no chão e do vento que soprava forte sempre ali, mesmo no dia mais quente de verão. Ela se divertia com o limpa vidros e gostava de imaginar-se desafiando a morte. Aquele era seu momento de prazer. Quando terminava, fechava a cara novamente e saía resmungando. Não era amiga de ninguém, não sorria para ninguém. Todos a achavam chata, ranzinza e má. Os homens falavam de boca cheia: “deve ser uma mal comida, isso sim”. E era. No final do expediente ia para casa cuidar do marido tetraplégico, do filho drogado e das gêmeas que iam de mal a pior na escola.


Ela adorava segundas-feiras. Preferia a qualquer sábado ou a qualquer domingo. Um dos motivos é que não se sentia bem usando biquíni ao lado das primas magras na chácara da avó, onde passavam o fim de semana religiosamente, o outro era João. O menino, dois anos mais velho, era repetente e o mais popular da sétima série. Quando não estava na diretoria, estava na quadra da escola jogando basquete. Eles não tinham muito contato, mas quando a professora avisava sobre provas de matemática... Ah! Maravilha! Era certo que João a procuraria. E as provas eram sempre às segundas. No dia-a-dia ele a cumprimentava e não colocava bilhetes nas costas, como fazia com outras meninas, o que para ela era um tratamento especial. Quando passava e escutava os meninos rindo e dizendo “olha lá a gordinha!”, ela fingia não ouvir, mas de canto de olhos reparava se ele estaria por lá. Nunca estava; ele não ria dela. Um dia o ano acabou. As férias viraram um fim de semana infinito e as segundas-feiras não chegavam nunca. Quando voltou às aulas, João não estava lá. Mudara de escola e de cidade sem se despedir. Ficou triste, sentiu-se traída. Emagreceu e virou uma revoltada patricinha que agora entrava no colegial.






* Este formato eu “roubei” do Fábio Chiorino, que escreve no Haja Saco às terças-feiras. Conheça-o e os outros colegas também. São muito bons.

7 comentários:

Fabio Chiorino disse...

caramba, que horna máxima. Roube quantos formatos quiser. Com este conteúdo (deliciosas suas estorietas - com "e" fica melhor que com "h"), a patente é toda sua. Beijos, Tha

Bru disse...

ahhh!
Mto bem roubado! rs

Adorei!
bjs

Artur disse...

Em 2003 eu fiz 1 curso de desenho de observação no MAM. Aprendi a desenhar natureza morta, paisagens e nus. Aí, como exercício, eu saía num shopping, ou num café, e desenhava alguém, o mais rápido que desse, o mais completo possível. Foi aí que comecei a me interessar em recriar a vida dessas pessoas. E hoje nem desenho mais, só faço recriar essas "estorietas", como disse o Fabinho. Beijão!

Thais França disse...

Que massa, Artur! Um exercício muito legal... gostaria de ter feito este curso, mas gostaria mesmo era de saber desenhar! Quero ver desenhos seus. Posta no FB?

Fabinho, vou roubar sempre, mas não conseguirei nunca batizar as personagens com a sua criatividade :)

Bru... valeu! Agora ele deu licença, é só plágio permitido.

Artur disse...

Valeu pelos comentários lá. Os meus desenhos não são dignos de elogios, rs. Mas o seu comentáriuo sobre sobre o chão me derrubou da cadeira... Valeu MESMO!

Thais França disse...

Artur... quando ouvi essa frase também curti demais. Fez-me pensar em zilhões de coisas! Vejo que somos filósofos, rssss. Abs!

Anônimo disse...

E por falar em morte...existem duas, a física(corpo) e a interior (alma)=feridas!!!
O dificil é quando encontramos pessoas pelas veredas da vida que nos machucam e causam sofrimento a ponto de nos matar por dentro.Essa *morte é de lascar..lateja...arde. Por isso devemos tomar cuidados extras com demonstrações de paixão exacerbada mascaradas de Don Juanismos...........!!!!

Ps...Don Juanismo existe viu!!!!!
A psicologia explica.