Naquele dia ela lavou seu coração de papelão e o pendurou no
varal, para secar. O céu estava azul e as ondas vibrantes de amor vindas de
tantos lugares do mundo e de tantas dimensões paralelas perdidas entre o céu e
a terra pareciam pairar sobre o varal. A brisa suave era quente, como maresia,
e o coração de papelão deixava a umidade para tornar-se duro e seco. Que controverso
para um coração! Mas era só assim que ele conseguia manter-se literalmente
firme. Estava aprendendo a ser meio termo, por necessidade, mas o que gostava e
sabia mesmo era ser flexível, derretido. Gostava de desfazer-se e fazer-se de
novo. Gostava de virar escultura em papel marché. Pendurado no varal, o coração
de papelão se preparava para passar mais um Valentine´s Day em perfeita elegância,
sem desmerecer outros corações mais duros ou invejar os mais afortunados.
Espaço reaberto pós longo período aposentado. Este é um lugar onde paro para pensar o que vem à mente, sem arredondar. Já foi uma gaveta; já foi um tupperware, daqueles que a gente fecha bem as idéias e põe na geladeira, guardando o que queremos preparar mais para frente. É relevante, tem motivo de estar, mas não está pronto. Superficial. Superfácil, Só prefácio. Superfacial, está na cara, mas só ali (aqui). As vezes, até consigo enxergar a lua pela fresta do telhado.
13.2.13
20.1.13
Minhas observações do amor neste fim de semana
O amor não está só no ar, está em todos os lugares, quer
queira ou não. Eu sou uma romântica e gosto de admirá-lo. Claro, há diversos
tipos de amor e neste fim de semana pareci estar disponível, ou seria melhor
propensa, para observá-lo. Começou na sexta a noite, quando eu e uns amigos
falávamos sobre o quanto pessoas interessantes e inteligentes se tornam
absurdamente ‘burras’ quando topam com alguém que consegue despertar algo mais
submerso, menos superficial, mais bonito. Daí foram risadas intermeadas a
histórias de desilusões e desencantos de pessoas que acima de tudo são felizes.
Na verdade, na quinta-feira o assunto já tinha pairado, numa
longa conversa confidencial madrugada afora. No sábado, saí para comprar um
potinho de vidro bonitinho, para presentear um amigo com a melhor geléia de
morango do mundo, a que minha avó faz, e fui parar no supermercado. Mente vazia,
cantando a música que havia sido interrompida no rádio do carro. Bati a porta e
um casal passou marchando ao meu lado. Ele era lindo, ela idem. Estavam bem
bravos um com o outro. Não sei o motivo, devia haver razão, mas eu só consegui
pensar “se eu fosse eles não estaria discutindo. Estar em dois é muito bom para
perder tempo brigando”. Andando, olhei para trás e a cena estava ainda mais nublada.
Entrei no mercado. No meio das gôndolas pouco frequentadas do lado direito,
surpreendi um casal se beijando como se ninguém pudesse vê-los. Fiquei com
vergonha (não mais que eles!) e triste em ter interrompido o beijo tão sincero.
Pronto! Aquele casal minimizou o atraso de amor do estacionamento.
Escolhendo novo sabor pro meu Listerine, ao meu lado uma
moça falava ao telefone com seu amado “Vou comprar uma surpresa pra você! Uma coisa
que você adora!”, ela disse sorrindo. Puxa! Que delícia vai ser o encontro
quando o presenteado receber a surpresa! Eu que adoro surpresa e adoro mais
ainda dar presente… fiquei com inveja.
Saí do mercado e fui alugar filmes. A locadora que frequento
é ótima, mas os filmes estão caros e há alguns dias estou para renovar minha
ficha numa outra locadora, também pertinho de casa e mais em conta. Fui superbem
recebida de volta e fiquei uma meia hora conversando com a proprietária sobre
filmes que ela me indicava, a maioria com romances absurdos. Pedi indicação de
suspense, mas ela me ignorou. O amor também está na locadora.
Saí e fui comprar sorvete e qual foi minha alegria ao
descobrir que há um Corneto de sabor novo! Trouxe para casa e, ao abrir… ele
era decorado por coraçõezinhos vermelhos de açúcar. Sorvete é bom e também é
amor, faz carinho na gente!
