23.4.09

Minha primeira vez



A minha primeira vez foi, na verdade, a quarta. E até agora, infelizmente, essa foi a penúltima que me aconteceu. Quando meus olhos chegaram bem próximos a uma das paredes do velho Pingüino*, minha máscara foi alagada por uma água que não vinha do ambiente externo.

Com um sabor de primeiro beijo, assim que consegui me concentrar e equilibrar o corpo, administrando a quantidade de ar do meu colete com o funcionamento do meu pulmão ansioso, vi três pequenos cavalos-marinhos amarronzados enroscados no casco do navio encoberto por vida marinha verde, um verde tão verde que não ousei tocar. A fragilidade dos cavalos-marinhos vivendo ali, harmoniosamente naquele pedacinho do casco assentado numa imensidão de água límpida e salgada demais para mim, fez por alguns segundos eu me sentir extremamente medíocre. Aquela forma de vida tão tranqüila, ingênua, inofensiva e delicada é com certeza bem mais feliz que eu, cheia de preocupações de uma vida corrida. E restavam 49,95 m de casco para eu observar. E toda parte superior.

Nesse trajeto de conhecimento e reconhecimento de território alheio foi aonde percebi que mergulhar é, além de um encontro com o desconhecido, em um ambiente desconhecido, um encontro consigo. É preciso mergulhar na própria corrente sanguínea para um bom mergulho no mar. É preciso mergulhar pelo nosso interior para poder controlar a emoção e a nossa fisiologia. É conversar com a gente mesmo, contar segredos, dividir descobertas com a alma. Mergulhar é mais que ver peixinhos que não sei o nome, ou cavalos-marinhos perfeitos, mergulhar é encontrar com Deus. Foi assim que me senti quando a máscara alagou e minhas nadadeiras cortavam suavemente o azul esverdeado daquele mar.

E como encontrar com Deus não é algo que a gente faz toda hora, continuei movendo minhas nadadeiras desajeitadas, respirando ansiosamente e sentindo o bater do meu coração mais alto por pouco tempo. Enquanto eu me deslumbrava com cada pedacinho do que via, não percebi que subi alguns metros e o amadorismo não deu trégua.

A última coisa que vi foi o instrutor gesticulando “vem, desce”, e nessas alturas meu pulmão ansioso somado ao ar expandido no meu colete foram bem mais rápidos que meu polegar apertando a saída de ar. Subi igual a um rojão e o momento mágico acabou de repente. “Mula!” - pensei e falei. O tempo de mergulho já estava no fim e não desci mais ali.

Mergulhei em um outro ponto, delicioso também, água quentinha, caranguejo-aranha, água-viva, peixes gordos, magros, menores, maiores, estrelas do mar e outras “cositas”. Foi gostoso, vibrante, mas nada comparado ao primeiro beijo. E eu voltei para a embarcação imaginando o que seria da Capela Sistina se Michelangelo tivesse tido a oportunidade de ter feito um mergulho scuba.


* O Pingüino é uma embarcação que desde 1967 adormece a 18 metros de profundidade na Enseada do Sítio Forte, em Angra dos Reis, RJ. É um dos naufrágios mais visitados do país e onde os iniciantes têm a oportunidade de se sentir grandes mergulhadores.

13.4.09

obs.

Aos poucos estou colocando tags em todos os posts. Um dia aparecerá aí do lado a listagem delas, para buscar por palavra-chave. Acho que não estou sabendo escolher as palavras, mas beleza.

Legalzinho





www.photofunia.com

Além de divertido é rápido. Vai lá pra você ver...

Diálogos infames

Sedução

- Toc, toc
- Entraaaa! Pode abrir!!!
- Oi, achei que tinha mania de trancar a porta
- Pra você não
- É que eu pensei que pudesse estar ocupada
- Pra você não
- Aliás, não é cedo para estar aqui?
- Pra você não
- Âmm! Desculpe, achei que estava vestida!
- Pra você não.


Baitola sim, eu também

- Oi, tudo bem?
- Sim
- Já te vi antes...
- Eu também
- Será que foi por aqui?
- Sim
- Acho que vou beber alguma coisa
- Eu também
- Posso, então, pagar uma cerveja?
- Sim
- Hummm, adoro uma loirinha
- Eu também
- Desculpe, não estava...
- Sim
- Eu ia dizer que não estava falando da cerveja
- Eu também
- Peraí, será que estou entendendo bem?
- Sim
- Mas eu sou homem!
- Eu também.



