- Olá, preciso fotografar os quadros que estão no auditório do térreo, onde está a chave?
- A sala está reformando, os quadros estão embalados um a um e colocados em ordem, não posso liberá-los. Vai que você embaralhe a ordem. E além do mais é um trabalhão embalar com o jornal novamente. Você entende, senhora?
- Faremos o seguinte, você acompanha o processo para eu não correr o risco de bagunçar seu trabalho e eu não toco em nenhum quadro. Mas preciso fotografá-los. É para um projeto do prefeito e o fotógrafo está aqui; descemos em 15 minutos.
Assim que eu e o fotógrafo chegamos ao subsolo e fomos até o local combinado, um corredor mal cuidado que dá acesso à garagem e é usado por poucas pessoas, em geral funcionários de manutenção e limpeza, percebi que as três pessoas que nos esperavam sentiam-se importantes. Logo entendi: os egos inflados orgulhavam-se por estarem atendendo a uma necessidade do prefeito, autoridade máxima da cidade, mas mais importante, autoridade máxima na hierarquia respeita por eles, que estavam na base.
“Puxa, se você tivesse pedido antes a gente já preparava tudo, tirava os jornais, deixaria aqui em ordem. Dá um trabalho fazer isso!”, disse o responsável pelo almoxarifado, valorizando o serviço. Logo, uma mulher simples com crachá indicando fazer parte da equipe, e um senhor corcunda e aparentemente fraco e cansado, com a mesma insígnia no peito, começaram a trazer os pacotes. Quis ajudar, eles não deixaram. Era serviço deles. O superior ordenou que não tirassem da ordem e fossem desembalando com cuidado para que o durex não se perdesse, e pudessem ser novamente embrulhados e guardados. Era assim que ficariam até que o auditório em reforma estivesse pronto. Só então poderiam voltar a ocupar seus distintos lugares na parede, onde marcavam a trajetória de toda uma cidade.
Era quase 11h da manhã quando isso acontecia. Enquanto o fotógrafo fazia as imagens com cada quadro deitado no chão, naquele corredor acimentado, frio e visivelmente sujo, a equipe da limpeza começou a chegar para bater o cartão de ponto. Era hora do almoço deles. Ao verem o corredor abandonado, agora repleto de muito jornal amassado e os 32 grandes quadros no chão, percebi que os olhos de todos brilhavam. Algo novo acontecia ali.
Um começou a contar que conhecia tal passagem histórica relacionada àquele quadro, outro se gabava por conhecer algo mais antigo. Um deles, um dos mais antigos de casa, apontava que se parecia com uma das personalidades ali emolduradas. Outros só riam da cena. O fotógrafo, para eles, era uma personagem envolta em mistérios. O que fazia fotografando fotos? Para quê serviriam? O que ele faria com elas? Por que a atividade estava sendo feita ali, naquele corredor esquecido, longe dos mármores e revestimentos de boa qualidade que os outros todos andares do prédio ostentavam? Não demorou muito, a curiosidade foi rompida: “Pessoal, podem passar por aí com cuidado. O moço está fazendo um serviço pro prefeito!”.
Pronto! Todos queriam ajudar e logo foram colocando a mão na massa. Os que sobraram fingiam desprezo e saiam indignados com os outros, que ao invés de almoçar, estavam ali, embalando quadros em jornal velho. Pura inveja. Engoliam seco a vontade de carregar até o almoxarifado pelo menos um daqueles objetos. Os que conseguiram uma peça para embrulhar sorriam e comentavam bobeiras sobre a prefeitura, a cidade, a história, o amor pela terra, pela região. Naquele momento, o corredor esquecido, com pessoas esquecidas em suas profissões e quereres, experimentava um pouco de glória.
Espaço reaberto pós longo período aposentado. Este é um lugar onde paro para pensar o que vem à mente, sem arredondar. Já foi uma gaveta; já foi um tupperware, daqueles que a gente fecha bem as idéias e põe na geladeira, guardando o que queremos preparar mais para frente. É relevante, tem motivo de estar, mas não está pronto. Superficial. Superfácil, Só prefácio. Superfacial, está na cara, mas só ali (aqui). As vezes, até consigo enxergar a lua pela fresta do telhado.
25.4.08
23.4.08
presente de aniversário

Queria poder te comprar todas as motos velozes do universo.
Queria encomendar no mercado negro a melhor guitarra e que ela viesse com um chip de aprendizado, como naquele filme.
Queria também que o note mais poderoso do mundo custasse R$ 1,99, para eu poder te comprar uns 10 de uma vez.
Queria que todo dia a gente pulasse juntos daqueles 53m de altura, pra que você gritasse o que você gritou bem alto, sempre, cada dia desafiando mais a sua garganta.
Queria muito encontrar uma lâmpada mágica e, quando esfregasse, surgisse um gênio. Eu ia pedir que nós fôssemos para uma ilha deserta pelo menos uma vez por mês, que ele conseguisse carros maravilhosos para passearmos com os cabelos ao vento e que me desse controle para eu nunca mais te fazer chorar.
Não sei o que comprar com o pouco dinheiro que eu tenho. Um disco do Legião ou dos Beatles não seria suficiente. Do Metalica seria muito anos 80, do ACDC, pelamor, não gosto.
Que nem criança fazendo desenho com lápis de cor ou dando uma foto pra mãe como se fosse o máximo, vou embalar um sorriso e te dar de presente. E ele vai se repetir todo dia, cada vez que você olhar para ele. Um dia será um sorriso tímido, outro, um sorriso bobo, outro, um sorriso aberto, outro, um sorriso malandro, outro, um sorriso sedutor, outro, um sorriso triste, para você puxar e deixá-lo feliz, à sua moda. Espero que você goste. É de todo meu coração.
carta de amor
Meu amor, eu amo você. Você estava lindo hoje. Meu coração pulou quando te vi de azul. Me desculpa não fazer o trabalho com você hoje, precisei mudar de grupo porque a chata daquela menina falou pra todo mundo que eu estava namorando com você e eu não queria que soubessem. Viu, não fica chateado. Mas também não manda bilhetinho na sala, porque eles vão descobrir que é verdade (estou mandando esse porque sou discreta). No recreio a gente se encontra na frente da 6ª A, porque ninguém fica lá nessa hora, porque fica longe da cantina.
Queria te falar mais uma coisa... Adorei quando você estava indo embora e desenhou um coração no ar! A sua mãe estava perto e não viu, foi superlegal, ninguém viu, só eu. Eu tenho certeza que a gente vai ser muito feliz e que aquela chata não vai atrapalhar dizendo pra todo mundo que sou eu quem escrevo as redações para você e é você quem faz minha lição de matemática. Eu amo você.
Viu, mais uma outra coisa. E essa é séria. Ainda não estou preparada para dar beijo de língua. Você pode esperar até o mês que vem? Aí te dou uma resposta de quando acho que farei isso. Vou procurar no Google se não é anti-higiênico. Eu sei que todo mundo faz isso, mas seilá.