Há meses ensaiava ir conversar com um amigo que havia virado
persona non grata. Amigo de verdade, que a gente magoa, magoa a gente e, de
repente, não se fala mais. Isso não é comum pra mim, era exceção e incomodava. Eu
não gostava dessa sensação e muito menos de me imaginar uma cristã sem perdoar
ou pedir perdão. Não foi fácil, mas após alguns anos fui até ele e, pra minha
alegria, um abraço salvou minha alma e meu coração. O amor é realmente
fantástico, cura e resgata, faz tudo passar.
Hoje terminei de ver um filme que comecei ontem, chama-se
The Lady, traduzido para “Além da Liberdade”, que conta a história real de uma
mulher que salva a esperança de seu País. Sensacional. Vale a pena, uma
história que mostra vários tipos de amor e o desenrolar deles. Triste,
inspirador, intenso. Fui pesquisar e descobri que ela é a pacifista homenageada
pelo U2 com a música Walk On. Eu já gostava da letra, com clip gravado no Rio
aliás, mas agora compreendo além do refrão. Ainda tem domingo pela frente e
talvez ainda observe mais o amor por aí. Espero que sim.
Assista até o fim... a última imagem é da Aung San Suu Kyi, a pacifista do filme.
14.1.13
Página virada
Antigamente a gente escrevia na calçada com tijolo de construção. No geral, escrevíamos nossos próprios nomes entre florzinhas e casinhas e as casas pra jogar Amarelinha. Quando estávamos com a melhor amiga também podíamos escrever o nome do menino que a gente gostava com corações flechados. Ah! E estes, só estes eram riscados com força antes de deixarmos a calçada quando a mãe chamava pra ir tomar banho, para que ninguém que também fosse se sentar e desenhar ali descobrisse.
Escrever com tijolo na calçada é fácil, mas riscar o nome até ficar ilegível nem tanto. Lembro como se fosse hoje da mão amarelada da gente, seca e com machucadinhos do nosso tijolo-giz. Por conta disso, eu e uma amiga escolhemos um pedaço de calçada sem muita visibilidade para escrevermos os nomes (em código, pra garantir) dos meninos que gostávamos e não precisarmos riscar. Assim, no dia seguinte, podíamos ficar ali, só decorando com florzinhas e corações enquanto falávamos sobre nossos amores, na maioria, impossíveis.
Quando desapaixonávamos e resolvíamos “virar a página”, aí sim, a gente riscava com força, definitivamente. Lembro da minha coluna de nomes em código rabiscados na calçada somando três ou quatro e a da minha amiga com pelo menos o dobro de nomes! Éramos crianças, mas quando virávamos a página era de verdade, pra mim pelo menos era. Mas o tijolo riscado sempre nos fazia lembrar quem esteve escrito com amor ali e, às vezes, minha amiga me ‘apoquentava’ e era obrigada a relembrar da listinha dela…
O tempo passou e o “virar a página” mudou. Agora, a gente pára de fuçar o perfil no Facebook, de puxar papo por mensaginha inbox, de mandar sms e email. É interessante perceber a evolução do “virar a página” e da gente. Hoje, mais madura, tenho dó de virar, fiquei mais teimosa. Sempre quero adiar, pois dou mais valor pros nomes da listinha, mas como quando criança, quando acontece é pra valer. Decidida a virar a página, o nome é riscado bem forte. “Menina que não rabisca os nomes não correspondidos bem forte é menina boba”, como bem me ensinou minha vizinha mais velha, da casa de cima da minha, quando então, com 13 anos, sabia bem mais sobre o amor que eu e minha amiga de 9.
...........................................................................
Ah! E esse som combina tanto! Gosto muito.
9.1.13
Sonhando acordada
Ela vê e imediatamente não são meras imagens, são vontades dele. Dela, por ele. Uma coleção de cenas das quais nunca participou, mas pode descrever com exatidão cada uma delas, com uma estória inventada para a história de amor inexistente. Tem várias, mas duas preferidas:
1
Naquela manhã tomaram juntos uma média de café com leite e
pão na chapa. Básico. Teve salada de frutas também. Ela não conseguia descolar
os olhos dele. A visão do restante do ambiente era vaga, completamente afetada
pelo túnel que formava dos olhos dela até os olhos dele. Também a fala estava
prejudicada. Não conseguia emitir mais que duas palavras em sequência. A satisfação por ter o cheiro dele à seu bel prazer
durante toda a noite e início daquela manhã completavam todo seu corpo, enchendo como ar o organismo inteiro, parando na garganta. Por isso era tão difícil
falar. Ele a preenchia e havia roubado sua língua, com aquela boca quente e macia.
