
Anuviada, essa é uma boa palavra para ela. Tem dificuldades em se concentrar, pois tudo tem seu devido interesse e valor, aí fica difícil não dar atenção a tudo. Fala bastante, pensa bastante, se emociona a cada novo detalhe que lhe passa à frente. Se não precisasse trabalhar, certamente seria uma dondoca loira e maquiada, que passaria horas e horas fazendo o bem com ações de serviço voluntário em prol dos animais gente e dos bichos. Sairia em revistas de fofoca como a dondoca mais loira e louca já encontrada. O Fantástico faria uma reportagem sobre ela, Caras a convidaria para um fim de semana no castelo.
Morena, alta, olhos marcados. “As mulheres da minha família têm essas rugas bem marcadas”, diz. O detalhe é fato, mas não é por isso que ela fica menos bonita. Tem personalidade forte, alguns acham que até uma certa grosseria involuntária, mas a risada sincera quebra a primeira impressão quando desencadeia outros muitos risos. Não coloca florzinhas ao redor da vida. Tem pé no chão e não derrete em qualquer chuvinha. É mulher com m maiúsculo, ops, Mulher.
Não sabe se é a coloração loira ou é ruiva que lhe cai melhor. Fica bem com ambas. Já foi taxada de reprimida, bandida, boazinha, mázinha, boba, espertinha. De fato, ninguém a conhece bem, é misteriosa e do tipo ‘come quieto’. Chora pensando nas criancinhas que podem pegar gripe e nos animais que têm de se esconder da chuva por não terem um teto. Ri e torce pros espertões tropeçarem e se igualarem aos pequenos. Teve um grande amor e não disse a ele, espera por um novo, enquanto sai, bebe, corre, dorme, trabalha, cansa e começa de novo.
Séria, disciplinada, compromissada e bom coração. Todos os dias chega no trabalho com os cabelos molhados e dá bom dia com a vivacidade de quem lavou também a alma além do corpo. Não é de muitas palavras no dia-a-dia, mas tem sempre palavras certas quando precisa. Às vezes doces, outras duras, algumas frias, outras calorosas. Seus mistérios não representam perigo e sabe fazer com que as pessoas percebam isso. Mantém o queixo erguido e a coluna ereta enquanto digita seu trabalho em frente ao monitor.
Só sabe que consegue ser feliz mesmo nos dias tristes. Não é difícil perceber quando acorda com mais brilho e vontade de terminar o dia com chave de ouro, nesses dias está com os cabelos arrumados e um acessório chamativo. Gosta de reconhecer o valor das pessoas, gosta de se dar bem com o mundo, gosta de olhar o mundo por uma janela mais colorida. Talvez por querer a reciprocidade, talvez por vislumbrar isso como sua meta de felicidade. Tolera alguns desaforos, mas nunca a injustiça e não tem personagens para cada situação. É uma só, com suas rugas firmes na testa.
Trabalharam das 8h às 21h e foram para um bar. Todas beberam cerveja, todas comeram peixe com molho Rochefort, todas riram e todas correram quando uma briga movimentou o ambiente. Todas foram e voltaram juntas e todas dividiram confidências pessoais. Todas reclamaram como mulherzinhas, ou pelos quilos a mais, ou pelas rugas, ou pelas desilusões, ou pelo frio que fazia, ou pela hipocrisia. Todas estão ali e é por isso que, com todas as diferenças de cada uma, elas são elas em harmonia.