Mil beijos, te amo, te quero e te desejo mais que tudo! Quero casar com você daqui 10 anos mais ou menos.
Assinado, sua namorada secreta da sua sala, 5 ª B.
Queria te falar mais uma coisa... Adorei quando você estava indo embora e desenhou um coração no ar! A sua mãe estava perto e não viu, foi superlegal, ninguém viu, só eu. Eu tenho certeza que a gente vai ser muito feliz e que aquela chata não vai atrapalhar dizendo pra todo mundo que sou eu quem escrevo as redações para você e é você quem faz minha lição de matemática. Eu amo você.
Viu, mais uma outra coisa. E essa é séria. Ainda não estou preparada para dar beijo de língua. Você pode esperar até o mês que vem? Aí te dou uma resposta de quando acho que farei isso. Vou procurar no Google se não é anti-higiênico. Eu sei que todo mundo faz isso, mas seilá.
Mil beijos, te amo, te quero e te desejo mais que tudo! Quero casar com você daqui 10 anos mais ou menos.
Assinado, sua namorada secreta da sua sala, 5 ª B.
18.4.08
só se fala nisso
A mãe chorou na missa, tá salva. O pai é homem, tudo bem não chorar.
“Mostra, câmera! Ela não chora, a madrasta não chora!”
Cara, pelo jeito ela vai ser presa, está em estado de choque, só esperando a sentença, com um fio de esperança de o caso se reverter.
Lógico que ela não chora!
Ô povo latino de sangue quente!
Ô urubuzaiada!
Ô sensacionalismo pobre...
Ô sexta-feira que não acaba!
“Mostra, câmera! Ela não chora, a madrasta não chora!”
Cara, pelo jeito ela vai ser presa, está em estado de choque, só esperando a sentença, com um fio de esperança de o caso se reverter.
Lógico que ela não chora!
Ô povo latino de sangue quente!
Ô urubuzaiada!
Ô sensacionalismo pobre...
Ô sexta-feira que não acaba!
1.4.08

Odeio brigadeiro, odeio os chocolates todos.
Adoro legumes e dieta, assim como azeitonas e comida chinesa, mesmo que essas coisas não tenham muito a ver com as primeiras.
Adoro axé e Paulo Coelho.
Detesto comprar roupas e viajar, me cansam!
Adoro ficar sozinha nos finais de semana.
Tá, só pra não esquecer da brincadeira do 1o de abril. Quando era criança, era uma delícia essa baboseira :)
31.3.08
Base para um filme trash dramático com uma protagonista burra
Pegou uma pá e começou a desenterrar. O calor estava imbatível e o suor logo começou a escorrer pela testa e pingava na terra pela ponta do nariz. Os pés descalços pisavam naquela terra como se não houvesse nada ali, mas sabiam que havia algo sim, e os dedos se comprimiam o máximo que podiam para que não tivessem contato total com aquele resto de algo vivo, já bem morto, ali.
O medo tomou conta e um calafrio percorreu todo o corpo de pouco mais de um metro e meio de altura e peso médio. Sabia que não era certo desenterrar o que não lhe pertencia. Sabia que não era certo desencavar aquilo. Em conseqüência, poderia ser rasgada por inteira. Mas persistia e a terra não parava de sair pela pá, e parecia que não tinha fim, e não parava de tentar encobrir o que tentava achar.
O sol se pôs e ela continuava ali, já ajoelhada, cansada, com vestido sujo e pés aconchegados num monte de terra já retirada do buraco. A luz da lua iluminou algo bem no fundo e com a pá sentiu algo rígido. Os braços não alcançavam o fundo e, desesperada, começou a cavar o entorno. Cavou por mais algumas horas e conseguiu ter contato com parte do caixão.
Suada e trêmula, abriu a parte do caixão que podia. Assim que o fez se arrependeu. Todas as ex-namoradas dele saíram gritando e rindo de forma cínica e malévola de lá e começaram a enforcá-la, a xingá-la e a caçoar dela. Umas lhe espirravam perfumes, outras a envolviam com laços de presentes, outras mais impiedosas cantava músicas e recitavam trechos de filmes especiais. De repente, o céu se transformou em uma enorme tela e todas as ex-namoradas dele projetavam os melhores momentos juntos entre as estrelas.
Enlouquecida e rasgada, não só nas vestes, mas na pele e no coração, deixou-se levar pelas rejeitadas. Juntou-se a elas. Deitou-se no buraco e se cobriu com a terra que ela mesma havia retirado do lugar. Esqueceu o tempo e misturou erroneamente o presente e o passado. Boicotou o futuro e morreu.
O medo tomou conta e um calafrio percorreu todo o corpo de pouco mais de um metro e meio de altura e peso médio. Sabia que não era certo desenterrar o que não lhe pertencia. Sabia que não era certo desencavar aquilo. Em conseqüência, poderia ser rasgada por inteira. Mas persistia e a terra não parava de sair pela pá, e parecia que não tinha fim, e não parava de tentar encobrir o que tentava achar.
O sol se pôs e ela continuava ali, já ajoelhada, cansada, com vestido sujo e pés aconchegados num monte de terra já retirada do buraco. A luz da lua iluminou algo bem no fundo e com a pá sentiu algo rígido. Os braços não alcançavam o fundo e, desesperada, começou a cavar o entorno. Cavou por mais algumas horas e conseguiu ter contato com parte do caixão.
Suada e trêmula, abriu a parte do caixão que podia. Assim que o fez se arrependeu. Todas as ex-namoradas dele saíram gritando e rindo de forma cínica e malévola de lá e começaram a enforcá-la, a xingá-la e a caçoar dela. Umas lhe espirravam perfumes, outras a envolviam com laços de presentes, outras mais impiedosas cantava músicas e recitavam trechos de filmes especiais. De repente, o céu se transformou em uma enorme tela e todas as ex-namoradas dele projetavam os melhores momentos juntos entre as estrelas.
Enlouquecida e rasgada, não só nas vestes, mas na pele e no coração, deixou-se levar pelas rejeitadas. Juntou-se a elas. Deitou-se no buraco e se cobriu com a terra que ela mesma havia retirado do lugar. Esqueceu o tempo e misturou erroneamente o presente e o passado. Boicotou o futuro e morreu.
Impressão ruim
Entrei e procurei pela carteira com anotação 24, meu número, segundo o fiscal. Era na fileira do meio, que separava as outras quatro fileiras da sala, duas de cada lado. Logo reparei que na coluna um, linha um, parede da esquerda, havia um cara dormindo, encostado num moletom amarelo. Na mesma coluna, última posição, outro cara com idade para ser pai do primeiro também cochilava. E roncava. Ele tinha cabelos grisalhos e usava uma calça jeans notadamente desbotada, camisa xadrez surrada e sapato com sola bem, bem, bem gasta.