Os movimentos pareciam mais suaves e cada riso marcado nas covinhas formadas
nos cantos da boca de lábios finos eram motivo de uma quase parada cardíaca
dela. Exagero? Pra maioria sim, mas não pra ela, que aguardara meses para velar
o sono do cara mais fantástico que já havia conhecido. A média de café com
leite tinha gosto de pódio de ouro e o pão na chapa ficou no prato. A salada de
frutas só embelezou a mesa. Nada mais cabia. Ele tinha tomado conta de tudo
numa invasão permitida deliciosa.
2
Estavam viajando de férias em algum lugar bem distante. Ela tirou
uma foto sem graça dele, que não queria aparecer com cara de sono. Ele deu um
sorriso forçado e perguntou “tá feliz?”, ela acenou tímida e com jeito de criança
sapeca que sim. Ele aprovou e abriu os braços para abraça-la e claro, a
fotógrafa amadora com cara de boba não pensou duas vezes e se jogou no calor
daquele peito coberto com uma camiseta branca cheirando amaciante. Que delícia!
Não precisava ter viajado pra lugar nenhum, ali era o único lugar onde ela queria
estar independente da estação do ano.
6.1.13
Coisas de cinema
Cinema é um tema que adoro. Poderia ter um blog só sobre
cinema, poderia decorar minha casa com posters, ouvir só trilha sonora e usar
roupas com capas de filmes. Hoje passei por uma experiência horrível em uma das
salas do cinema da minha cidade. Acenderam as luzes e desligaram o projetor
assim que a última palavra foi dita no fim do filme. Não vi nenhum crédito
final. Não vi nenhuma ceninha engraçada, que certamente viria na sequência. Muita
falta de respeito. Se a companhia não fosse boa, certamente minha noite teria
sido estragada pelo gesto absurdo.
Mas eu dizia sobre como cinema me faz bem. Pois. Estava vendo
umas fotos antigas e me lembrei de uma festa a fantasia que fui e eu e uns
amigos planejamos uma festa movie star, que nunca existiu. Todos iriam vestidos
de personagens de cinema famosos e teriam que interpretar a noite toda. Coisa besta,
não deu certo, mas me lembrei de cenas da minha vida que foram
cinematográficas, umas para o bem, outras para nunca mais repetir. Resolvi listar
algumas, por diversão.
- Diário de uma Paixão: sim! Já fui beijada sob a chuva como
no filme!
- Pulp Ficcion / Embalos de Sábado a Noite: quem nunca
dançou imitando Travolta e Uma? Hein? Hein?
- O Diário de Brigitte Jones: putz. Chorar vendo drama e
tomar sorvete no pote já embalaram uma noite menos feliz que a do Travolta…
- Corra Lola, Corra: quantas vezes você não foi e voltou,
pelo menos em pensamento, mudando uma coisinha no roteiro, imaginando o que
aconteceria?
- American Pie: o que vou revelar é confidencial. Feio. Chato.
Vergonha alheia totally você terá de mim. Há muitos anos fiquei com um carinha
e, não lembro se ele ficou com outra na mesma noite ou sumiu, virei um copo de
alguma bebida melequenta inteiro na cabeça dele. No meio da baladinha. E ainda
disse “ops, foi sem querer!” e saí rindo com minha amiga igualmente pirada. Nossa…
você achou que loucas assim só existiam em filme? Espero que sim… mas naquele
dia eu fiz uma coisa dessa… EU! Uma mulher fina, elegante, sincera… vergonha,
muita vergonha… só por Deus… Até hoje quando me lembro tenho vontade de ir lá
pedir desculpas pro cara. MUITO ABSURDO… mas foi cinematográfico!
- Thelma e Louise: Direto saio dirigindo com os cabelos ao
vento e uma amiga do lado. Nunca me joguei de precipício algum, mas é deliciosa
a sensação de que, se lguém estivesse filmando, a cena sairia linda!
- Duets, Vem cantar comigo: esse filme cafona também já
imitei na minha real life. Cantei musiquinha em videokê e ganhei o moço. Claro que
foi pelo charme, não por cantar bem. Sou péssima. Cafoninha mas legal.