Do contra

- Quero uma Fanta, por favor
- Laranja?
- Uva
- No copo?
- Com canudinho
- Vai pagar em dinheiro?
- No débito
- Quer uma sacolinha?
- Não, vou beber aqui
- Puxa, errei todas, né?!
- Sim. (e saiu triste porque acertou essa)


Indecisão

- Eu quero ser bombeira!
- Legal
- Não, quero ser enfermeira!
- Acho muito batido...
- Tá, então vou ser professora
- Ta fora de moda
- Então eu acho que vou ser bailarina
- Pelamor, sem ofender, mas não ficará bem com aquela sainha...
- Hummm então...
- Vó, escolhe logo a fantasia que a terceira idade inteira já está na festa.

6.4.09

voar ou ser invisível?

Quero voar e quero poder me desgarrar e ir até aonde o sol me queimar mais forte. Quero subir e sentir o vento passar por baixo de mim. Quero acelerar e atravessar a atmosfera para ver o que tem depois dela. Quero ver um arco-íris de cima e quero ver o mundo no formato que a gente estuda no globo. Quero voar. Mas, às vezes, preferia ser invisível. Nessas horas, eu teria desejos mais humildes que os de voar. Eu simplesmente iria a lugares onde conversas são proibidas e ficaria no meio, ouvindo tudo. Também entraria na casa de desconhecidos para bisbilhotar o que guardam no armarinho do banheiro, coisas assim. Entraria numa loja de perfumes, maquiagens e demais coisinhas femininas e roubaria as mais gostosas. Sairia rindo por ser uma ladra fora do comum e imune às leis dos seres humanos visíveis e palpáveis. Dirigiria em plena luz do dia e faria questão de parar em semáforos e buzinar, para chamar atenção e as pessoas se assustarem. Trocaria as coisas de todos os lugares de lugar. Ia numa praia de nudismo. Iria a todas as sessões de cinema possíveis sem pagar. Iria a shows e ficaria no palco, sentindo a vibração do som no meu corpo invisível. Caminharia pela Paulista sem medo em plena madrugada. Dormiria no meio do mato, sem me preocupar com insetos. E antes de voltar ao normal, acabava com as Nhá Bentas e com os bombons de cereja da Kopenhagen mais próxima.

30.3.09

Vida, uma conhecida minha.

Enquanto o blog estava em coma, a Vida vivia. Mas de praticante de exercícios leves a Vida passou a triatleta. Está correndo, pedalando, nadando, sempre numa velocidade alta demais. E na correria grava os momentos, tira fotos, manda por e-mail uma newsletter de vez em quando. A Vida bateu recordes de velocidade em pouco tempo e acabou percebendo que as pernas não agüentariam. Foi ao shopping e comprou rodinhas. Já trocou umas seis vezes desde janeiro, quando engrenou nessa rotina sem freios nem pára-choques. A Vida, portanto, está ficando doidinha. Semana passada saiu pulando de pogobol pela rua, pelada, gritando. Nesta segunda-feira pulou do alto de uma sacada, achando que era gato e que cairia sobre as quatro patas. Por sorte voou. A Vida está tão rápida que acelerou pro futuro e conseguiu acertar os movimentos exibidos naquele filme Matrix. A Vida pirou mesmo. Foge de balas, de socos, de enxurradas de línguas maldosas que caem afiadas do céu querendo cortá-la em pedacinhos. E foi assim que desenvolveu nova habilidade: ficar invisível. A Vida está evoluindo absurdo. Ela acaba entrando em crise de nervos quando percebe. É que são movimentos bruscos demais. Contei que ela virou elástica? Pois é, coisa que só Charles Darwin e Einstein juntos poderiam entender e explicar. O mais intrigante é que está cada dia mais doida, mas também cada dia uma doida mais lúcida. É controversa mesmo. Aí, quem explicaria seria Freud. Ou não. Deve estar tomando ginko biloba, guaraná em pó e ginseng. Vive de olhos abertos. Não dorme. Às vezes dá um medo da bichinha! Ela anda com tudo. Voa com tudo. Mergulha 100%. E quando você vira, ela já foi. Ta lá na frente. De cabelo em pé, mas com um lacinho pra enfeitar.