Girei meu pescoço e fiz um reconhecimento mais detalhado da sala. Ali, entre as 51 pessoas dispostas, apenas seis tinham menos de 35 anos – segundo minha avaliação – e quatro das outras, menos de 45. Foi deprimente. Mais ainda foi reparar que dos 51 presentes só eu e mais três pessoas não tínhamos roupas surradas e sapatos meramente funcionais como da “maioria esmagadora”, como muitos usariam a expressão.
Ser jornalista nunca foi fácil, mas é triste perceber como grandes profissionais hoje sofrem. Sofrem pela falta de mercado, sofrem pela falta de oportunidade, sofrem pelas poucas vagas destinadas à função, e desempenhada por gente que muitas vezes nem escrever direito sabe. Pior é que, neste universo inseguro, grandes jornalistas desacostumados com tecnologia se vêem chutados da área e ter no CV uma lista de prêmios de reconhecimento intelectual e anos de experiência em liderança de equipes não vale muita coisa, se não se sabe assinalar qual menu do Photoshop abre determinada gama de opções.
Sou parte dos 405 jornalistas inscritos para concorrer a uma das quatro vagas para o cargo de Editor II na Imprensa Oficial de São Paulo. Ontem fui fazer a prova e, pelo que vi, poucos dos 405 não foram. Os quatro que passarem receberão pouco mais de R$ 3 mil e ouvi muita gente, aquela gente com cabelos brancos na cabeça, comentando com colegas o desejo de conseguir “aquela bocada”, pois “salário assim tá impossível por aí”. Tudo bem que esse valor é inicial e há muitos benefícios, além do fato de todo mundo saber que é fácil encostar-se no serviço público concursado (não sei como alguém consegue achar vantagem nisso), mas, mesmo assim, não dá pra olhar a situação e se sentir confortável.
Confesso que não estudei nada e me senti "A" trouxa que gastou o valor da inscrição e ainda combustível, pedágio e horas da manhã de um precioso domingo à toa. Mas acho que valeu a pena por duas coisas: 1) eu dar mais valor para o que tenho; 2) confirmar que não sou fraca e nem burra, já que fiz sussa a prova sem me preparar.
Vivo reclamando do meu salário e do dinheiro que não sobra, mas estava bem vestida e pude chegar até lá com conforto. Tive vergonha de todos os meus reclames. Eu merecia ser a primeira peça eliminada daquela sala, que mais parecia um tabuleiro de damas, onde uma canibalizaria as outras para não ser comida. Saí com o estômago embrulhado, dor de cabeça e a imagem de uma senhora cafona e descabelada testando umas mil vezes a tinta de uma Bic velha num rascunho, antes de começar a prova. Talvez tenha dado azar e não é nada disso. Talvez não.
Girei meu pescoço e fiz um reconhecimento mais detalhado da sala. Ali, entre as 51 pessoas dispostas, apenas seis tinham menos de 35 anos – segundo minha avaliação – e quatro das outras, menos de 45. Foi deprimente. Mais ainda foi reparar que dos 51 presentes só eu e mais três pessoas não tínhamos roupas surradas e sapatos meramente funcionais como da “maioria esmagadora”, como muitos usariam a expressão.
Ser jornalista nunca foi fácil, mas é triste perceber como grandes profissionais hoje sofrem. Sofrem pela falta de mercado, sofrem pela falta de oportunidade, sofrem pelas poucas vagas destinadas à função, e desempenhada por gente que muitas vezes nem escrever direito sabe. Pior é que, neste universo inseguro, grandes jornalistas desacostumados com tecnologia se vêem chutados da área e ter no CV uma lista de prêmios de reconhecimento intelectual e anos de experiência em liderança de equipes não vale muita coisa, se não se sabe assinalar qual menu do Photoshop abre determinada gama de opções.
Sou parte dos 405 jornalistas inscritos para concorrer a uma das quatro vagas para o cargo de Editor II na Imprensa Oficial de São Paulo. Ontem fui fazer a prova e, pelo que vi, poucos dos 405 não foram. Os quatro que passarem receberão pouco mais de R$ 3 mil e ouvi muita gente, aquela gente com cabelos brancos na cabeça, comentando com colegas o desejo de conseguir “aquela bocada”, pois “salário assim tá impossível por aí”. Tudo bem que esse valor é inicial e há muitos benefícios, além do fato de todo mundo saber que é fácil encostar-se no serviço público concursado (não sei como alguém consegue achar vantagem nisso), mas, mesmo assim, não dá pra olhar a situação e se sentir confortável.
Confesso que não estudei nada e me senti "A" trouxa que gastou o valor da inscrição e ainda combustível, pedágio e horas da manhã de um precioso domingo à toa. Mas acho que valeu a pena por duas coisas: 1) eu dar mais valor para o que tenho; 2) confirmar que não sou fraca e nem burra, já que fiz sussa a prova sem me preparar.
Vivo reclamando do meu salário e do dinheiro que não sobra, mas estava bem vestida e pude chegar até lá com conforto. Tive vergonha de todos os meus reclames. Eu merecia ser a primeira peça eliminada daquela sala, que mais parecia um tabuleiro de damas, onde uma canibalizaria as outras para não ser comida. Saí com o estômago embrulhado, dor de cabeça e a imagem de uma senhora cafona e descabelada testando umas mil vezes a tinta de uma Bic velha num rascunho, antes de começar a prova. Talvez tenha dado azar e não é nada disso. Talvez não.
17.3.08
cotidiano raro
Estava subindo a rua e acompanhei uma despretensiosa cena romântica. Ouvi alguém comentando que ela é três anos mais velha que ele, mas não parece. De mãos dadas, eles atravessaram a rua e seguiram em frente bem devagar. Sorriam e cochichavam toda hora. Pareciam recém namorados. Casal de filme. Casal que juraria não existir.
Invejei a jovialidade da dupla que não se largou naquela fração de tempo ali, enquanto eu descaradamente invadia a vida alheia. Quando ele entrou na padaria e ela não conseguiu subir o degrau por causa das pernas bambas, ele não pensou duas vezes. Chamou ajuda, pegou a bengala e calmamente esperou que ela arrumasse, tímida, o pente que prendia os cabelos brancos e finos. Trêmulo, apertou a mão do jovem que ajudou sua mulher a permanecer ao seu lado naquele momento. Virou-se para ela e perguntou: “O de sempre, meu amor?”. Ela respondeu “sim, três pãezinhos e dois docinhos de coco”.
Invejei a jovialidade da dupla que não se largou naquela fração de tempo ali, enquanto eu descaradamente invadia a vida alheia. Quando ele entrou na padaria e ela não conseguiu subir o degrau por causa das pernas bambas, ele não pensou duas vezes. Chamou ajuda, pegou a bengala e calmamente esperou que ela arrumasse, tímida, o pente que prendia os cabelos brancos e finos. Trêmulo, apertou a mão do jovem que ajudou sua mulher a permanecer ao seu lado naquele momento. Virou-se para ela e perguntou: “O de sempre, meu amor?”. Ela respondeu “sim, três pãezinhos e dois docinhos de coco”.