- Uma linda mulher: ah, tô me achando! Uma vez, há long time
ago, estava descendo uma rua de saia, salto e feliz. Não era nada demais, não,
mas acho que como estava feliz e sorrindo, o conjunto chamou atenção. Cruzei com
uma pessoa, que me olhou fundo nos olhos… e eu passei (não conhecia). Dois
segundos depois, ouvi um barulho, olhei para trás e a menina (sim, era mulher)
tinha caído numa caçamba por seguir caminho andando com o pescoço virado
olhando pra mim… nossa, que vergonha!
Depois de uns copos de Amarulla e vinho, sozinha em casa, ao
som de Nouvelle Vague, foi isso que me lembrei. O resto são detalhes e não cenas
de cinema. Algumas briguinhas que viraram beijos suculentos em abraços tórridos
(clichê de qualquer comedinha romântica de quinta); porta do carro batendo e
pés atravessando a rua correndo no asfalto molhado; olhar no espelho para tirar
a maquiagem com o rosto todo borrado (muito Marilyn Monroe!); choros e soluços
agarrada ao travesseiro (superrrrr 80’s drama!) e alguns diálogos infames. Não é
difícil ser uma movie star… é só escolher a trilha sonora para cada momento. Adoro
100%.
3.1.13
Gravata amarela
Precisava comprar escova, pasta de dentes e remédio para dor
de cabeça depois do trabalho, mas resolveu parar numa farmácia na hora do
almoço. Reclamou mentalmente no fim da fila de meia dúzia de pessoas, do único
caixa funcionando “vou me atrasar, deveria ter passado aqui saindo do trabalho”.
Com cara de poucos amigos, desviou o olhar para se distrair com o movimento da
rua enquanto a mulher da frente revirava a bolsa baú para achar o cartão
perdido, a fim de pagar a conta. Grata surpresa! Lá estava ele, de camisa
listrada e gravata amarela, descendo a rua correndo e rindo. Parou um carro no
meio da rua, entrou e sumiu. Ela suspirou e, de repente, pior que estar na fila molenga do caixa da farmácia era estar longe da gravata amarela. Respirou fundo e decidiu transformar a cena numa memória antiga e guardar numa gaveta bem escondida. Moral da estória: se o plano é passar na farmácia após o trabalho, não mude a rotina!
26.12.12
Vamos abrir a Porta da Esperança!
Quando o Natal passa é unânime: todos vivem a espera da
semaninha passar para a virada. O Reveillon é mais que um evento onde todos
brindam e usam roupas preferencialmente brancas, o Reveillon é nossa Porta da Esperança.
É como se todos nós estivéssemos no programa do Sílvio Santos e todos nós
pudéssemos ter a chance de encontrar o que sonhamos atrás da porta. Um carro?
Um apartamento? Um terreno? Um parente desaparecido?
Antes que a portona dourada se abra, eu fecho os olhos firmemente e em meu coração rezo para que eu encontre e me surpreenda com o retrato de meus desejos mais profundos, minhas curas, libertações, sonhos concretizados, mas... eu sempre encontro muletas e cadeiras de rodas atrás da
porta que se abre do dia 31 para o dia 1 do ano novo. Muletas para me ajudarem
a seguir com meus problemas e cadeiras de rodas para me levaram para onde eu
quiser, sendo dona do meu caminho. Acho que vou também pedir desta vez um
aparelho para surdez, pois ando meio teimosa e ouvindo pouco alguns bons
conselhos, rs. Na virada, eu sempre faço 'listas de ano novo', mas sei que vou seguir com minhas
deficiências e que para um sonho virar realidade é preciso força de vontade,
perseverança, fé, esperança, caridade, ter a mente quieta, a espinha ereta e o
coração tranquilo (estes últimos, meu mantra).
De bate-pronto, em 2013, vou:
- entrar na natação,
- não comer carboidratos após 18h pelo menos 5x por semana,
- marcar aquele exame que deveria ter feito no primeiro
semestre deste ano,
- melhorar o site da minha irmã e criar o meu de consultoria
de imagem,
- mandar pintar minha cômoda,
- decidir o que enquadrar para colocar na parede do meu
quarto.
Em 2013, quero:
- ser mais dona dos meus horários,
- engatar novos clientes pra Byt,
- economizar mais,
- programar uma viagem de férias pra ninguém botar defeito!