25.3.09

Workaholic

Tem dia que a dor nas costas é pior e tem dia que lembro que existia uma tal de LER. Tem dia que reparo que a cadeira está mais alta do que deveria, e que a posição do monitor não atende às normas. Tem dia que o sol se põe e a lua me observa ao longe, tímida, no quadrado da janela do escritório. Geralmente nesses dias, quando vou embora antes das 21h30, acho incrível! Uma conquista. Nesses dias penso: “queria correr, queria fazer academia, queria ver mais tv, queria ir ao shopping em plena segunda-feira, queria...”. Mas aí, ao desligar o computador, apagar a luz e por o celular no bolso... me dá uma saudade do expediente!

E eu pensei nessa música para acompanhar. Não sei por quê. Ela combina muito mais com o final de semana... (que, juro, não vejo a hora de chegar)

5.1.09

Coma

Este blog está em coma.
Talvez um dia volte, mas está respirando por aparelhos... seilá.

TF

27.11.08

pensando...

Vi num blog muito sensível a seguinte frase em um post:

"Você não tem uma alma. Você é uma alma. Você tem um corpo."
C. S. Lewis

Claro que isso me fez pensar. E pensar em quantas coisas imbecis acontecem, por não termos foco nisso. Preconceito, amarguras, doenças emocionais, separatismo... talvez o mundo fosse melhor se nossos olhos não nos traissem tanto. Talvez o mal não conseguisse se apoderar de nosso juízo se houvesse mais pureza filtrando nossos olhares.

Uma colega sempre diz que quanto mais conhece os homens, mais gosta dos cães. É justo! O cérebro deles não têm a capacidade de se contaminar com as maldades do mundo. Aí, quem enxergam e farejam são recebidos conforme a essência que possuem. A ingenuidade e inocência dos cães não poluem seus sentidos.

13.11.08

teto de vidro

Antes mesmo de entrar, mas já ao tocar a campanhinha, conseguia sentir a casa da avó. O cheiro de sempre, a claridade de sempre, que em dias de céu aberto, independente da estação do ano, iluminava os móveis da mesma forma, às 10h da manhã. A posição da mesa de jantar, do sofá e dos tantos relógios fora de sincronia, que badalavam “a hora certa”, cada um em um momento, compunham o cenário atemporal. Não fosse a estante nova e alguns badulaques enfeitando as prateleiras, a sala pareceria compor um museu de cera, daqueles bons, que a gente jura que é de verdade.

Entrou, a avó deu-lhe um abraço. Ao contrário da sala, ela era vulnerável. Estava mais magra, mais baixa e mais enrugada que antes, mas continuava idêntica, por contradição. Sentaram no sofá. O crochê de barbante e flores de plástico, que como diz a música “não morrem”, faziam-se confirmação de todo aquele quadro estático e coberto de uma poeira invisível, que só quem tem memórias consegue enxergar.

Tudo estava em perfeita harmonia até que ela passou pelo corredor. Estreito, com cerca de um metro apenas entre uma parede e outra, foi impossível não dar de cara com um quadrinho novo. Emparelhado ao velho retrato dela ao lado do primo e irmã, estava ali um outro, com as mesmas personagens, na mesma posição, mas revelado quase vinte anos depois. Agora jogador de basquete, o primo abraçava as duas moças, bem menores que ele, uma de cada lado.

A foto do quadrinho novo, feita exatamente para estar ali, já tinha dois anos, mas ninguém havia lembrado de ampliar e estava esquecida em um computador. Os sorrisos sinceros não deixavam dúvidas que aquelas crianças e aqueles adultos eram as mesmas pessoas. Para quem via, uma curiosidade e um bom enquadramento, mas para cada um deles, um intervalo de tempo cheio de acontecimentos bons e ruins.

A presença do quadrinho novo abalou as estruturas, como se quebrasse um paradigma. De repente a sala não era mais de cera. De repente os relógios moveram rápido demais os ponteiros. De repente tudo parecia estranho e o garotinho com menos de um metro de altura e as priminhas que o ladeavam com blusas do mesmo tecido e colarzinho de miçanga, tiveram que crescer e soprar a poeira sob aquela mesma luminosidade das 10h da manhã.