O que ninguém sabia sobre Monalisa
Vivia se depreciando. Não podia ser bonita e nem feliz. Era feliz e bonita, mas fazia de tudo para boicotar essas duas coisas. Ficava bem de azul, mas comprava só roupas vermelhas ou em tom de verde escuro, que não lhe caiam bem. Quando estava magra, se entupia de comida para obter uma forma pouco atraente.
Algumas vezes, a espontaneidade acabava com seus planos. Quando se dava conta estava sorrindo azul pra todo lado e conquistando amizades. Mas se passava por uma rua e via a alegria estampada no rosto refletida no vidro de uma janela, fechava a cara, puxava a boca para baixo e fazia cair os ombros. Um dia se perguntou o motivo daquela novela que só tinha uma personagem: ela. Qual seria o desfecho daquele drama? Não sabia a resposta e tinha medo de tentar entender.
Em segredo, à noite, depois que a cidade adormecia, entre perfumes e pincéis, ela se preparava para dormir. Sentia-se linda com o delineador bem traçado e o rímel que alongava os cílios. Penteava os cabelos dividindo-os ao meio e vestia seu melhor vestido. A cama vazia exteriorizava um vazio interno profundo e de mau hálito. No dia seguinte, antes de todos, acordava, lavava o rosto e punha-se feia. Até que um dia Leonardo a viu. E seu sorriso tímido, tentando disfarçar o que realmente ela era, entrou para a história.
Algumas vezes, a espontaneidade acabava com seus planos. Quando se dava conta estava sorrindo azul pra todo lado e conquistando amizades. Mas se passava por uma rua e via a alegria estampada no rosto refletida no vidro de uma janela, fechava a cara, puxava a boca para baixo e fazia cair os ombros. Um dia se perguntou o motivo daquela novela que só tinha uma personagem: ela. Qual seria o desfecho daquele drama? Não sabia a resposta e tinha medo de tentar entender.
Em segredo, à noite, depois que a cidade adormecia, entre perfumes e pincéis, ela se preparava para dormir. Sentia-se linda com o delineador bem traçado e o rímel que alongava os cílios. Penteava os cabelos dividindo-os ao meio e vestia seu melhor vestido. A cama vazia exteriorizava um vazio interno profundo e de mau hálito. No dia seguinte, antes de todos, acordava, lavava o rosto e punha-se feia. Até que um dia Leonardo a viu. E seu sorriso tímido, tentando disfarçar o que realmente ela era, entrou para a história.
7.3.08
já que não posto de fds...
5.3.08
a bailarina

A bailarina era uma bailarina comum
Mas quando colocava a música mais querida para tocar
A bailarina rodopiava em câmera lenta
Desafiando a poeira que brilhava no ar
Rodava e rodava e todas as luzes convergiam para ela
Que refletia raios brilhantes iluminando os olhos de quem a via dançar
A bailarina descortinava os cabelos enquanto ficava na ponta dos pés,
E distribuía sorrisos satisfeitos e doces
Com ternura, movimentava-se toda e toda ela se entregava ao vento
A bailarina fazia gestos delicados e
Era tão linda, tão meiga e tão pura que machucava os mais brutos com sua doçura
Ela cobria o salão desenhando elipses perfeitas
Ela deixava um rastro de perfume suave, que era soprado pela brisa
Ela tonteava as pessoas e tonteava os sons e tonteava o mundo todo
Até que
Quando ela apertava o stop
E a música mais querida parava
Ela voltava a ser uma bailarina comum.
27.2.08
lembrando da morte.
Não é sempre, mas quando recebo uma notícia de morte lembro do meu avô. E lembro do meu amigo Maneco. Um morreu velho, mas com coração jovem. O outro era jovem e tinha um coração de moleque. Nenhum dos dois deveria ter ido a meu ver, mas o julgamento não passou por mim, claro.
Neste final de semana faz três anos que o segundo se foi. Menos de uma semana antes da morte, meu amigo me dizia estar apaixonado e que felizmente tinha encontrado uma pessoa especial. Também estava feliz profissionalmente e só se arrependia de trabalhar demais e não ter tempo para pedalar. Adorava trilhas de bike. Era gordinho, mas as panturrilhas seguravam a onda na hora das subidas do acidentado relevo da cidade onde morava. A última vez que o vi, antes da morte, estava no hospital e, por uma fresta do quarto, eu e mais duas xeretas vimos uma enfermeira chacoalhando sua cabeça para o comprimido descer garganta abaixo. Cena deprimente, cena que me fez chorar e rezar para que, se ficasse vivo, não tivesse que tomar remédios daquele jeito. Na verdade foi claro que já estava morto.
A última vez que vi meu avô vivo não me lembro. Faz tempo. Quando morreu já não estava vivo há pelo menos um ano e meio. Não lembrava mais de ninguém e, se lembrava, não tinha forças para dizer nada e nem para acenar ou gesticular qualquer coisa. Tinha escaras pelo corpo e parecia bem mais velho do que era. Quando era vivo, era muito vivo. Assobiava, cantava, contava piadas, adorava caminhadas e esporte. Quando o câncer e seus olhos verdes já estavam cinzas, foi um alívio. Deve ser assim pra todos os que ficam. A morte é implacável e também dói em quem gosta dos que estão morrendo.
E pior. Ela, do nada, nos lembra de sua soberana existência.
Neste final de semana faz três anos que o segundo se foi. Menos de uma semana antes da morte, meu amigo me dizia estar apaixonado e que felizmente tinha encontrado uma pessoa especial. Também estava feliz profissionalmente e só se arrependia de trabalhar demais e não ter tempo para pedalar. Adorava trilhas de bike. Era gordinho, mas as panturrilhas seguravam a onda na hora das subidas do acidentado relevo da cidade onde morava. A última vez que o vi, antes da morte, estava no hospital e, por uma fresta do quarto, eu e mais duas xeretas vimos uma enfermeira chacoalhando sua cabeça para o comprimido descer garganta abaixo. Cena deprimente, cena que me fez chorar e rezar para que, se ficasse vivo, não tivesse que tomar remédios daquele jeito. Na verdade foi claro que já estava morto.
A última vez que vi meu avô vivo não me lembro. Faz tempo. Quando morreu já não estava vivo há pelo menos um ano e meio. Não lembrava mais de ninguém e, se lembrava, não tinha forças para dizer nada e nem para acenar ou gesticular qualquer coisa. Tinha escaras pelo corpo e parecia bem mais velho do que era. Quando era vivo, era muito vivo. Assobiava, cantava, contava piadas, adorava caminhadas e esporte. Quando o câncer e seus olhos verdes já estavam cinzas, foi um alívio. Deve ser assim pra todos os que ficam. A morte é implacável e também dói em quem gosta dos que estão morrendo.
