24.5.07

Poesia em degradé



O inverno consegue ter uma poesia em tons de cinza extraordinária. O cinza não é uma cor alegre, uma cor expressiva, mas existe em vários tons dentro do degradé do preto. Talvez, assim como tem o poder de desmontar o que é a ausência de cor, o cinza também tenha o poder de revelar tudo o que se esconde por trás das cores. O cinza é um infiltrado, um agente duplo, mas tem a sensibilidade dos bons filmes em P&B, que conseguem aguçar os sentidos e envolver os espectadores com mais subjetividade e beleza que muitos escancarados coloridos.

Esses dias li um texto de um coleguinha que citava a beleza do que é triste e melancólico. Eu não vejo o inverno como uma estação assim porque sou entusiasta dos meses mais frios, mas reconheço (é inegável, aliás) que o inverno é mesmo triste e melancólico e, por isso, belo. O frio sugestiona refletirmos mais, pensarmos mais, repensarmos mais ainda. É como se, quando apertamos as mãos e comprimimos os músculos, buscando aproximar e unir cada uma de nossas células de maneira a formarmos uma barreira indestrutível para frio nenhum derrubar, tivéssemos um momento tão cúmplice com nós mesmos, que propiciássemos essa introspecção. O inverno acaba sendo triste e melancólico porque inspira a solidão.

E quando inspira a solidão faz pensar sobre o estar com o outro, sobre dividir cobertores na sala vendo TV, dividir o vapor do chuveiro fervendo no banheiro, dividir ar quente no carro, dividir sopa de pacotinho. O dividir é um verbo de inverno. Campanhas contra fome, campanhas do agasalho... filantropia tentando aquecer buracos frios causados por erosões presentes em todas as demais estações.

O inverno é melancólico e faz dançar ao ritmo de melodias melancólicas. As músicas que embalam a estação são mais calmas, mais lentas, mais orquestradas do que as que embalam as outras. A trilha sonora acompanha o assobio do vento, os passos firmes de pernas que doem ao se locomover lentamente ou que, apressadas, sobrevoam os pisos querendo fugir do céu aberto e chegar logo a algum lugar onde possam relaxar e sentir o sangue circular mais aconchegado nas veias menos contraídas.

O inverno dá cãibras e muitas vezes não repuxa só pés, mãos, pernas e braços, mas faz declinar o canto dos lábios e dos olhos. O inverno é triste. O frio propicia o acesso às gavetas recheadas não só de gorros e cachecóis, mas também de lembranças lastimosas, de cenas e cenários chorosos. E ele respeita e faz questão de valorizar o conteúdo dessas gavetas, prova é que dá mais atenção ao choro que qualquer outra estação. Se no verão as lágrimas caem e aquecem suavemente as bochechas, no inverno elas rolam geladinhas sobre a pele e nós não temos como negar a existência do líquido que (parecendo ter mais sal e mais açúcar que o normal) deixa um rastro incômodo no rosto.

Mas em meio a todo este desconsolo reside a beleza, e ela sobressai. O segredo está nos movimentos, está aí a essência. Bons filmes em P&B conseguem aguçar os sentidos e envolver os espectadores com mais subjetividade e beleza que muitos escancarados coloridos. Todos os movimentos têm tanta razão de ser que apuram o sentido de todas as coisas. Cada um deles é reflexo de um pensamento, de um diálogo interno, de uma decisão, de uma dúvida. Os olhares ao longe guardam muitas vistas, muitos bastidores e são irreproduzíveis, próprios, únicos de quem os vê. É essa singularidade que está implícita no degradé de cinza. Nossos dias são versos e o inverno é a própria poesia.

5 comentários:

Fabio Chiorino disse...

odeio o frio e o inverno. Só vale se vc estiver em Londres. Mas ok, prometo continuar lendo seus textos para aquecer a mente. Beijão

Anônimo disse...

Thais
Não gosto e nunca gostei do inverno, casacos, muita roupa, falta de movimentos, frio ...Bom foi o tempo que moramos na Bahia, muito sol e sem frio.
Seu pai, Paulo

k; disse...

Existe o provérbio latino "in vino veritas" (no vinho reside a verdade), mas acredito que se adeque melhor se dito "no frio há verdade". No frio a realidade é o que é: o distante fica separado, o próximo se aproxima, as dores são reais, o abraço é verdadeiro, a expressão no rosto é sincera.

Qualquer outro clima nos mostra o que queremos enxergar.

Daniella Harada disse...

É melancolia pura!
As pessoas ficam mais introspectivas, mas às vezes faz bem!
Beijo!

Thais França disse...

Fábio, dias quentes são coisas de dançarinos de axé! rsss

Pai, saudades da Bahia sim, mas não pelo calor. E de vc tb!

K., exatamente... gosto da autenticidade que o frio inspira. Obrigada pela visita!

Daniela, legal você ter voltado. Passarei no seu. E é isso... introspecção faz bem, ajuda a nos conhecermos melhor né!