- visitar mais alguns amigos queridos,
- faltar menos na academia,
- participar mais de atividades religiosas,
- trocar meu carro por um que eu realmente goste,
- ter boas surpresas ao longo dos dias,
- aprender a usar melhor alguns equipamentos tecnológicos.
Taí. Acho que consigo! E que venha 2013. O ano dos loucos,
dos 13, do azar e da sorte, o ano depois do fim do mundo, provando que sempre
podemos recomeçar!
................................................................................................................................
ps.: gosto desta releitura do Pato Fu, pena que não encontrei uma edição bonitinha :(
14.12.12
Top secret
É sobre o que você menos fala que você mais gostaria de dissertar. É sobre o que você mais teme, que não pronuncia uma palavra sequer. A boca pode proferir mil coisas, mas o que é mais importante fica reservado, no silêncio. Eu, pelo menos, sou assim. Falo pra caramba, mas os assuntos mais especiais são reservados para poucos, e nunca estes poucos têm 100% do conhecimento a respeito. A discrição e a elegância devem também ter papel relevante quando o assunto é assunto importante, especial.
É praticamente a política de como se tratar um segredo. Tem coisa mais detestável que pedir segredo a alguém e esse alguém não cumprir? Detesto quem não sabe guardar segredos. Pior, detesto quem não tem a noção de quão importante é um segredo. Eu levo isso tão a sério, que as vezes me contam um e eu esqueço. Dizem que os bons padres, depois de ouvir confissões as esquecem. Não sei o quanto isso é verdade. Mas não acho absurdo. Segredos são segredos para serem guardados e não debatidos por aí.
Quando eu era criança achava que compartilhar segredos era prova de amor e amizade. Quando alguém me contava algum, repassava para minha irmã. Entre a gente não podia haver segredos! Com o tempo aprendi que quando alguém nos confia um segredo é feio compartilhá-lo e isso não significa que a confiança do outro é menor ou pode ser abalada. Quem me ensinou foi minha mãe, minha maior confidente ao longo dos anos.
Eu tenho alguns vários segredinhos, mas segredos profundos, só dois, e muito relevantes. Só os divido com Deus. Dizem que aqueles que não têm pelo menos um segredo ficam loucos. Por que será? Acho que é porque sem segredos, somos iguais, e se somos iguais, não somos especiais e se não somos especiais não temos valor, todos valemos R$ 1,99. Pensando assim, os segredos nos fazem exclusivos. Vai ver é isso. Gostei.
7.12.12
Viajando em shows
![]() |
| Tirei essa foto no show que fui no Credicard Hall em 2007 ou 2008... ele cantava 'A Letra A do seu nome' |
Eu adoro ir a shows. Não importa muito o gênero musical,
gosto de shows. Gosto do clima que eles nos envolvem, gosto da ansiedade para
começar, gosto das surpresinhas que às vezes acontecem na abertura ou no show
que abre o palco para a banda principal. Não consigo me lembrar de todos os
shows que já fui. Foram muitos bons e muitos ruinzinhos. Desde Bom Jovi e U2
(com abertura de Muse, sensacional) no Morumbi até Bee Gees Cover no ‘Rositão’.
Salvando as proporções e as diferentes emoções que cada um proporciona, adoro
shows de qualquer tipo, tamanho, nível zero, pequeno, médio ou grande de
visibilidade/fama dos artistas.
Pra não dizer que não falei das flores, e como sempre há
exceção, há um tipo de show que gosto menos: os shows no Parque Luís Latorre
promovidos pela Prefeitura onde trabalho, em Itatiba. Não, não são ruins, são
excelentes, mas como estou sempre a trabalho e levo isso muito a sério acabo
não curtindo a atmosfera como as pessoas que estão lá apenas para se divertir. A
maioria quer entrar nos bastidores, meu trabalho consiste em ajudar a organizar
os bastidores, mas eu realmente não espero ansiosamente por nenhum deles. Dá
muita dor de cabeça, acredite. Trabalho é coisa séria e sou caxias com isso. Chata
até.
(Abro um parênteses para um comentário que me surgiu… se eu
ADORO shows e mais ainda ADORO trabalhar, por que não consigo adorar trabalhar
em shows? Mistério…)
Neste fim de semana vou a um show do Nando Reis, que espero
ser sensacional, já que o local é convidativo, o repertório eu conheço e
aprecio muito e já fui a um show dele, portanto sei que não decepciona. As companhias
também serão boas. Não vejo a hora. Acabo de ver que tem um do Chitãozinho &
Xororó por esses dias. Também já fui a show deles e reconheço que os caras
sabem fazer o que fazem. Quem sabe também não vou?!