E pior. Ela, do nada, nos lembra de sua soberana existência.
26.2.08
Estorietas de pessoas reais*
Ele entrou no lugar de um senhorzinho que se aposentou com o máximo de idade e de anos possíveis trabalhando em um mesmo lugar. Todos estavam acostumados a pedir bem alto o número do andar quando entravam no elevador e não foi fácil acostumar com um substituto tão mais jovem e com a audição tão perfeita. Bastava entrar e falar discretamente “quinto andar” ou “quarto” e ele acionava o botão. Quem mais gostou foram as meninas de 18 a 22 anos, estagiárias ou recém formadas, que ocupavam mesas pouco espaçosas ao longo dos milhares de corredores do prédio. Ele era loiro, de olhos azuis, meio cheinho, do tipo fortinho, e todo malandro. Percebia que fazia sucesso entre as moças que haviam recentemente abandonado a fase teen e distribuía sorrisos cariocas. Sempre ganhava um café, um pão na chapa ou um chocolate quente logo cedo. Assim, economizava o troco diário do café da manhã e comprava balas de qualidade. Recheava os bolsos e usava os docinhos como prévia para colecionar os telefones das fãs. Se deu bem.
Ela vivia de mau humor. Chegava no quartinho, pegava brutamente o equipamento e saía pisando com força, encerando com força, maldizendo cada centímetro de chão com força. A enceradeira fazia um barulho que perturbava e era por isso que preferia limpar os vidros das largas e inteiriças janelas do 11º andar, onde ficava seu cartão de ponto. Todas as outras colegas tinham medo da altura, da janela cujo vidro começava no chão e do vento que soprava forte sempre ali, mesmo no dia mais quente de verão. Ela se divertia com o limpa vidros e gostava de imaginar-se desafiando a morte. Aquele era seu momento de prazer. Quando terminava, fechava a cara novamente e saía resmungando. Não era amiga de ninguém, não sorria para ninguém. Todos a achavam chata, ranzinza e má. Os homens falavam de boca cheia: “deve ser uma mal comida, isso sim”. E era. No final do expediente ia para casa cuidar do marido tetraplégico, do filho drogado e das gêmeas que iam de mal a pior na escola.
Ela adorava segundas-feiras. Preferia a qualquer sábado ou a qualquer domingo. Um dos motivos é que não se sentia bem usando biquíni ao lado das primas magras na chácara da avó, onde passavam o fim de semana religiosamente, o outro era João. O menino, dois anos mais velho, era repetente e o mais popular da sétima série. Quando não estava na diretoria, estava na quadra da escola jogando basquete. Eles não tinham muito contato, mas quando a professora avisava sobre provas de matemática... Ah! Maravilha! Era certo que João a procuraria. E as provas eram sempre às segundas. No dia-a-dia ele a cumprimentava e não colocava bilhetes nas costas, como fazia com outras meninas, o que para ela era um tratamento especial. Quando passava e escutava os meninos rindo e dizendo “olha lá a gordinha!”, ela fingia não ouvir, mas de canto de olhos reparava se ele estaria por lá. Nunca estava; ele não ria dela. Um dia o ano acabou. As férias viraram um fim de semana infinito e as segundas-feiras não chegavam nunca. Quando voltou às aulas, João não estava lá. Mudara de escola e de cidade sem se despedir. Ficou triste, sentiu-se traída. Emagreceu e virou uma revoltada patricinha que agora entrava no colegial.
* Este formato eu “roubei” do Fábio Chiorino, que escreve no Haja Saco às terças-feiras. Conheça-o e os outros colegas também. São muito bons.
Ela vivia de mau humor. Chegava no quartinho, pegava brutamente o equipamento e saía pisando com força, encerando com força, maldizendo cada centímetro de chão com força. A enceradeira fazia um barulho que perturbava e era por isso que preferia limpar os vidros das largas e inteiriças janelas do 11º andar, onde ficava seu cartão de ponto. Todas as outras colegas tinham medo da altura, da janela cujo vidro começava no chão e do vento que soprava forte sempre ali, mesmo no dia mais quente de verão. Ela se divertia com o limpa vidros e gostava de imaginar-se desafiando a morte. Aquele era seu momento de prazer. Quando terminava, fechava a cara novamente e saía resmungando. Não era amiga de ninguém, não sorria para ninguém. Todos a achavam chata, ranzinza e má. Os homens falavam de boca cheia: “deve ser uma mal comida, isso sim”. E era. No final do expediente ia para casa cuidar do marido tetraplégico, do filho drogado e das gêmeas que iam de mal a pior na escola.
Ela adorava segundas-feiras. Preferia a qualquer sábado ou a qualquer domingo. Um dos motivos é que não se sentia bem usando biquíni ao lado das primas magras na chácara da avó, onde passavam o fim de semana religiosamente, o outro era João. O menino, dois anos mais velho, era repetente e o mais popular da sétima série. Quando não estava na diretoria, estava na quadra da escola jogando basquete. Eles não tinham muito contato, mas quando a professora avisava sobre provas de matemática... Ah! Maravilha! Era certo que João a procuraria. E as provas eram sempre às segundas. No dia-a-dia ele a cumprimentava e não colocava bilhetes nas costas, como fazia com outras meninas, o que para ela era um tratamento especial. Quando passava e escutava os meninos rindo e dizendo “olha lá a gordinha!”, ela fingia não ouvir, mas de canto de olhos reparava se ele estaria por lá. Nunca estava; ele não ria dela. Um dia o ano acabou. As férias viraram um fim de semana infinito e as segundas-feiras não chegavam nunca. Quando voltou às aulas, João não estava lá. Mudara de escola e de cidade sem se despedir. Ficou triste, sentiu-se traída. Emagreceu e virou uma revoltada patricinha que agora entrava no colegial.
* Este formato eu “roubei” do Fábio Chiorino, que escreve no Haja Saco às terças-feiras. Conheça-o e os outros colegas também. São muito bons.
22.2.08
ô coisinha tão bonitinha do pai
A expressão "mãe coruja" devia mudar para "mãe lêmure". Olha que filhote mais esquisitinho...

Foto mostra pela primeira vez um filhote de Lêmure de quatro meses de idade nascido no zôo de Paris, na França. O Lêmure é um primata de hábitos noturnos, encontrados na ilha de Madagascar, na África.
(Fonte: AFP)

Foto mostra pela primeira vez um filhote de Lêmure de quatro meses de idade nascido no zôo de Paris, na França. O Lêmure é um primata de hábitos noturnos, encontrados na ilha de Madagascar, na África.
(Fonte: AFP)
20.2.08
O dia que uma drag queen colou em mim
Semana passada vivi um dia tão fútil quanto divertido. Se não bastasse eu entrar na academia decorada com florzinhas e borboletas, com mulheres fazendo exercícios em aparelhos com estofados revestidos em corino rosa e lilás, passei por elas e fui direto a um banheiro transformado em camarim.
