22.7.09

Pessoas anônimas


Acorda cedo, o sol ainda nem despertou e só o galo do quintal do vizinho de trás da sua casa canta meio desmilingüido. Um galo desmilingüido morando na periferia da cidade que levanta poeira asfáltica 24h por dia. Toma banho, faz a barba debaixo do chuveiro, se enxuga com a toalha felpuda azul marinho, coloca o jeans surrado, o jaleco com o emblema “da firma” e calça as botas de segurança. Abraça a esposa que acabara de passar o café, toma um pingado, acaba com um pão na chapa em quatro mordidas e corre para o ponto de ônibus. Sentado próximo aos assentos reservados para idosos e gestantes, repara em um senhor bastante enrugado, com mãos grosseiras e unhas escuras. Imagina se foi ou ainda era um mecânico ou quem sabe um engraxate, talvez um funcionários do departamento de obras da prefeitura. O ônibus pára no ponto de decida. Mais um dia de trabalho. Das 7h às 17h ele é mais um.


Toda quinta-feira ela acorda mais cedo para chegar antes e encontrar os produtos mais bonitos nas bancas. Toma café preto com bolacha maizena e corre pra feira. Deixa um espaço para o pastel de carne, delicioso e quentinho, que combinava tanto com turbaína, mas o médico proibiu por causa da diabetes. Anda ligeira na rua ainda de paralelepípedos, esquecendo até do reumatismo que vem chegando. Quinta-feira é um dia feliz. Em meio ao colorido da feira ela esquece da sua vida cinza desbotado. Em meio aos gritos dos feirantes ela esquece do silêncio amedrontador da sua casa. Encontra uma ou outra amiga dos tempos antigos de escola, todas com batons avermelhados e lenços estampados no pescoço ou na cabeça. Ela se diverte com isso! Sempre foi discreta e por isso ostenta um casaquinho preto ou marrom castor às quintas-feiras, sempre com um broche enfeitando. Acaba saindo apenas na hora da chepa. A quinta-feira acaba com restos de cores e cheiros misturados de frutas, legumes e verduras que não foram escolhidos. É uma cena triste, mas fica confortada. Todos as quintas-feiras vê o brilho e o fim da festa e não se sente tão diferente. “É o curso das coisas”, pensa no caminho de volta para casa, caminho lento, com o carrinho cheio de companhia até a próxima quinta.


Tudo é muito alto para elas, nada podem alcançar. Correm, sobem no sofá, tentam fazer o mesmo na cadeira da cozinha, mas é difícil! A mãe lava roupa e fala ao telefone enquanto brincam na sala. Ainda não podem acender a luz sozinhas, o interruptor é alto demais. Ainda não podem olhar pela janela e ver o que faz tanto barulho lá fora, a janela é alta demais. Ainda não podem atender à porta quando alguém toca a campainha, a maçaneta é alta demais e é necessária força para girá-la. Agarram ursos de pelúcia, vêem TV, montam castelinhos com peças de madeira, tiram os sapatos para a mãe ter que colocá-los novamente. Brigam, puxam os cabelos uma da outra, brincam de boneca, rabiscam folhas de rascunho com lápis de cor. Almoçam quase sozinhas, "parecem duas mocinhas!", a mãe elogia, segurando ainda colheres tortas. À tarde, quando ela vai trabalhar, recebem beijos e carinhos até que a avó chega para contar estórias e fazê-las dormir. A abraçam, disputam o colo. Mas tudo ainda é alto demais, alto demais para saberem o que virá pela frente.

14 comentários:

Delcio disse...

A feira daqui é de 3ª.
Não é por nada, mas é feira de verdade rsrsrs com hortifrutti, peixes e apenas 2 barracas de pastel rsrsrs
A daí a última vez q fui ... pelamor ... só barraca de roupa... pior q 25 de março no natal.... tá... foi um exagero rsrsrs

Mari Calza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mari Calza disse...

Adorei Thaís... lindo texto!!! ou textos rsrsrs

E Júnior, não queira comparar a feira do Itaim, onde eu morei por mais de um ano, com a feira de Itatibinha. A feira daqui é mto boa sim, tá???? colorida e cheia de pessoinhas felizes comendo pastel com turbaína. rsrs E não cheia de peruas ou empregadas de peruas. rsrsrs

me deu vontade de ser criança de novo... tem um lado bom as coisas serem altas demais. Quando a gente alcança tudo, ironicamente, as coisas começam a ficar difíceis.

Bjossss

Delcio disse...

Não to falando das pessoas, mas da feira mesmo. Aí a feira não tem cara de feira como era antes na Campos Salles, por ex.

Delcio disse...

Aliás ... como conversamos, até o Mercadão está perdendo a "cara".

Creio q este não era o assunto do post rsrsrs mas deu saudade da antiga feira daí.

Thais França disse...

Só pra vcs saberem:
- esta feira não é em Itatiba;
- esta feira nem mesmo existe, na real.

Ê casal!
rss


Sim... quando a gente passa a alcançar as coisas, outras surgem inatingíveis!

bjos

Delcio disse...

Hahaha poxa ... adoro feira !!!

Mari Calza disse...

hahahaha... a gente adora uma discussão.

Mari Calza disse...

O bom é que cada um pode imaginar a feira que quiser lendo o seu texto... bom sinal né???? rsrsrs

Anônimo disse...

Bacana paca Thaís!!
Deu saudade da minha vó e da charrete-feira do seu Barbosa nos tempos CTA
Bj
Cláudio Maia

Thais França disse...

Cláudio, conta mais sobre essa charrete-feira...
Thais

Anônimo disse...

Sua melhor definição seria: Inovador - a gênese do comércio eletrônico.
Era um supermercado móvel puxado por cavalos – Tango e o Samba (esse totalmente vesgo e babão). À parte “puxada” parecia com as gôndolas de hoje e tinha até um refrigerador alimentado por baterias. O seu Barbosa percorria os “Hs” do CTA em dias alternados, com alto-falante tocando especialmente Ravel e vendia de tudo. A compra era anotada na caderneta que o próprio comprador, honestamente, a guardava. Seu texto me fez lembrar das broncas que levava da minha vó pelos quebra-queixos e balas de coco que eu anotava sem controle – Que saudades!!!!!!!!!
Bj Thaís
Cláudio Maia

Seems to be Isy disse...

nossa...visualizei total cada detalhe, cada palavra e cada fruta na feira

muito sensorial e sensível..
quase chorei pensando no velhinho de mãos surradas
to meio sensível hj...será TPM?

bjoos

Thais França disse...

Cláudio, queria ter conhecido o seu Barbosa e feito um documentário sobre ele...

Isa, sim, TPM acaba com nosso equilíbrio (aquele que a gente nem tem, rs)

Júnior... ainda nem consegui folhear a Trip! Obrigada, devolvo semana que vem ;)