23.10.08

o fim

Desculpa, eu sei que você esteve comigo por dias e dias e sei que pareceu que eu realmente me importava com você. Sei também que eu disse ser apaixonada por você mais de dezenas de vezes. Inclusive, declarei isso na frente de outras pessoas. Eu sei. Não que eu quisesse te deixar apaixonado, não que eu quisesse que você acreditasse que era sentimento de fato, de verdade, real, algo além de saliva e mordidas. É que sempre que nos víamos eu precisava de saciedade imediata e lá estava você, e lá estava eu dizendo bobagens. Desculpe. Você tem que entender que não tem nada e nunca teve nada de concreto e profundo entre a gente, só uma troca de energia fluida e quente. Saborosa sim, mas nada que envolvesse intimidade, só um relacionamento superficial e deliciosamente sem cobranças. Agora que isso mudou e me dou mais valor, tenho que colocar um ponto final. É sério. Esqueça de todos os bons momentos. Quando tiver dúvidas, lembre da minha voz repetindo com força e crueldade: Mc Cheddar, você está fora da minha vida. Você e suas batatinhas crocantes cheias de sal, que ficam ótimas com ketchup.

24.9.08

momento chicletinho

Gosto de ouvir músicas de dor de cotovelo e não me encaixar, mas gosto mesmo é de me acomodar em suas notas meio desafinadas e na sua caixa de distorção (é assim que chama aquele tréco cheio de botões?). Gosto de torcer para você ficar mais um pouquinho e dar certo, gosto de ficar presa entre seus caninos. Gosto de ser sua presa, e de te prender também. Gosto do seu sofá vermelho e de colocar meus pés ao lado dos seus na cadeira fora de lugar e de ter medo do suspense à frente ou da sua cabeça baixa no batente da porta. Gosto que você seja assim, grande, pra eu me sentir pequena e sua, gosto de ser cuidada por você. Gosto de lembrar de você e de mim como passado, só pra ficar mais feliz sabendo que é presente. Gosto de você embrulhado ou só numa sacolinha. Gosto de você mesmo num envelope, sem nem etiqueta, sem capa e caixa de DVD. Não preciso ter o gênero, nem a data de gravação, ou a trilha sonora no estojo preto. Eu conheço a história e gosto dela. Gosto de tê-la sempre no play, como a fita "Os Caça Fantasmas", que minha irmã via cinco vezes por dia em 1990 e alguma coisa. Gosto de fazer mil coisas, mas você estar sempre no pensamento. Gosto de você ser parte e não incomodar. Você está em todos os lugares, até aqui.

queria a velocidade da luz nos dias úteis (?)


Trabalho, escrevo, corro pra lá e pra cá, bebo mais água que o usual, arrisco subir uns degraus ao invés do elevador, quero gastar meu tempo, quero que ele acabe, não quero que ele me prenda como cola, como aquela cola de armadilha de rato. Quero ganhar uma corrida que canse o tempo e faça o relógio parecer acelerado, e acabado. Saio, rio, bebo, como, falo com pessoas na mesma língua que eu. Busco palavras diferentes, assuntos diferentes. Quero sucumbir o tempo, quero sentir que ele é menor do que realmente é. Tento enganá-lo e persuadir meu relógio biológico que as horas não são longas demais. Olho pela janela do sétimo andar, viajo nas montanhas que ficam ao fundo da paisagem cheia de ruas e carros em primeiro plano. Quero que o tempo corra como os carros e motos que cortam a frente de ônibus e pedestres no chão. Quero que o tempo seja inversamente proporcional à lenta velocidade das nuvens que pouco se movem entre as montanhas. Quero que o tempo passe logo, quero que chegue logo o fim de semana para pelo menos um tiquinho eu ter você em slow motion, se possível for.

19.9.08

17 de novembro de 2007

Pernas e pernas, coxas. Estômago borbulhante encostado no dele. Costelas cobertas. Próximas. Carne. Seios inflados num sutiã de armação, adrenalina correndo nas veias, artérias e músculos, e na gordura localizada, e na pele e nos pelos. Amassam o peito dele, empurram, sentem, saboreiam. Braços, abraço, mãos de um lado ao outro das costas. Pescoço nu, perfume cru, pescoço cru. Gosto sem cozer. Oxigênio em abundância enche os pulmões, inspira, expira, ar quente em pouca distância. Boca, língua, dentes, lábios, papilas e braços e pernas e pescoço cru. Olhos fechados para imortalizar e fazer real. Ouvidos abertos fazendo a música penetrar. Boca. Língua. Lábios. Papilas. Braços e pernas e mãos. Aroma, sabor, textura. 17 de novembro de 2007, semana passada, semana que vem.