Afastei umas plumas pretas e outras brancas que estavam logo na porta e sentei num banquinho esperando minha vez. Duas mulheres já estavam maquiadas e sorriam muito, se olhando no espelho e se sentindo lindas. O maquiador, um gay alto astral (“lóóóógico”, pras duas características dele), olhou para mim e perguntou: “Você é a próxima, baby?”. Eu disse que sim. Ele deu um pulinho e falou: “Vou adorar maquiar essa pele de pêssego!”.
Em seguida, começou a contar que seus pincéis eram Mac e que o batom X rosinha claro cintilante ficaria perfeito em mim. Dei uma risadinha e falei que queria fazer as fotos com uma maquiagem bem branca e um batom bem escuro, para ficar diferente. Ele espantou e mandou: “Nãoooo, baby! Está louca! Vamos fazer algo bem light pra você ficar beeemmmm linda! Vou prender sua franja com umas presilhinhas e ficará show!”.
Eu bem que quis confiar nele, mas, juro, não deu. Minutos depois, a moça que estava na minha frente saiu da cadeira de "diva" e eu ocupei o lugar. Tirei os óculos, fechei os olhos e o maquiador começou a passar uma super massa corrida no meu rosto (pra quê? Eu não tinha uma pele de pêssego?). Depois, agarrou um estojo de sombras com uma expressão facial incrível e começou a pintar meus olhos. Olhos dele arregalados. Rímel “curvas intensas” para dar “mais charme” nos meus... “delineador de alta fixação” para não borrar, não marcar, não sair, não escorrer.
As mulheres já maquiadas e duas outras que estavam na fila olhavam para mim, que estava ali de olhos fechados e pescoço pra cima, e comentavam entre elas que eu estava ficando linda. Gostei daquilo. Estava achando que tinha acabado quando o maquiador me disse: “Pronto! Vamos agora dar acabamento!”. Aí, o franzino mestre dos pincéis Mac passou um blush com “toque bronzeado da Amazônia” (???), pintou meus lábios com o batom rosa “super-ultra-perfect” para mim e gritou: “Linda! Arrasou!”.
Feliz, achando que me transformara numa bela modelo de capa de revista internacional, me olhei no espelho e não me vi, mas uma viçosa drag queen!
Tá. Ri muito. Olhei para as já maquiadas e elas estavam com maquiagens idênticas a minha. Mesmas cores, mesmo batom rosa super-ultra-perfect. Como já havia espiado o resultado do book fotográfico de outras, e havia gostado muito, dei uma aliviada e pensei que “devia ser maquiagem especial para a luz do estúdio e que tudo daria certo”.
Em uns minutinhos, já era minha vez de encarar os flashes. Entrei tímida no estúdio e aos poucos fui me soltando. Pra começar, quis colocar “um pouco de mim ali”, como sugeriu o fotógrafo, como se eu não fosse eu (teria ele percebido que não era eu, mas uma drag queen que havia colado em mim?). Soltei as presilhinhas, baguncei a cabeleira, puxei a franja pra frente. Todas as mulheres tinham as poses dirigidas pelo fotógrafo, mas eu teria as minhas poses! As minhas caras e bocas! Legal!
Comecei com nível begginer de dificuldade e fiz cara de louca. Depois, progredi na escala e fiz cara de boba. Seguiu cara assustada, cara de menininha do interior passando frio, cara sexy (com direito a ventilador para propaganda de shampoo), cara de má, cara de pilantra, cara de sofrida, cara de feliz, cara de muito feliz, cara de sapeca, cara de pensando na vida, cara de personal trainner (com a camisetinha da academia), cara de sou a Vera Fischer no auge.
Saí de lá me achando uma diva de sucesso e não mais uma drag queen. No dia seguinte veria o resultado e poderia comprar fotos extras (a academia daria só uma com a camisetinha deles). Pensei “puxa, isso vai sair caro. Vou me controlar e escolher no máximo dez, dependendo do preço...”.
Dia seguinte fui correndo ver o meu book “ma-ra-vi-lho-so”, como me garantira o maquiador. Para minha felicidade, das mais de cem, gostei de apenas três fotos, sendo que uma delas estava com um filtro roxo e preferi não comprar. Quem fez as caras e bocas foi a drag queen... eu não estava enganada! Uma delas ficou boa e comprei porque a blusa azul deu um contraste legal com o batom rosa super-ultra-perfect. Os olhos não apareciam (ufa! nada de drag). Podia ter ficado triste, mas saí me achando incrível: me livrei da drag que colou em mim no dia anterior, não precisei gastar com várias fotos extras (descobri que cada uma sairia por R$ 52) e minha pele continua boa. Sem massa corrida, ela realmente parece um pêssego! Oh!
Afastei umas plumas pretas e outras brancas que estavam logo na porta e sentei num banquinho esperando minha vez. Duas mulheres já estavam maquiadas e sorriam muito, se olhando no espelho e se sentindo lindas. O maquiador, um gay alto astral (“lóóóógico”, pras duas características dele), olhou para mim e perguntou: “Você é a próxima, baby?”. Eu disse que sim. Ele deu um pulinho e falou: “Vou adorar maquiar essa pele de pêssego!”.
Em seguida, começou a contar que seus pincéis eram Mac e que o batom X rosinha claro cintilante ficaria perfeito em mim. Dei uma risadinha e falei que queria fazer as fotos com uma maquiagem bem branca e um batom bem escuro, para ficar diferente. Ele espantou e mandou: “Nãoooo, baby! Está louca! Vamos fazer algo bem light pra você ficar beeemmmm linda! Vou prender sua franja com umas presilhinhas e ficará show!”.
Eu bem que quis confiar nele, mas, juro, não deu. Minutos depois, a moça que estava na minha frente saiu da cadeira de "diva" e eu ocupei o lugar. Tirei os óculos, fechei os olhos e o maquiador começou a passar uma super massa corrida no meu rosto (pra quê? Eu não tinha uma pele de pêssego?). Depois, agarrou um estojo de sombras com uma expressão facial incrível e começou a pintar meus olhos. Olhos dele arregalados. Rímel “curvas intensas” para dar “mais charme” nos meus... “delineador de alta fixação” para não borrar, não marcar, não sair, não escorrer.
As mulheres já maquiadas e duas outras que estavam na fila olhavam para mim, que estava ali de olhos fechados e pescoço pra cima, e comentavam entre elas que eu estava ficando linda. Gostei daquilo. Estava achando que tinha acabado quando o maquiador me disse: “Pronto! Vamos agora dar acabamento!”. Aí, o franzino mestre dos pincéis Mac passou um blush com “toque bronzeado da Amazônia” (???), pintou meus lábios com o batom rosa “super-ultra-perfect” para mim e gritou: “Linda! Arrasou!”.
Feliz, achando que me transformara numa bela modelo de capa de revista internacional, me olhei no espelho e não me vi, mas uma viçosa drag queen!
