19.4.07

O Grito

Ele sentava-se à janela todos os dias depois das 13h, quando terminava de almoçar. E almoçava lentamente. Sentava-se à mesa com as pernas paralelas sob ela; os pés emparelhados; os bicos dos sapatos milimetricamente colocados lado a lado. A coluna ereta, queixo erguido e os cotovelos a pelo menos 10 cm do tampo da mesa de vidro redonda e sempre muito limpa, sem manchas, sem nada que atrapalhasse sua transparência.

Ele colocava sempre quantidade de arroz dobrada para a de feijão e a de carne. A salada ficava em um pratinho separado, ao lado direito do principal. A jarra de suco de laranja sem gelo e sem açúcar em frente, no meio da mesa. O copo próximo, à esquerda. Os talheres nos devidos lugares. Não, não havia luxo ou um mise-en-place correto, pelo contrário. A disposição era assim apenas para ele sentir-se à vontade(para ele era assim). Comia devagar, sempre a salada antes, e mastigava muito. Terminava a refeição bebendo todo o suco de uma vez. Usava quatro guardanapos. Um para limpar a boca sem ter comido nada ainda, outro para depois da salada, outro para depois da refeição completa e o último após o suco. Nunca palitava os dentes.

Saía da mesa e sentava-se à janela todos os dias depois das 13h. Sentava em um antigo banquinho de madeira, que sua avó lhe deixara de herança junto com um baú de mogno e uma reprodução de O Grito, de Edvard Munch. Ele sentava no banco e não olhava para fora, olhava para o quadro que ficava em uma parede perpendicular à janela que emoldurava a rua em declive. Aquele marco da arte expressionista nada tinha a ver com a avó e ele se punha a imaginar a ligação entre eles. Entre o quadro e a avó, entre o quadro e ele, entre ele e a avó.

As lembranças de infância eram poucas. A irmã falecida derrubando seus brinquedos, os pais brigando sempre por mesquinharias, a avó inválida tricotando no banco. Nada era colorido. A adolescência havia sido difícil e, após completar 17 anos, saiu de casa. Quinze anos mais tarde ele acumulava diversas tentativas de encontrar um emprego digno. Passou dos 30 sem conhecer o carinho sincero de uma mulher. O amor nunca tinha batido à sua porta e ele nunca tinha movido uma palha para procurá-lo. “Não é para qualquer um”, pensava no fundo. “Um dia talvez apareça”. A melhor parte dos seus dias iguais era almoçar e sentar-se à janela todos os dias depois das 13h e fitar o quadro.

Um dia, depois de tanto olhar e a imaginação não ter mais por onde andar ele acabou hipnotizado. O corpo nunca mais saiu dali. Era como se o houvessem empalhado. A alma, no entanto, saiu correndo pelos quarteirões abaixo, sem roupa, sem fala, sem consciência nenhuma, mas também sem peso e sem rumo.

2 comentários:

Fabio Chiorino disse...

brilhante.....gostei muito desta frase "Usava quatro guardanapos. Um para limpar a boca sem ter comido nada ainda"....adoro estes perfis neurastênicos

Renata disse...

Você está com a veia literária do Gabriel Garcia Marques! Lembrei de "Memórias de Minhas Putas Tristes" ...