3.9.08

a cozinha

Dentre as experiências na cozinha havia pouca coisa a salientar: um mousse de limão espetacular, tentativas amargas de fazer arroz na panela com solução encontrada quase um ano e meio depois de muita desgraça e um susto provocado pela união de frango, óleo e fogo. O pequeno espaço que guardava uma geladeira novíssima e sempre 99% vazia, um fogão especialista em assar comidinhas prontas e uma pia com armário repleto de panelas e travessas quase sem uso, era praticamente cenográfico. É verdade que sempre tinha louça suja na pia, o que dava bastante veracidade ao ambiente, mas a cozinha não era um local de fumaça aromatizada por temperos e respingada por caldos saborosos. Não. Era mesmo o que tinha depois da porta de correr da sala, e o que vinha antes do armarinho de dispensa com o soberano microondas em cima. O teto ainda cinza pelo resultado da citada união de frango, óleo e fogo continuava assim desde o ocorrido mais de 365 dias antes. O relógio de parede sem pilha continuava sobre a banqueta de madeira e o pingüim de pelúcia estava imóvel desde sempre, no alto e sem resquício algum de gordura, apenas pó.

Em toda a história daquela cozinha só um dia deste ano teve destaque, o dia 2 de agosto. Com a presença das caixas na sala, a cozinha ganhou atenção e uma vontade enorme de fazer aquele maquinário enferrujado funcionar emergiu dos tupperwares escondidos na profundeza de uma gaveta. De comestível havia poucos elementos: açúcar, barrinhas de cereal, macarrão penne, um pacotinho de gelatina, uma lata de creme de leite e uma de leite condensado. Assim, o avental saiu do ganchinho na parede, o abridor e colheres das gavetas e a fôrma de pudim foi lavada e enxugada com pano de prato limpíssimo. O mix elétrico mexeu ou ingredientes à base de leite com a gelatina recém feita na preferida panela vermelha. Pronta, a sobremesa foi para a primeira grade da geladeira, lugar de respeito. Depois que as caixas engolissem tudo, o doce seria companhia e remédio. Seu papel era importante. Tratou de manter-se bem firme e gostoso.

a.c e d.c

Depois que saíram do carro, as caixas subiram pelo elevador e ficaram na sala. Elas ocupavam uma parte considerável do chão. Estavam amontoadas e podiam enxergar também a cozinha e a pequena área de serviço. “Logo vamos engolir tudo o que tem nessas gavetas!”, comentou uma com malícia. Ao que outra completou: “Não vai sobrar nenhuma coisinha também em cima dos móveis. Olha aquelas velas ali, e aqueles castiçais. Vão ficar todos amontoados aqui em mim, hehehe”. As caixas riam sarcasticamente das peças de decoração, dos quadros, das toalhinhas coloridas, dos livros e CD´s, de tudo que perderia sem lugar.

Elas ainda estavam em um canto, mas logo dominariam o pedaço e sabiam disso. Aliás, aguardavam ansiosas pela apoteose. Passaram a noite imaginando serem recheadas de partes de vida de objetos inanimados. De lá, iam para um caminhão fechado e escuro e tudo que engoliram seria eliminado apenas quase 200 km de distância depois. Elas eram más. Elas sabiam que fariam diferença, pois elas carregariam história sem deixar pedra sobre pedra. Elas iriam colaborar ativamente para o fim de uma fase. Elas eram divisores de águas. De repente, criara-se uma era: antes das caixas e depois das caixas.

27.8.08

às vezes...

Às vezes dá vontade de correr, correr sem parar, pulando obstáculos, costurando vias, alternando estrada de terra, asfalto, paralelepípedo, mármore escorregadio. Chão liso de shoppings ou de grandes supermercados, fechados para limpeza, cheios de sabão. Dá vontade de correr e se jogar ali, para a espuma ajudar a ir escorregando pra frente. Medida bem humorada de criança que quer rir, sem se importar em molhar a bunda.

Às vezes dá vontade de chorar, chorar muito mesmo, exageradamente como tudo que acontece naquela propaganda do Novo Fiesta, que o pessoal fala “tudo bem!”. Chorar até as lágrimas acabarem, até o rosto ficar molhado e o pescoço melado. E as roupas respingadas. E as mãos cheias de rímel e lápis preto. Sabe aquele choro que depois vira risada, risada da própria tragédia? Então, às vezes dá vontade de ter tragédia só pra rir da comédia do fundo do poço.

Às vezes também da vontade, sabe do quê? De andar sem sapato. Não dá? Às vezes bate uma vontade de ficar descalça e sentir o geladinho do chão! Dá vontade de procurar imperfeições no piso e senti-las com os dedos dos pés. Dá vontade de fazer todo mundo ficar assim e jogar os sapatos do alto de uma janela bem alta, e ficar olhando o que vai acontecer com eles quando terminarem a queda livre. Ou então, dá vontade de arrancar e jogá-los na pista, em alta velocidade e dirigir descalça. É gostoso sentir os dedos nos pedais. É legal sair com a sola do pé suja.