Tá. Ri muito. Olhei para as já maquiadas e elas estavam com maquiagens idênticas a minha. Mesmas cores, mesmo batom rosa super-ultra-perfect. Como já havia espiado o resultado do book fotográfico de outras, e havia gostado muito, dei uma aliviada e pensei que “devia ser maquiagem especial para a luz do estúdio e que tudo daria certo”.
Em uns minutinhos, já era minha vez de encarar os flashes. Entrei tímida no estúdio e aos poucos fui me soltando. Pra começar, quis colocar “um pouco de mim ali”, como sugeriu o fotógrafo, como se eu não fosse eu (teria ele percebido que não era eu, mas uma drag queen que havia colado em mim?). Soltei as presilhinhas, baguncei a cabeleira, puxei a franja pra frente. Todas as mulheres tinham as poses dirigidas pelo fotógrafo, mas eu teria as minhas poses! As minhas caras e bocas! Legal!
Comecei com nível begginer de dificuldade e fiz cara de louca. Depois, progredi na escala e fiz cara de boba. Seguiu cara assustada, cara de menininha do interior passando frio, cara sexy (com direito a ventilador para propaganda de shampoo), cara de má, cara de pilantra, cara de sofrida, cara de feliz, cara de muito feliz, cara de sapeca, cara de pensando na vida, cara de personal trainner (com a camisetinha da academia), cara de sou a Vera Fischer no auge.
Saí de lá me achando uma diva de sucesso e não mais uma drag queen. No dia seguinte veria o resultado e poderia comprar fotos extras (a academia daria só uma com a camisetinha deles). Pensei “puxa, isso vai sair caro. Vou me controlar e escolher no máximo dez, dependendo do preço...”.
Dia seguinte fui correndo ver o meu book “ma-ra-vi-lho-so”, como me garantira o maquiador. Para minha felicidade, das mais de cem, gostei de apenas três fotos, sendo que uma delas estava com um filtro roxo e preferi não comprar. Quem fez as caras e bocas foi a drag queen... eu não estava enganada! Uma delas ficou boa e comprei porque a blusa azul deu um contraste legal com o batom rosa super-ultra-perfect. Os olhos não apareciam (ufa! nada de drag). Podia ter ficado triste, mas saí me achando incrível: me livrei da drag que colou em mim no dia anterior, não precisei gastar com várias fotos extras (descobri que cada uma sairia por R$ 52) e minha pele continua boa. Sem massa corrida, ela realmente parece um pêssego! Oh!
19.2.08
textinho da mamãe
Devo meu gosto pela escrita e leitura à minha mãe. Além de sempre preferir suspenses e bons autores para companhia, ela vez ou outra escreve algo. Fazia tempo que não lia nada que não fosse um discurso para alguém, uma palestra, uma oratória. Eis que recebo por e-mail um textinho muito bonitinho. Despretensioso, simples, curto. Achei uma graça. Está aí, ó:
Aos poucos, como se tivesse dificuldade para avançar, ela deu um passo a frente, perturbada, pois não era de seu feitio ser tão curiosa. A estranha sensação de estar interrompendo algo muito íntimo fez com que ela tivesse a vontade de voltar correndo e novamente esconder-se debaixo da cama. Mas, não, ela não iria fazer isso, afinal, era a primeira vez que a cena se desenrolara na frente dela e não poderia passar em branco. Ela deu voltas, se aproximou devagarzinho, observou, esticou-se o máximo que pode e espiou.
É aí, então, que seu coração se acelera com o movimento brusco e, com susto, ela se desprende do chão e corre em direção ao nada, fugindo do desconhecido, sonhando acordada com o aconchego dos braços que ela ama. Mas o barulho na sala continua. A curiosidade volta com força total e, numa carreira graciosa, ela se atira sobre as pombinhas que invadiram nossa sala de jantar e abana o rabo satisfeita.
Aos poucos, como se tivesse dificuldade para avançar, ela deu um passo a frente, perturbada, pois não era de seu feitio ser tão curiosa. A estranha sensação de estar interrompendo algo muito íntimo fez com que ela tivesse a vontade de voltar correndo e novamente esconder-se debaixo da cama. Mas, não, ela não iria fazer isso, afinal, era a primeira vez que a cena se desenrolara na frente dela e não poderia passar em branco. Ela deu voltas, se aproximou devagarzinho, observou, esticou-se o máximo que pode e espiou.
É aí, então, que seu coração se acelera com o movimento brusco e, com susto, ela se desprende do chão e corre em direção ao nada, fugindo do desconhecido, sonhando acordada com o aconchego dos braços que ela ama. Mas o barulho na sala continua. A curiosidade volta com força total e, numa carreira graciosa, ela se atira sobre as pombinhas que invadiram nossa sala de jantar e abana o rabo satisfeita.
é o fim...
- População de Kosovo abre os olhos e se vê construindo (enfim) um país já em pé de guerra;
- Fidel renuncia antes de completar Bodas de Ouro com Cuba;
- Bush dança mexendo o pescoço tipo Fat Family, na África;
- Folha publica editorial na capa, continuando a guerra fria que envolve processos, fanáticos, Edir Macedo e seu cofre do Tio Patinhas;
- Reinaldinho ex-Fenômeno estrupia joelho e em menos de uma semana nem sente mais dor;
- Lula acha que todo mundo acredita que ele quer investir na base da Antártida só para pesquisas...
Agora me diz... o mundo tá acabando?
- Fidel renuncia antes de completar Bodas de Ouro com Cuba;
- Bush dança mexendo o pescoço tipo Fat Family, na África;
- Folha publica editorial na capa, continuando a guerra fria que envolve processos, fanáticos, Edir Macedo e seu cofre do Tio Patinhas;
- Reinaldinho ex-Fenômeno estrupia joelho e em menos de uma semana nem sente mais dor;
- Lula acha que todo mundo acredita que ele quer investir na base da Antártida só para pesquisas...
Agora me diz... o mundo tá acabando?
13.2.08
se
Se você fosse um peixe eu moraria à beira mar, para não ter que te colocar num aquário.
Se você fosse um passarinho, eu construiria um viveiro enorme e lindo e deixaria as portas abertas para você entrar e sair quando quisesse.
Se você fosse um cachorro não cortaria suas orelhas. E eu compraria mimos e pasta de dente com gosto de carne. Você teria uma casinha de madeira bem espaçosa e eu daria comida escondido, quando você enjoasse da ração. Se você fosse um gato eu compraria uma caixa de areia em forma de coração. Você teria um novelo de lã novo sempre para brincar e não me aborreceria se você só aparecesse na hora das refeições.
Por sorte você não é um bichinho de estimação e nem cabe num tupperware, para eu te colocar na geladeira e te conservar pra mim. Por sorte você também não é planta, para eu matar de tanto colocar água, com medo que você morresse de sede. Por sorte você não é um menininho, para eu ter que te levar pela orelha até a casa da sua mãe. Você é um homem. E agora vai tocar violão pra mim.