Uma das coisas boas de fim de ano é a grande variedade de
shows para se ir. Se eu pudesse intercalava cinema – show – cinema –show ou quem sabe, iria ao cinema e emendaria um
bom show dançante! Assim como ventilador, os shows lembram a gente a cada
instantinho que estamos vivos, que o corpo foi feito pra mexer a gente e a
garganta para cantar e esguelar dependendo da empolgação. Não sou fã de ar
condicionado. Aquele ambiente geladinho, parado, que não bagunça cabelos nem derrete
maquiagem ou balança a saia é quase um freezer de ideias e sensações. Gosto do
vento! Assim como os shows, ele nos agita, nos envolve, nos leva a voar e nos
tira do lugar comum. É bom ouvir uma musiquinha no carro, no MP3 enquanto
fazemos exercício, no rádio, em casa, enquanto arrumamos coisas velhas ou mesmo
de olhos fechados antes de dormir. Mas ir a um show e viver o momento que a
música é feita… ahhh isso é demais!
3.12.12
Stop
Disparos sequenciais. Múltiplas exposições. Vários quadros por segundo. Piscadas rápidas dos olhos. Pulso. Pulso. Pulso. Lembro-te em stop motion.
2.12.12
De volta
Adoro escrever. É uma válvula de escape sensacional. Reabro o No Mezanino, cheio de poeira. Fique à vontade.
Conspiração para encarar uma retrospectiva
Fim de ano sempre nos obriga involuntariamente a pensar em nós mesmos. Fazer aquela retrospectiva, mesmo que não queiramos. Nos últimos dias vi uma conspiração se desenrolar para que eu fizesse isso. Estava fugindo, não queria. Mas um dossiê foi arquitetado por alguém, certamente Deus, para eu –por algum motivo não evidente – pensar na minha vida.
Começou com minha amiga Sílvia postando no Facebook um texto dela, de um blog que já não existe mais, onde ela escrevia sobre o ano de 2006, no final dele. Lembrei que tinha um aqui, blog que estava aposentado há algum bom tempo e acabo de retomar, datado do final de 2007 (dá para lê-lo aqui). Busquei, li, achei graça, também postei no Facebook. Depois foi um email. Um email de uma amiga que conheço só há dois anos, uma chinesa, que não fala nossa língua, mas conseguiu me tocar fundo quando comentou alguns detalhes da sua vida que não conhecia e me fez pensar na minha.
A terceira ação desta conspiração que me tirou do comodismo para pensar na minha vida foi o amigo-secreto do pessoal do trabalho. Uma colega está recebendo cartas anônimas com recortes de revista do amigo-secreto dela e todos estão morrendo de inveja. Eu, entre elas, pois adoro surpresas, adoro enigmas, adoro situações inusitadas criadas para a alegria do outro. Enfim, cheguei em minha mesa e havia um envelope pardo, escrito com letras feias “Thais, seu passado te condena. Ass: anônimo”. Abri parecendo criança o envelope e havia só uma foto antiga minha, com um ex-namorado. Não sei a data, mas tinha ali entre 20 e 21 anos a julgar pelo ex e pelo corte do meu cabelo. O que era para ser engraçado me tocou profundamente. Olhei e disse em voz alta: “Ah! Thais! O que se passava na sua cabeça aí, nesta idade?”. Fiquei um pouco reminiscente, saudosa de momentos tão legais da minha vida (aliás, não posso reclamar da minha vida. Sei e adoro viver, felizmente). Ordenei que as memórias não tirassem a concentração da última sexta-feira de novembro no meu dia de trabalho e guardei o envelope. Passou.
Mas não parou aí. Ontem vi no Facebook que um colega de infância, um grande amigo quando tinha entre 9 e 11 anos, faz aniversário hoje. A mente viajou anos no meu passado, mas ia sair, deixei para pensar depois e dar os parabéns via Facebook hoje, o dia certo. Saí, me diverti, engavetei as recordações. No caminho ouvi pela terceira vez nos últimos 10 dias a música “Garotos”, que venhamos e convenhamos, não toca mais em rádios com frequencia, e que também me move a caminhar pela minha vida. Ouvi, cantei, mas não dei atenção às lembranças adolescentes que vieram com ela.