Às vezes dá vontade de envelhecer para virar aposentada e curtir cinema de graça, teatro, andar de ônibus pela cidade à toa, ouvindo as conversas dos outros. Às vezes dá vontade de ser criança de novo e poder fazer absurdos sem ninguém achar anormal, só, no máximo, levar bronca por ter saído da linha. Às vezes dá vontade de ser pipa e ficar voando no céu. Mas aí, dá vontade de ser passarinho e ser pipa perde a graça, apesar do charme. Quando bate a vontade de ser passarinho é uma gostosura. O cenário é entardecer com pôr-do-sol e um ventinho refrescante sopra no rosto. O cheiro de eucalipto vem junto com a vontade de ser passarinho sempre voador.

Às vezes dá vontade de tomar banho na bacia de alumínio da minha avó e ficar jogando água nas pessoas que passam, mas só meus pés cabem nela hoje em dia. Poderia ser ruim, mas realizaria três vontades de uma vez: a de voltar a ser criança, a de ficar descalça e a de ser passarinho, porque, para isso, é só fechar os olhos e ficar quietinha. Qualquer dia vou experimentar.

26.8.08

pensando em quereres ...

- Quero ter um apartamento com pouca parede e uma bela varanda numa rua larga/avenida arborizada (não tem problema ter barulho, mas tem que ter luz ambiente bacana contrastando com as folhagens que deverão formar um corredor dividindo as mãos da rua larga/avenida).

- Também quero um New Beatle amarelo (me dei conta que é meu preferido depois do Mini – nada acessível – no fim de semana. O marido da minha amiga quer que ela compre um e ela está titubeando... estou trabalhando para ajudar a colocar a cabeça dela logo no lugar e ela aceitar a idéia).

- Quero poder escrever bem em algum lugar, quero ser cronista um dia. Mas de verdade, e nacionalmente reconhecida. Ou mais.

- Sempre quis um irmão gêmeo, mas isso sempre foi impossível e desde cedo aprendi que existem coisas que estão além do nosso alcance e, as que não estão, precisam de uma forcinha para serem conquistadas. “Tamoaê”.

- Queria que meu cabelo estivesse como há uns meses, antes de eu cortar. Mas eu tenho certeza que se eu não tivesse cortado estaria marcando horário no salão ou já teria cortado e daqui uns meses teria me arrependido, ou seja: ok.

- Queria pelo menos dois abraços do Lu por dia (daqueles que é só abraço mesmo), uns quatro beijões e uns pares de beijinhos.

- Queria comprar um shopping com tudo dentro e ficar uma semana sozinha nele, só me divertindo! Hehehe!

- Queria um monte de coisas que o dinheiro compra, como uma lipo e os dentes mais brancos do mundo, mas meu dinheiro anda curto e me contento com greve de chocolate e de massas e pasta dental Whitening.

- Queria uns dias de férias de mim, só pra querer voltar pra mim de novo e me sentir aliviada de eu ser eu e não outra pessoa. Só pra ter certeza, sabe?! Outro dia minha mãe perguntou se eu queria ser outra pessoa. Não queria não, mas seria legal saber como é. Se hoje eu pudesse escolher, queria um dia ser o Phelps, no outro o Eric Moussambani (lá nos 15 min de fama dele) e no outro eu mesma, mas com 9 anos, na aula de natação. Depois voltaria pra mim mesma hoje e pensaria “devia nadar”.

analogia

Poeta me desculpe, mas ganhar poema de você é fácil. Você faz isso com o pé nas costas. Desculpem-me também os floristas e jardineiros, não quero rosas vindas de vocês. Assim é fácil também. Eu sei, eu sei. Entendo que o compositor esteja me achando chata e desagradável por não aceitar uma música fresquinha feita para mim, não quero. É bom ganhar um cartão decorado com pincel e aquarela, mas não vindo de um artista. Aceitaria bombons comprados por um diabético que só conhece sabores salgados e uma melodia quadrada de quem não sabe tocar guitarra. Quero coisas sinceras e palavras que tenham tido dificuldade para sair, porque o medo estava fechando a garganta e as inseguranças travando a língua, mas elas conseguiram virar frases e olhares reais. Quero vento de ventilador e não de ar condicionado. Ontem comprei um vasinho de flores para mim.