Se você fosse um passarinho, eu construiria um viveiro enorme e lindo e deixaria as portas abertas para você entrar e sair quando quisesse.
Se você fosse um cachorro não cortaria suas orelhas. E eu compraria mimos e pasta de dente com gosto de carne. Você teria uma casinha de madeira bem espaçosa e eu daria comida escondido, quando você enjoasse da ração. Se você fosse um gato eu compraria uma caixa de areia em forma de coração. Você teria um novelo de lã novo sempre para brincar e não me aborreceria se você só aparecesse na hora das refeições.
Por sorte você não é um bichinho de estimação e nem cabe num tupperware, para eu te colocar na geladeira e te conservar pra mim. Por sorte você também não é planta, para eu matar de tanto colocar água, com medo que você morresse de sede. Por sorte você não é um menininho, para eu ter que te levar pela orelha até a casa da sua mãe. Você é um homem. E agora vai tocar violão pra mim.
sem boicotes

Ela só tinha medo de perder quando achava que tal coisa era realmente valiosa. Caso contrário, apostava na roleta russa, com certo receio da arma, mas num rompante de fôlego e coragem sempre apertava o gatilho na hora que titubeava.
Não era à toa, era um tipo de teste na linha do "se for pra ser, a bala não vai matar” ou “se for para machucar, que a bala perfure e exploda logo com tudo, diminuindo o tempo de espera do fim”.
Era sempre assim, mas todo sempre tem exceções. A última exceção tinha acontecido há muito tempo, depois, numa segunda possibilidade de aparecer, passou por cima e pegou dois revolveres, para intimidar a exceção. Deu certo e ela não apareceu.
Mas, eis que surge um novo cenário. Eis que a exceção aparece. A cautela. Agora, enquanto ela beija o céu, espera que alguém a ataque pelas costas. Mas se segura e não lança mão do artifício que oferece chances de ser letal. Não quer que seja. E tem medo.
Dorme e sonha com o carro roubado, a família sumida, o emprego tomado, as plantas sem flores no quintal. Quando acorda, segura firme nas mãos a chave que abre o cadeado onde guarda a arma. Não quer levar mão da roleta russa. Não quer arriscar. Quer continuar a beijar o céu. E se ele se fechar, bem, é melhor se preocupar só depois.
11.2.08
o post da Dani
Estar longe de tudo e de todos nos possibilita sentir coisas verdadeiras. De quem eu realmente gosto? Do que realmente sinto falta? O que não faz a menor diferença? O que achava essencial e vejo que é desnecessário? Quem eu colocaria num potinho para guardar pra vida inteira?
Hoje conversei com uma pessoa essencial. Conversei não, troquei e-mail. E esse não conversar cara-a-cara, ao vivo e a cores fez muita falta. E-mail supre carências básicas, num grau de 0 a 10, 4, sendo bem otimista. Num parâmetro de 0 a bosta (bosta sendo = 10), o número sobe e vai pra 9 tratando-se de qualidade. Conversando pessoalmente um assunto puxa outro, o que por e-mail é complicado, a menos que se fiquem horas dando “enviar e receber”, mas não tem a expressão facial e todos os outros elementos de um contato teti-a-teti, né. Ruim.
Faz anos (isso, anos) que devo um post para minha amiga Danizinha. Hoje ela entrou no blog e ficou com ciuminho de alguns nomes citados em um post antigo, já expliquei o que aconteceu. Mas nada, nada muda o fato de a conversa com alguém tão especial ter sido feita por meio de teclas e ondas. É aí que me questiono muitas coisas. É aí que tenho súbita vontade de explodir tudo e assassinar o Bill Gates. Mas isso não resolveria. Aliás, não ia adiantar nada. E eu ainda ficaria sem emprego, pois trabalho nisso. Na net.
Não, não precisa me deixar um comentário, me ligar ou mandar um e-mail explicando as vantagens da WWW. Eu sei. As conheço bem. Mas que saudade de conversar com a Dani esticando o pescoço, roubar batatas fritas do prato dela no almoço, comer os bolos da mãe dela. Saber de detalhes do dia-a-dia que por e-mail não dá. Não rola. Não atende a demanda.
Queria fazer poesia, queria escrever algo bonito pra Danizinha. Mas ela vai ter que esperar mais (mais um ano?). Ando feliz com a vida, revoltada com a distância de bons amigos e fadada a escrever algo quase homossexual. Por isso, parei por aqui. Abaixo, só pra Dani.
Saudade Dani. Gipeta manda lembranças.
Aqui em São José estão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock´n roll
Uns dias chovem noutros dias bate sol
Mas o que eu quero te dizer
É que você faz falta pra cara... opa, pra caramba!
Beijão.
Hoje conversei com uma pessoa essencial. Conversei não, troquei e-mail. E esse não conversar cara-a-cara, ao vivo e a cores fez muita falta. E-mail supre carências básicas, num grau de 0 a 10, 4, sendo bem otimista. Num parâmetro de 0 a bosta (bosta sendo = 10), o número sobe e vai pra 9 tratando-se de qualidade. Conversando pessoalmente um assunto puxa outro, o que por e-mail é complicado, a menos que se fiquem horas dando “enviar e receber”, mas não tem a expressão facial e todos os outros elementos de um contato teti-a-teti, né. Ruim.
Faz anos (isso, anos) que devo um post para minha amiga Danizinha. Hoje ela entrou no blog e ficou com ciuminho de alguns nomes citados em um post antigo, já expliquei o que aconteceu. Mas nada, nada muda o fato de a conversa com alguém tão especial ter sido feita por meio de teclas e ondas. É aí que me questiono muitas coisas. É aí que tenho súbita vontade de explodir tudo e assassinar o Bill Gates. Mas isso não resolveria. Aliás, não ia adiantar nada. E eu ainda ficaria sem emprego, pois trabalho nisso. Na net.
Não, não precisa me deixar um comentário, me ligar ou mandar um e-mail explicando as vantagens da WWW. Eu sei. As conheço bem. Mas que saudade de conversar com a Dani esticando o pescoço, roubar batatas fritas do prato dela no almoço, comer os bolos da mãe dela. Saber de detalhes do dia-a-dia que por e-mail não dá. Não rola. Não atende a demanda.
Queria fazer poesia, queria escrever algo bonito pra Danizinha. Mas ela vai ter que esperar mais (mais um ano?). Ando feliz com a vida, revoltada com a distância de bons amigos e fadada a escrever algo quase homossexual. Por isso, parei por aqui. Abaixo, só pra Dani.
Saudade Dani. Gipeta manda lembranças.
Aqui em São José estão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock´n roll
Uns dias chovem noutros dias bate sol
Mas o que eu quero te dizer
É que você faz falta pra cara... opa, pra caramba!
Beijão.
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