Má companhiaAbordagem muda, calada, criada
De joelhos como que em oração
Aparece cinza e estranho.
Agarrando os joelhos,
cobre-se com cobertas e fibras musculares rígidas
Suor, pânico
Olhos não fecham, piscam.
Coração não bate, martela.
Garganta fecha, oração não se eleva.
Noites em claro
Velhos pesadelos.
Engano Viu o mar perfeito pelo vão das pernas da mãe
Viu o sol perfeito pelo negativo de um filme fotográfico
Viu a lua e as estrelas perfeitas todas a céu aberto de uma varanda
Viu as flores perfeitas no canteiro da avó
Viu sorrisos perfeitos ao longo dos anos
Viu a cena perfeita na avenida perfeita da cidade perfeita com a pessoa perfeita
Achou que tinha visto todas as perfeições
Acreditou
Mas era tudo imperfeito.
FomeArroz, feijão, batata frita, bife à milanesa ou parmegiana
Filé mignon, molho fungui, salada de palmito
Lasanha, espaguete, milho verde na espiga
Frango ao suco de laranja, salmão ao maracujá, pintado na brasa
Panquecas, crepes, sorvetes, bombons, amanditas,
Guarda-chuvinhas de chocolate, lápis, moedinhas
Não. Torta salgada, pastel de feira, kibe assado, esfirras!
Miojo, hummm, que delícia.
Sexta-feiraAbre, senta, cinta, liga, sai, segue, pista,
Pedágio, pista, pista, pista, pista, pista, pista
Pedágio, pista, pista, pista, pista, pista, pista
Pista, pista, pista, pista, pista, pista, pista, pista,
Pista, pist-a, pis, t-a, pi-s-t-a, p-i-s-t-a...
Lar, doce, lar.
Ça va?!
Final felizCansada de ficar sozinha
Lembrou do conselho da vizinha:
Melhor se enforcar num pé de couve.
Roça adentro buscava um pé que lhe agüentasse
Estava fraca, fácil achar um que a segurasse.
Perdida no mato, sem avistar sequer uma casinha
Lembrou do conselho da vizinha:
No desespero louve.
Rezou e ao longe viu um moço de chapéu
Estava fraca, difícil pedir outra ajuda que não a do céu.
Mas ele a viu e a socorreu.
As pupilas dilataram
e as mãos nas delas ele correu.
Ela não sabia, mas ele era surdo.
Pronto, trocou o pé de couve por um anjo que não ouve!