Até que outra ‘perturbação’ me pegou hoje pelos pés. Chegou um gaveteiro que comprei pela internet e resolvi montá-lo. É Fácil de montar, e como diz meu perfil astral (rss) “a libriana é vaidosa, muito feminina, mas pode executar tarefas masculinas sem reclamar, como dirigir um trator ou arar, claro, não sem antes passar batom”. Assim, para a tarefa masculina, prendi o cabelo e liguei meu notebook a fim de por um sonzinho para acompanhar. Com o Windows Media Center, consigo “puxar” todas as músicas da minha pasta, que não são poucas, mas exatamente 1171 (abri e contei).
E o que a conspiração fez? No modo “aleatório” as duas primeiras músicas sorteadas e tocadas na sequência foram Stay, do U2, e Chão de Giz, Grande Encontro. Puxa! Se num talk show eu tivesse que apertar um botão mais rápido que meus concorrentes e responder bem rápido as duas músicas que eu considero como trilha sonora da minha vida eu não titubearia, apertaria o botão e gritaria “Stay e Chão de Giz!” antes mesmo dos concorrentes pensarem.
Foi aí que, ainda mais sendo um domingo, sem desculpas de “tenho algo mais importante a fazer”, resolvi me render à conspiração estranha que está me obrigando a pensar na minha vida. Que fique claro: adoro minha vida. Mas não é fácil parar para encará-la de frente e relembrar decepções, sonhos, momentos bons que deixaram saudades e ruins que doeram. Tem que ser muito mulher e muito homem para fazer isso: analisar o passado, o presente e repensar o futuro. O fim de ano sempre nos aproxima deste momento corajoso de auto-análise. Eu estava fugindo, mas me rendi com toda essa conspiração. Trilha sonora é golpe baixo, né Deus! Jogou sujo comigo... Por que está me obrigando a isso?
Comecei pelo que mais me tocou. Ver minha carinha cheia de alegria e sonhos aos 20, 21 anos. Há mais de dez anos o que se passava pela minha cabeça? Ahhhh eu lembro! E me lembro bem. Estava terminando a faculdade, e, profissionalmente, trabalhava no que amava: vídeo, na tv local da minha cidade. Mas como TV, apesar de paixão, sabia que me consumiria uma vida familiar, que sempre foi minha prioridade, imaginava que em dez anos eu estaria estável na minha área, mas não numa emissora de televisão.
Imaginava que trabalharia numa empresa bacana, sendo líder de uma equipe boa, desempenhando meu papel com competência e reconhecimento. Também achei que meu salário estaria acima da média do mercado, afinal, “sou inteligente, competente, em dez anos estarei arrasando”. Tá, quase ok, quase isso. Não posso dizer que não estou bem profissionalmente, apesar de a realidade não ser bem o que imaginava.
Do ponto de vista familiar, queria que um milagre acontecesse e meu avó, com câncer, melhorasse e voltasse a falar, andar, comer, nos reconhecer, brincar com a gente, rir. Pouco tempo depois chorei muito a morte dele. Hoje, é uma lembrança triste e distante, ruim de lembrar. E eu, na foto, com aquela carinha de menina otimista e feliz não sabia ainda quão dolorido seria perdê-lo. Também queria, ainda sob o ponto de vista familiar, que minha mãe, que estava muito triste na época, retomasse as rédeas da vida dela e fosse feliz. Ufa. Objetivo alcançado alguns anos depois.
Minha irmã fazia faculdade de hotelaria e não conseguia enxergá-la trabalhando nesta área quando formada… isso era uma preocupação de irmã mais velha para mim. Os anos se passaram, ela adaptou o que amava na hotelaria, especilizando-se em gastronomia, e está bem na área. Que bom, preocupações derrotadas.
Com relação a amizades, havia o grupo dos amigos da faculdade, os do colegial e adolescência e os do namorado, que viraram meus também, claro. Era uma turma muito boa e eu, ali, nos meus 20 e 21, tinha certeza que todos seriam pra sempre, assim como o ex. Na minha projeção de futuro naquela época, me via casada com o ex e aqueles amigos indo em nossa casa nos finais de semana fazendo a maior festa. Me via estourando pipoca pros meninos vendo jogo na sala de casa, me via indo no casamento do mais “problemático” com relação a esse assunto. Bem, quanto aos amigos de faculdade ficaram poucos, naquela intensidade de antes. Tenho duas grandes amigas que amo de paixão, mas vejo entre três a quatro vezes por ano apenas, devido a tantas coisas que a gente vive, prioriza ou é obrigado a fazer por conta da rotina.
A relação com os amigos do colegial e adolescência, continua a mesma, deliciosa, também com pouca frequencia de convívio, mas igual ao que era antes. Os amigos daquele ex, ficaram no passado, assim como ele. Ah! E aquele amigo problemático com relação a relacionamento sério foi o primeiro deles a se casar e eu não fui ao casamento.
Muitos outros amigos surgiram neste período da Thais de 20, 21 anos até a Thais de hoje, com recém completados 32. Amigos de outros trabalhos, de outros ex namorados. Se naquele dia que a foto foi tirada eu pudesse visualizar minha vida hoje, certamente me assustaria. Quantas mudanças!
Em essência, não mudei muito. Amadureci o que era aos 20, 21, mas só. Continuo amando surpresas que a vida prepara, acreditando que nada é por acaso, me esforçando para ser uma boa profissional, romântica incurável que crê ‘no amor da nossa vida’ e no melhor das pessoas. Recentemente vivi algo cansativo, mas que foi maravilhoso sob o ponto de vista reminiscente, trabalhei por dois meses com um antigo colega de trabalho e amigo, na área de vídeo. Foi como se eu tivesse voltado no tempo e desfrutado de um trabalho por hobby ao lado de um amigo querido. Foi na verdade o que aconteceu. Agradável surpresa da vida.
Mas voltando à foto. Analiso com carinho: estou mais magra, com os cabelos mais escuros e com o brilho nos olhos típico dos 20 e poucos anos. Um brilho que todos que passaram por esta idade conhecem. O brilho da crença de que tudo irá bem, de que a vida é linda, um parque de diversões. O brilho do amor verdadeiro, com pouca ou nenhuma decepção. Estou na foto, sentada em uma mesinha, em alguma confraternização, de braço dado ao ex, apoiada no ombro direito dele.
Expresso no rosto minha típica cara de “arte”. A julgar por nossas roupas era inverno e além da minha blusa de gola alta, estava com uma jaqueta dele. Vejo a foto e posso sentir a sensação de segurança que eu vivia na minha vida naquela época. Eu era feliz e sabia, assim como sou hoje e sei. Mas a felicidade dos 20 e poucos anos é uma felicidade diferente, sem machucados.
Naquela época eu já fazia algo que infelizmente, continuo fazendo: me boicotando emocionalmente. Mas com poucos tombos eu era muito mais corajosa e menos errante. Que coisa! Há dez anos me saía melhor que hoje, mais madura, em certas situações. Que ruim reconhecer isso. Será este o cerne da conspiração que me fez parar para encarar minha vida?
Stay do U2 me remete a trilha sonora do período que descobri que o amor é essencial e que ser feliz sozinho é menos divertido que com alguém. Stay é uma música triste, mas alegre no meu contexto de descobertas. Stay me lembra que a vida é feita de pessoas de mãos dadas, sejam amores, amigos ou familiares. Chão de Giz marcou a passagem da Thais que vivia sob as asas da mãe para a Thais livre, dona de suas ideias, planos, decisões. As duas músicas me tornam mais fortes e paradoxalmente também mais vulneráveis ao serem tocadas. Encarei, escrevi esse relato e voltarei a montar o gaveteiro.
Para mim escrever é mais fácil que pensar, ou melhor, penso melhor assim. É dolorido relembrar os amores desiludidos, os amigos que hoje estão mais afastados, os sonhos juvenis que não se concretizam como gostaríamos, mas por outro lado é bom demais saber que tudo valeu a pena e que muito ainda está por vir. Venha 2013, venha 2014, venham todos os anos que tiverem que vir. Em 2020 espero retroceder as memórias dos 40 para os 30 anos com a mesma sensação de dever cumprido e com novas histórias cheias de intensidade e sinceridade. Quem sabe, apenas, com menos decepções. Como o brilho nos olhos é típico dos 20, creio que as maiores decepções ficam entre o final deles e início dos 30 e passam. Espero estar certa, dizem que os 30 são os anos das realizações. Enquanto isso ouço Stay e Chão de Giz confirmando que a vida é mesmo uma caixinha de música fantástica e ser a bailarina dançando até a corda terminar é sensacional.
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